segunda-feira, abril 30, 2012


O Longo Trabalho de Deus


Deve existir pelo menos quinhentos milhões de budistas vivendo hoje em dia, espalhados pelo mundo, mas a situação era bem diferente quando o próprio Buda estava pregando!

Buda era príncipe de nascimento, mas desgostoso com as condições ignorantes com as quais o homem se havia resignado - as condições de tristeza e de sofrimento - deixara seu palácio em busca da luz.

Depois de longa e árdua penitência, descobriu que o desejo estava na raiz de toda a miséria humana e que, se o homem pudesse ficar completamente livre do desejo, conseguiria a paz e a bem-aventurança.
 
Porém, ele sabia que não era possível a todos ficar totalmente livres de desejos.
 
Contudo, persistiu em dizer a verdade aos homens, pois pensava que haveria algum benefício se eles aprendessem alguma coisa.
 
O homem poderia ser feliz, até certo ponto, se ganhasse controle sobre sua avidez e outras paixões.
 
Assim, Buda, com um punhado de discípulos, errou pelo país, espalhando sua mensagem entre o povo.
 
No início de sua missão, poucas pessoas o ouviam. Não apenas isso, havia ocasiões em que era expulso das portas e lhe recusavam até mesmo abrigo por um pouco.

Certa vez, num dia de verão, quando o sol abrasador queimava no céu, Buda sentou-se e, reclinando-se sob uma árvore à beira da estrada, suava profusamente e parecia cansado.

Um de seus jovens acompanhantes, que sabia de que maneira luxuosa Buda havia passado sua infância, pensou consigo mesmo: "Nesta hora, ele poderia estar confortavelmente descansando em seu palácio num divã de marfim, com donzelas encantadoras abanando-o ou aspergindo água fria e perfumada sobre ele, com músicos tocando doce acalanto do lado de fora de seu dormitório.
 
Mas que pena! Que vida dura ele escolheu!".
 
À medida que o jovem pensava mais sobre isso, lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Isso não escapou à atenção de Buda que perguntou:

"O que o faz tão triste?"

"Meu Senhor!", explicou o jovem, "que outros não saibam, mas eu sei que o Senhor é o Divino.
 
Se quisesse, poderia dar iluminação e bem-aventurança a todas as pessoas instantaneamente.
 
Em vez disso, por que se dá ao trabalho de viajar e falar a pessoas sem caridade?"

Buda ficou quieto, mas sorriu, e isso foi bastante para encher de paz o coração do discípulo.

Dias depois, durante um semelhante meio-dia tórrido, quando descansava sob uma árvore nas proximidades de uma aldeia, Buda chamou o mesmo jovem para seu lado e disse:

"Meu filho, vá à aldeia mais próxima; procure todos os chefes de família e pergunte-lhes o que mais desejam, o que os faria felizes e satisfeitos!"

Imediatamente o jovem partiu para a aldeia vizinha, como lhe fora ordenado, enquanto o Mestre aguardava no local. Já era quase noite quando o jovem retornou.

"Quantas pessoas você encontrou?
O que responderam às suas perguntas?" indagou Buda.

"Meu Mestre! Visitei uma centena de casas e encontrei os chefes de famílias.
 
Cinqüenta deles disseram que seriam felizes se seus filhos fossem venturosamente casados e estivessem estabelecidos na vida.
 
Dez desejavam melhores casas para morar e outros dez disseram que seriam felizes se fossem curados de suas doenças.
 
Dos restantes vinte, metade desejava ser famosa e o mais apaixonado desejo da outra metade era sair vitoriosa dos litígios em que estava envolvida", declarou o discípulo.

"Quantas pessoas queriam liberação de desejos?
Quantos disseram que seriam felizes se conseguissem iluminação?", perguntou Buda.

"Meu Senhor!
Nem mesmo um!", gaguejou o discípulo.

Buda sorriu e disse:

"Veja meu filho, como posso eu dar a alguém aquilo de que ele não sente a menor necessidade?"

O discípulo ficou silencioso.
E, em silêncio, compreendeu o significado do longo trabalho de Deus entre os homens através dos séculos.

- Manoj Das -
(Texto extraído do livro "Histórias da Índia Antiga"; Editora Shakti)


O enforcado de La Piroche

Todos os mistérios tem sua explicação !!!  Conheça o mistério do enforcado de La Piroche .

La Piroche é uma aldeia que deve ser como todas as outras; a ação se desenrola justamente em 1448; que um dos dois homens é o pai do outro, ambos camponeses, e vão trotando em seus cavalos a uma velocidade até razoável, tendo em vista que carregam camponeses.

— Será que chegaremos a tempo? — perguntava o filho.
— Sim. Vai ser às duas horas, e pela posição do sol deve ser ainda meio-dia.
— Não quero perder, pois tenho muita curiosidade em ver como é. Vão enforcá-lo com a armadura que roubou?
— Exatamente.
— Onde já se viu, o sujeito ter a idéia de roubar uma armadura!
— O difícil não é ter a idéia...
— É ter a armadura, eu bem sei — atalhou o filho, aderindo à brincadeira do pai. — E a armadura era boa?
— Dizem que era magnífica, toda marchetada de ouro.
— E o pegaram quando a levava?
— Sim. É fácil compreender que uma armadura não concorda em ser roubada sem montar um escarcéu de todo tamanho. Ela não queria abandonar o dono.
— Era de aço, e deveria ser muito pesada.
— O ruído que ela produzia despertou o pessoal do castelo.
— E logo puseram a mão no ladrão?
— Não exatamente assim. Primeiro ficaram com medo.
— Quem é roubado sempre sente medo dos ladrões. Se não fosse assim, os ladrões não levariam nenhuma vantagem.



— E também as vítimas não sofreriam nenhuma emoção. Mas o caso é que o pessoal do castelo não se julgava diante de ladrões.
— Diante de quem, então?
— De um fantasma. O infeliz era muito forte, e carregava a armadura de pé, na frente do próprio corpo, mantendo a cintura dela na altura da própria cabeça. Quem via, na obscuridade, tinha a impressão de um gigante. Acrescente a isso o ruído surdo que o ladrão ia fazendo por detrás da ferragem, e entenderá o espanto dos criados. Por azar dele os criados foram acordar o senhor de La Piroche, que não tem medo de vivos nem de defuntos. Ele sozinho o prendeu, amarrou-lhe as mãos e pés e o entregou à sua própria justiça.
— E a sua própria justiça...
— Condenou-o a ser enforcado, revestido da armadura em questão.
— Por que puseram esta cláusula na condenação?
— Ah! Porque o senhor de La Piroche, além de ser um valoroso capitão, é um homem de bom senso, engenhoso, e quis transformar a execução num exemplo para os demais e em proveito para si próprio. Segundo dizem, aquilo que esteve em contato com um enforcado se transforma em talismã para seu dono, e ele quis o delinqüente dentro da armadura para poder recolhê-la depois, e assim contar com uma proteção a mais durante as próximas guerras.
— Bem engenhoso, de fato. Mas é bom nos apressarmos, porque não quero perder o espetáculo.
— Não vale a pena cansar os cavalos, pois vamos prosseguir viagem uma légua depois de La Piroche, e depois ainda voltar a La Poterie.
— Sim, mas como só voltaremos à noite, nossos cavalos poderão descansar umas cinco ou seis horas.

Pai e filho prosseguiram caminho conversando, e meia hora depois chegaram a La Piroche. Havia grande afluxo de gente na ampla praça diante do castelo, onde se havia erguido o patíbulo: uma preciosa forca de madeira muito boa, na verdade pouco alta, mas o suficiente para que a morte desenvolvesse o seu trabalho entre o solo e a extremidade da corda.

O condenado podia contar com um lindo panorama para morrer, pois ficaria com o rosto voltado para o oceano. Seria um consolo, embora me pareça bem insuficiente. O mar estava azul, e de vez em quando deslizava pelo azul do céu uma nuvem branca, como um anjo que dirigisse a Deus uma prece.

Os dois companheiros se aproximaram do patíbulo o quanto puderam, para não perder nenhum detalhe do que ia acontecer. Tinham a vantagem de estar montados, e podiam ver melhor sem se cansar. Não esperaram muito. Pouco antes das duas horas abriu-se a porta do castelo e apareceu o condenado, precedido da guarda e seguido do carrasco.

Vinha com a armadura, montado de costas em um burro sem arreios. As mãos estavam amarradas às costas. A julgar pela postura, tendo em vista que o rosto estava encoberto pelo elmo, devia estar pouco à vontade, e fazendo as mais tristes reflexões.

Levaram-no até o patíbulo, e começou a desenrolar-se ante o réu uma cena pouco agradável. O verdugo acabava de encostar a sua escada na forca, e o capelão lia o processo do alto de um estrado. O condenado não se movia, e espalhou-se o boato de que ele resolvera morrer antes de ser alçado à forca, para desgosto dos espectadores.

Mandaram que ele apeasse do animal e se aproximasse do verdugo, mas ele continuou imóvel. Indecisão que compreendemos facilmente. Então o verdugo o agarrou pelos cotovelos, desceu-o do burro e o pôs de pé no chão. Ao dizer que o pôs de pé, não mentimos, mas mentiríamos se disséssemos que permaneceu assim, pois em dois minutos havia percorrido dois terços do alfabeto, o que na linguagem corrente quer dizer que em vez de permanecer reto como um I, havia chegado ao Z.

Durante esse tempo o capelão terminara a leitura da sentença.
— O condenado tem algo a pedir? — perguntou.
— Sim — respondeu o desgraçado, com voz rouca e triste.
— O que deseja?
— Quero meu indulto.
Não sei se a palavra farsante já havia sido inventada, mas a ocasião para isso era sem dúvida muito boa.

O senhor de La Piroche deu de ombros e ordenou ao verdugo que pusesse mãos à obra. Este começou a subir decididamente a escada do patíbulo, com toda a força de que dispunha para separar uma alma do corpo.

Tratou também de fazer subir na frente o condenado, o que não era tarefa fácil, pois os condenados inventam toda sorte de dificuldades para morrer. Para fazê-lo subir, o executor da justiça teve de recorrer ao meio de que já se valera para fazê-lo descer do animal: agarrou-o pela cintura e o foi empurrando para cima.
— Bravo! — gritou a multidão.

Não havia recurso, e ele teve de subir. Então o verdugo passou destramente o nó corrediço da forca em torno do pescoço, deu um empurrão nas costas do condenado e o lançou no espaço. Um imenso clamor acolheu esse desenlace previsto, e um estremecimento correu a multidão.

Por grande que seja o crime que tenha cometido, um homem que morre na forca está sempre, ao menos durante um instante, acima dos que o vêem morrer. O enforcado balançou durante dois ou três minutos na ponta da corda. Como tinha direito a isso, debateu-se, contorceu-se, e depois ficou imóvel — o caminho inverso do Z ao I. Os espectadores ficaram olhando ainda durante algum tempo, logo se dividiram em grupos e tomaram caminho de casa.

Os dois camponeses também retomaram o caminho.
— Ser enforcado por não ter podido roubar uma armadura é um pouco caro, não acha? — perguntou o pai.
— Gostaria de saber o que ele teria feito com a armadura, se tivesse conseguido levá-la.
— De fato ele foi mais castigado por um crime que não cometeu.
— Sim, mas teve a intenção de cometê-lo.
— E basta a intenção para...
— É perfeitamente justo.

Chegando ao alto de uma montanha, olharam para trás, a fim de contemplar pela última vez a silhueta do desconhecido. Vinte minutos depois chegaram ao povoado seguinte, de onde deviam voltar à noite.

Quando amanheceu o dia seguinte, dois soldados saíram do castelo para remover o cadáver do enforcado e recolher a armadura. Mas encontraram uma situação que nem de longe poderiam imaginar: tudo estava no lugar, mas o enforcado e a armadura haviam desaparecido. Julgaram que estavam sonhando, esfregaram os olhos, mas o fato era real.

O enforcado e a armadura haviam sumido. E o mais extraordinário é que a corda não estava cortada nem rompida, permanecia como antes do enforcamento.

Os soldados foram anunciar ao senhor de La Piroche o que viram, mas este não quis acreditar, e decidiu confirmar com seus próprios olhos. Sendo tão poderoso, pensava que um mísero enforcado não ousaria desobedecer-lhe, e o encontraria onde o mandara ficar. Mas não viu nada além do que os outros haviam visto. Que teria acontecido? Não havia dúvida de que na véspera o sentenciado ficara bem morto ante os olhos de todos.

Teria um outro ladrão aproveitado as trevas noturnas para roubar a armadura? Mas se fosse assim, teria deixado o cadáver, que de nada lhe adiantaria. Será que os amigos e parentes do morto quiseram dar-lhe uma sepultura cristã? A hipótese não era absurda, mas o delinqüente não tinha amigos nem familiares. Mesmo se os tivesse, eles teriam se limitado a carregar o cadáver, deixando a armadura. O que pensar do ocorrido?

Desolado pela perda da armadura, o senhor de La Piroche mandou publicar a promessa de uma recompensa de dez moedas de ouro, para quem entregasse o culpado, desde que com a roupa usada na execução. Ninguém se apresentou. Foram revistadas todas as casas, mas nada se encontrou. Fizeram então vir de Rennes um sábio, e lhe puseram a pergunta:
— Como é que um enforcado morto pôde fazer para livrar-se da corda que o mantinha no ar?
Depois de oito dias de meditação o sábio respondeu:
— Ele não conseguiu soltar-se.
Apresentaram-lhe então a seguinte pergunta:
— Um ladrão que não conseguiu roubar enquanto vivo, e que foi condenado à morte por roubo, pode roubar depois de morto?
O sábio respondeu que sim. Indagado como poderia ter conseguido essa façanha, respondeu que não sabia. E era o maior sábio da época, naquelas paragens.

O sábio foi embora, e as pessoas preferiram ficar com a convicção de que o enforcado era um feiticeiro.

Passou-se um mês de inquéritos, buscas e consultas, enquanto a forca permanecia no mesmo lugar, humilhada, triste e desprezada por sua atitude inominável de abuso de confiança. O senhor de La Piroche já se dispunha a resignar-se com a perda da armadura, quando num certo dia, ao despertar, ouviu um alarido na praça da execução. Logo depois o capelão entrou espavorido nos seus aposentos.
— Senhor, sabeis o que aconteceu?
— Não, mas gostaria de saber.
— O enforcado reapareceu, e está lá na forca.
— Com a armadura?
— Sim, com a vossa armadura.
— E está morto?
— Completamente. Mas...
— Mas o quê?
— Quando foi enforcado ele usava esporas?
— Não.
— Pois agora usa. Além disso, agora o elmo não está na cabeça, como no dia da execução. Está enforcado com a cabeça descoberta, e o elmo está cuidadosamente colocado no chão.
— Vamos ver logo tudo isso, senhor capelão.

O senhor de La Piroche correu à praça, já cheia de curiosos. De fato lá estava o enforcado com o pescoço no laço da corda, e logo abaixo o corpo revestido da armadura. Era prodigioso.
— Arrependeu-se e voltou a enforcar-se — dizia um.
— Sempre esteve aí — dizia outro. — Nós é que não o víamos.
— Mas por que usa esporas? — perguntou um terceiro.
— Sem dúvida por que vem de longe, e quis chegar rápido.
— Se fosse comigo, não importa se longe ou perto, eu não teria voltado de jeito nenhum.

Entre comentários sérios e outros nem tanto, todos olhavam a cara contorcida do morto. Quanto ao senhor de La Piroche, só pensava em assegurar a posse da sua preciosa armadura. O cadáver foi descido, retirada a armadura, e depois o recolocaram para ser comido pelos corvos. O que sem dúvida nos lembra versos como os que colocávamos na primeira página dos nossos livros escolares:

Morreu Pierrô enforcado
Por ter um livro roubado.
Não corra tão grande risco,
Devolva este ao Francisco.

Que teria acontecido, para possibilitar ao ladrão escapar depois de enforcado, e depois voltar a enforcar-se? Várias hipóteses foram levantadas, mas uma delas me parece a mais digna de crédito. Vou relatá-la como me foi contada.

Quando os dois camponeses, pai e filho, regressavam à noite para casa, resolveram passar perto do castelo, para dar uma última olhada ao enforcado. Ao aproximar-se, ouviram gemidos e uma espécie de oração, que pareciam vir do cadáver. Um tanto apavorados, resolveram pegar a escada do verdugo, e o filho subiu por ela até a altura da cabeça do enforcado.
— É você que está se queixando?
— Sim.
— Portanto você ainda está vivo?
— Acho que sim.
— E está arrependido do que fez?
— Sim.
— Então vou retirá-lo daí. Como o Evangelho manda socorrer os que sofrem, e você está sofrendo, vou socorrê-lo para que empregue a vida em fazer o bem. Deus prefere uma alma arrependida a um corpo castigado.

O pai e o filho desataram a corda, e só então entenderam por que estava ainda vivo. Em vez de apertar o pescoço do ladrão, a corda apertava o pino de encaixe do elmo. Por isso ele ficara suspenso, mas não enforcado. A cabeça havia encontrado uma espécie de ponto de apoio dentro do elmo, permitindo-lhe respirar e viver até o momento em que os dois camponeses regressaram.

Recolheram o enforcado com a armadura e voltaram para La Poterie, onde o ladrão ficou aos cuidados das mulheres da casa, mãe e filha.

Mas não é coisa freqüente um ladrão mudar de condição. Na casa só havia duas coisas roubáveis: o cavalo e a moça, donzela de dezesseis anos. O ex-enforcado resolveu levar ambos, pois precisava de um cavalo e se enamorara da moça. Uma noite ele arreou o cavalo, vestiu a armadura, calçou esporas para fazer o cavalo andar mais depressa, e foi buscar a moça, com intenção de levá-la na garupa.

A jovem despertou e começou a gritar. Pai e filho acudiram logo e o ladrão tentou escapar, mas era tarde. Os dois o pegaram e decidiram fazer justiça por sua própria conta, completando o mau trabalho do verdugo.

Amarraram o ladrão montado no cavalo e o levaram à praça de La Piroche. Penduraram-no na mesma forca, mas desta vez pelo pescoço do condenado, e não pelo da armadura, que não tinha nenhuma culpa no cartório para ser enforcada, e o elmo foi cuidadosamente depositado no chão.

Se alguém conhece uma explicação melhor para o mistério, estou pronto a aceitá-la, mas esta me pareceu suficiente.


(Alexandre Dumas Fº, in R. Menéndez Pidal, "Antología de cuentos" - Labor, Barcelona, 1953

Os Dragões nas Diferentes Culturas da Humanidade - Parte I

por Lugus Dagda Brigante

Seres alados com forma draco-ofidiana são encontrados em culturas presentes na Antiguidade, do Oriente ao Ocidente, e muitas dessas manifestações persistem vivas até os dias de hoje, sejam através de mitos, símbolos, cultos tradicionais e até mesmo cultos reconstrucionistas, como é o caso do Paganismo Contemporâneo e suas muitas vertentes.

O objetivo desse texto é introduzir brevemente o conhecimento sobre a presença desses seres tão especiais nas culturas apresentadas a seguir:

Suméria

Localizada na região da Mesopotâmia, historicamente um dos berços da civilização. Buscamos como fonte de culto draconiano a religião suméria e babilônica primitivas (pré-patriarcais), mais especificamente na Deusa Tiamat.

Tiamat é descrita no Enûma Eliš (O Mito de Criação Babilônico) como uma Grande Serpente Marinha, porém contendo cauda, coxas, cabeça, olhos astutos, pescoço e todas as demais características que nos levam a concluir que essa deusa era de fato representada como um Dragão. Segundo o mito, Tiamat deu origem a tudo aquilo que existe, sendo mãe, avó e bisavó de todos os seres e deuses do mundo. Um dos títulos de Tiamat é a "Grande Serpente de Fogo", o que faz clara alusão à sua natureza primordial e criadora.

Posteriormente, com o advento do patriarcado, o culto a Tiamat foi sendo gradativamente substituído pelo culto a deuses masculinos, a maioria reconhecidos como seus descendentes mitológicos, mais notadamente Marduk, que em um período tardio é retratado matando e esquartejando sua própria ancestral Tiamat, para então ele dar origem ao mundo se utilizando de partes do corpo d'Ela - algo bastante característico da ascensão dos mitos patriarcais sobre os matrifocais.

China

Sem dúvidas, uma das culturas de que temos mais notícias documentadas e traços da adoração do culto aos Dragões presentes até hoje, é a cultura chinesa.

Não podemos dizer com precisão como e onde nasceu exatamente a presença dos seres draconianos na China, mas acredita-se que estes surgiram em diferentes locais ao mesmo tempo, atráves do culto de diversas tribos aos seus totens protetores, que na maioria das vezes eram Dragões.

Na Mitologia Chinesa, o Dragão foi um dos quatro animais convocados pelo deus Pan Ku, para auxiliá-lo na Criação do mundo. Outros mitos, possivelmente anteriores aos de Pan Ku, contam que a Criação do mundo se deu pelas mãos da deusa Nu Kua, Senhora da Ordem, que é muitas vezes representada como uma Dragonesa e em outras como uma Velha Senhora.

O Dragão Chinês, diferentemente do Dragão conhecido pela cultura ocidental, é muito mais semelhante a uma Serpente e muitas vezes também é retratado sem asas. É um símbolo de proteção e rege o controle das águas que dão vida à agricultura na China.

O Dragão enquanto símbolo é utilizado até os dias de hoje pelos chineses, seja como protetor, ícone religioso ou motivo decorativo. Algo importante de se mencionar, é que historicamente, o Dragão era o símbolo do Imperador da China, e muitos chineses se identificam como "descendentes do Dragão", fazendo uma referência à sua natureza étnica.

No Horóscopo Chinês, o Dragão também se faz presente como um de seus "signos", sendo todos os anos regidos por ele os mais apropriados para se ter bebês, isto é, trazer à tona, mais uma vez, a Criação.

Índia, Pérsia e Egito

Na Índia existem largas referências sobre o culto às Serpentes e a ligação de divindades com elas. Entretanto, a presença de Dragões não é muito clara, mas podemos afirmar que ela esteve relacionada com o culto aos crocodilos que foi muito presente na região. Em determinadas regiões da Índia, o Dragão é hoje visto como símbolo do "Mal", algo que pode ter sido deturpado através dos tempos com a ascensão dos cultos patriarcais no Hinduísmo, após a passagem das tribos indo europeias.

Os Dragões Persas provavelmente descendem das lendas draconianas mesopotâmicas do período sumério e babilônico, assim como do antiguissimo culto à Tiamat. Na antiga Pérsia, o Dragão era visto como um ser guardião de grandes tesouros. Por outro lado, os mitos da região citam um Dragão chamado Azi Dahaka, que causava terror nos homens por eventualmente destruir suas fazendas, roubar seu gado e incendiar florestas. Alguns historiadores dizem que essa pode ser uma visão deturpada da figura do Dragão, e que na verdade, a figura de Azi Dahaka nada mais era que uma alusão alegórica ao próprio Império Babilônico que por séculos oprimiu a Pérsia durante a Antiguidade Clássica.

Os egípcios relacionavam a imagem do Dragão com a passagem do Tempo e a noção de equilíbrio entre o "bem" e o "mal". Assim como em outras culturas, sua imagem estava na maioria das vezes relacionada com a das Serpentes, que foram largamente cultuadas em todos os períodos e regiões do Antigo Egito. Um dos Dragões mais icônicos da Mitologia Egípcia que podemos citar é Apep, uma espécie de serpente-dragão que vivia no Submundo e todos os dias era morta pelo deus Rá, para renascer novamente, relembrando a ideia de tempo cíclico e equilíbrio.

Na segunda parte desse artigo veremos a presença dos Dragões nas culturas nativas das Américas, nas mitologias européias e seu significado também na mitologia judaico-cristã.


Caminhando entre as Deusas: Ísis (parte 1)

por Rosario Camara
Ísis ou Aset, a Deusa dos Dez Mil Nomes é uma Deusa Egípcia que possui várias faces e histórias. Hoje iremos focar no seu aspecto de esposa, amante e aquela que dá ao seu escolhido o trono, ou seja, o poder de reinar entre as Duas Terras (Alto e Baixo Egito).

Não se sabe ao certo qual o surgimento desta Deusa, na mitologia, acreditas que ela era filha de Geb e Nut, assim como irmã de Osíris, Seth e Néftis. Alguns historiados no entanto, acreditam que ela e Osíris foram inicialmente humanos que tiveram tão aceitação em seu reinado que foram divinizados pelas gerações seguintes.

O ponto que gostaria de focar, no entanto, é o amor incondicional que está Deusa rege: Ísis e Osíris são autores dos mistérios da vida e da morte, que precederam os Místérios dos Elêusis.

 Ísis aprende e se modifica atráves da dor da perda do seu amado, Ele caminha pelas sombras da morte de  onde nada podemos saber, à não ser quando com ele atravessarmos este caminho também.

Conta a lenda (uma das mais belas histórias de amor que já li) que Ísis ensinou as mulheres do egito os segredos das ervas, deu-lhes os dons da cura e ensinou sobre a Arte de se viver em família e em sociedade, enquanto seu amado Osíris percorria as terras do Alto e Baixo Egito ensinando aos homens sobre a agricultura o uso de ferramentas e etc. Eles fizeram o reino prosperar e eram amados pelos seus súditos.

No entanto, existia uma sombra no reino formada pelo inveja e cíumes do seu irmão Seth, que encarna forças que são precariamente controladas. Seth era casado com Néftis, irmã gêmea de Ísis, no entanto, ele queria mesmo era estar com Ísis, visto que ela com seu poder e conhecimento era quem concedia o trono, ou seja, o poder que em última instância era o que Seth desejava. Ele, então, com seus comparsas construiu um ataúde enquanto Osíris viajava pelo seu reino. Este ataúde tinha exatamente o tamanho e larguras próprias para única e exclusivamente o corpo de Osíris e, sua tampa era cravejada de espinhos.

Seth organizou uma festa para comemorar a volta de seu irmão e jogos! Dentre eles, existia um que era uma armadilha: Ele desafiou a todos que estavam na festa a entrar no ataúde e aquele que coubesse exatamente dentro da peça ganharia um prêmio. Claro, que o prêmio previsto sempre havia sido a morte. Depois, que vários tentaram sem sucesso entrar no ataúde, Osíris resolveu que era a sua vez e logo ao entrar dentro do ataúde, Seth e seus comparsas colocaram a tampa e fecharam o ataúde (tornando este o protótipo dos sarcofágos e dos nossos atuais caixões, muito provavelmente). Logo após,  jogaram no Nilo o ataúde com o corpo de Osíris e deixaram que o rio levasse-o para seja lá qual fosse o seu destino.

Ísis e Néftis (que nutria uma secreta paixão por Osíris, chegando até a usar o perfume de Isís para sentir-se apenas uma vez amada tal qual sua irmã era e tendo assim concebido um filho de Osíris, que com medo da vingaça de seu marido, deixou-o as margens do rio Nilo para que morresse, sendo este achado por Isís que apiedou-se da pobre criança e adotou-a como se fosse sua, criando assim um laço indivizível entre ela e o pequeno ser, chamado Anúbis) não estavam na festa, estavam em outra cidade, distante  dos acontecimentos, mas em seus corações notaram quando algo aconteceu a seu amado. Isís sentiu uma dor indescrítivel e ao procurar as notícias do que havia acontecido com seu amado, descobriu que ele havia sido cruelmente assassinado. Em sinal de luto e em total desespero e dor, cortou seus cabelos, rasgou suas roupas e de tanto chorar e gritar, seus leais súditos acharam que a Grande Deusa, havia enlouquecido. Isís ficou irreconhecível, com as roupas rasgadas, suja, os cabelos desgranhados e cortados, sem conseguir concatenar as idéias, para ela não existia mais vida, apenas a dor e uma morte em vida, sem brilho, sem paz e sem o seu amado.

Ísis partiu em busca de seu amado, passou por cada cidade e a todos perguntava se alguém havia visto o ataúde a descer o Nilo. Aqui e ali alguns moradores da beira do rio diziam que haviam visto, mas Ísis sempre estava atrasada, ao chegar ao local seu amado lá mais não estava.

A busca de Ísis pelo corpo do seu amado é uma jornada que transformou a Deusa, assim como transforma todas aquelas pessoas que ao perderem um ente querido precisam navegar por águas turvas e turbulentas até encontrar uma forma de preencher o vazio deixado por aquele ser que partiu.

Continua....

Bibliografia Consultada:
- ELLIS, N.;  Deusas e Deuses Egípcios: Festivais de Luzes: Celebrações para as estaões da vida baseadas nos mistérios das deusas egípciasSão Paulo: Mandras, 2003;
- DONATELLI, M. (coord.); O livro das Deusas – Grupo Rodas da Lua. São Paulo: Publifolha, 2005;
- IONS, V.; História ilustrada da Mitologia. 1° Ed., São Paulo: Editora Manole Ltda, 1999; MARASHINSKY,A. S.; O oráculo da Deusa: um novo método de adivinhação. São Paulo: Pensamento, 2007;
MONAGHANP.; O caminho da Deusa: mitos, invocações e rituais. São Paulo: Pensamento, 2009.
PIETROC.; A arte da invocação: invocações, textos ritualistícos e orações sagradas para praticantes de Wicca, Bruxaria e Paganismo. São Paulo: Gaia, 2008;
PIETROC.; Todas as Deusas do mundo: rituais wiccanos para celebrar a Deusa em suas diferentes faces. 2° Ed. São Paulo: Gaia, 2003 (Coleção Gaia Alémdalenda);
REGULA D.;  Os mistérios de Ísis: seu culto e magia. São Paulo: Mandras, 2004;
Extraído do Jornal do Bruxo

O Bosque: Uma história para as noites de inverno

Tradução: Renata Gueiros


Ela chegou uma noite com um bando de fantasmas, quando o vento já tinha levado as folhas das árvores e a casa estava trancada contra o escuro, e o fogo estava alto na velha grelha, e havia um banquete sobre a mesa. Os cães dos mortos correram ao redor dos muros e a forma cinza do crânio de um cavalo apareceu no escuro, através das vidraças de chumbo na qual nenhuma cortina se pendurava em oposição à noite. E veio a noite. Uma mão violenta bateu na porta e uma rima foi falada:

Se ao igualar a rima falhar
Deixe-nos para os bolos e a cerveja entrar

O vento assobiou e os cães uivaram, e a noite estava nos corações de todos no aposento. E eles sabiam que deviam responder. Então, Gareth ergueu-se de onde cuidava do fogo, atravessou para a porta, e disse:

Até que os ponteiros do relógio se encontrem
Seus poderes em Annwn permanecem;
Vão-se daqui, atormentar outros corações
Cedo demais chegaram seus cães.

O vento ainda assobiou, mas era agora o único som. Então houve silêncio, seguido de sorrisos e suspiros de alívio na antiga casa da fazenda no alto da colina selvagem do campo, onde as estradas são poucas e as casas mais ainda. Mas o rosto de Gareth ainda estava sério. "Ainda não acabou", disse ele, "eles retornarão à meia noite e se não pudermos igualar rima por rima eles estarão dentro da casa em volta da mesa, e o banquete será deles". "Mas o que...?" disse Eleri, sua voz tremendo entre a fascinação e o medo, "...o que era aquela forma de uma cabeça de cavalo na janela?"

"Silêncio criança" disse sua mãe, sem querer falar de tais coisas naquela noite. Mas Gareth disse, "Se queremos manter esta casa intacta na noite de hoje, todos temos que estar preparados para os poderes que vamos encarar."

Ele sentou na cadeira junto à lareira e ficou em silêncio por um tempo, porém os outros sabiam que ele estava pensando profundamente. Nesse meio tempo, Rhiannon foi ao fogo, ajoelhou-se em frente às chamas, e disse suavemente as bênçãos da lareira e rezou para que todos estivessem bem e a salvo naquela noite. Quando terminou, ela acenou para que os outros se juntassem a ela. Eles sentaram em volta da lareira, e aguardaram. Gareth falou dos poderes da noite e do divertimento dos mortos, apesar de outros dizerem que eles jamais tenham vivido. Mas quem quer que fossem eles vinham com uma matilha de cães e muitas rimas, e apenas uma rima poderia mantê-los fora. Quando eles vinham, também vinha a Mari – a Cinzenta Égua da Noite – e apenas ela pode dizer as rimas com as quais se deve igualar. Então Rhiannon foi até a estante, tirou um livro e começou a ler a história de sua homônima. Havia uma penitência: ela deveria carregar em suas costas qualquer um que chegasse a ela no bloco de descida do cavalo, o qual ficava do lado de fora do portão de sua corte, e que ela precisava carregar até o interior. Rhiannon abaixou o livro e disse: "Por ela cujo nome carrego, e por meu lugar nesta casa, eu irei e farei nossa paz com a noite".

Subiu as escadas e tirou o vestido que estava usando para o banquete, e qualquer outra peça de roupa e ornamento, a não ser pelo colar de coisas acumuladas em mais de treze luas, muitos anos atrás. Ela envolveu o corpo nu em uma capa negra, desceu as escadas e pela segunda vez naquela noite ela se ajoelhou defronte ao fogo e pediu uma bênção de Bride na lareira deles. Então, virou-se para Gareth e eles trocaram algumas palavras antes de se abraçarem. Após isso ela tirou o ferrolho da porta e saiu para adentrar a noite. Logo estava vagando através da bruma cinza, e de lá veio uma forma que era ainda mais cinza. Rhiannon parou e falou para a forma, mas a forma não respondeu. Então Rhiannon se desfez da capa negra, tirou seu colar e o mostrou para a figura diante dela. A figura tornou-se clara, porém brilhou como uma velha lua num céu aquoso: era uma égua idosa carregando uma velha mulher em uma mortalha preta. E a mulher disse "Você fez bem em se desfazer daquela capa, minha querida", e Rhiannon reconheceu a capa como a mortalha nas costas da mulher. "Não vai agora dar um descanso para minha égua?" ela suspirou, acariciando a cinzenta cabeça fantasmagórica abaixo dela. "Com prazer", disse Rhiannon, “eu a carregarei para onde quer que deseje ir”. Então a velha mulher foi até ela e a abraçou, e a chuva sacudiu as árvores, e o vento soprou para longe suas lágrimas, e a bruma cinza clareou, e havia apenas a escuridão.

À medida que Rhiannon vagueava através da escuridão, desesperadamente perdida, uma linha da história que ela tinha lido mais cedo naquela noite correu sua mente: "Mas era casual que permitissem que fossem carregados." Enquanto ela se lembrava disso a lua minguante brilhou através de uma brecha nas nuvens e ela reconheceu um pequeno bosque de árvores, o qual ficava próximo à casa da fazenda. Logo ela podia ver a luz quente do fogo e as lamparinas aparecendo pelas janelas. Ela chegou à casa despida, molhada e salpicada de lama. Os outros pareciam preocupados enquanto ela passava pela porta. Porém, sem parar para se esquentar ou explicar o que tinha acontecido, ela pôs um casaco e levou cada um deles para fora da casa, um de cada vez, e fez com que aprendessem um verso com ela, enquanto o vento cantava em volta de seus ouvidos. Gareth era sábio em conhecimento e aprendizado e fez seu verso com pouca ajuda, mas com o firme aperto da mão de Rhiannon na sua. No entanto, os outros tinham medo da noite sobre eles, e tinham de ser mantidos longa e proximamente antes do verso chegar, e Eleri ela segurou mais próximo de que todos os outros, enquanto criava as palavras que tinha de dizer.

Finalmente terminara, e a porta estava trancada e o fogo ganhou altura, e todos estavam aquecidos em volta da lareira. Bride estava com eles e os inspirava, e o fogo brilhava mais quente que o ataque da meia noite. Então veio a batida na porta e a cantoria das rimas, e Gareth replicou primeiro como tinha feito antes. Um por um seus nomes foram chamados por vozes fantasmagóricas do escuro da noite, e um por um eles disseram suas rimas em resposta, até que, por último, veio a vez de Rhiannon. A voz na noite disse:

Rhiannon Williams venha à porta
Podemos ouvir o tinido da garrafa.
Você aí no chão nos apreciaria
E tomar sua comida e bebida.

Rhiannon não respondeu imediatamente, mas tirou das dobras de seu vestido o colar que ela não tinha colocado novamente em volta de seu pescoço desde que o tinha oferecido à velha mulher na bruma. As treze peças permaneciam como antes, mas agora estavam amarradas no comprimento de uma fina gaze esverdeada. Ela o segurou diante de si, e o ergueu por sobre sua cabeça. Então ela disse esse verso:

Pelo poder da Lua minguante
Eu ordeno que tomem vôo,
Em nome da Rainha de Annwn
Vão agora para a escura e profunda noite.

E enquanto ela colocava o colar em volta de seu pescoço mais uma vez, o som dos cães uivantes desapareceu na distância, e até mesmo o vento tinha parado.

O fogo resplandeceu no momento em que ela retornava para a lareira e reunia todos à sua volta para um abraço, e eles agradeceram a Bride por seu calor e luz, pela firme compreensão dos versos, e pelo amor que compartilharam. O banquete foi alegre e confortável foi a cama por toda a noite, apesar do vento frio ter soprado lá fora através das árvores nuas, e haver um severo inverno à frente.

quinta-feira, abril 26, 2012



O Grão-Mestre, ou o seu Vice-Grão-Mestre, tem o poder e o direito de estar presente em qualquer Loja legítima, assim como o de a presidir, com o Mestre da Loja à sua esquerda, e a ordenar que seus Grandes Vigilantes o assessorem; mas estes não podem agir como Vigilantes nas Lojas, excepto naquelas em que estiver presente o Grão Mestre, e sob seu comando, porque o Grão Mestre pode nomear os Vigilantes da Loja, ou quaisquer outros Irmãos que lhe aprouver, para que o assessorem e atuem como seus Vigilantes pro tempore.

Vimos já, no texto introdutório ao conjunto de "Regras Gerais" que aqui se publicam e comentam, que estas foram inicialmente compiladas por George Payne, em 1720, e posteriormente comparadas por Anderson com os "antigos Arquivos e Usos Imemoriais" e por ele ordenadas. Logo a primeira Regra é demonstrativa de que o conjunto de regras fixado, embora baseado nos Antigos Usos e Costumes herdados da Maçonaria Operativa, foi adaptado à nova realidade organizativa do que se convencionou chamar Maçonaria Especulativa.

Com efeito, a Maçonaria Operativa organizava-se em Lojas independentes, que se reuniam periodicamente em Assembleias, em que se acordavam as regras comuns a serem seguidas, mas não possuía uma direção centralizada, um Grão-Mestre com poderes interventivos nas várias Lojas.

A figura do Grão-Mestre, e sobretudo a definição dos seus poderes, não apenas como um executor das deliberações da Assembleia de Maçons ou Grande Loja, nem sequer apenas como coordenador da atividade autónoma das Lojas, mas como um verdadeiro dirigente da super-estrutura, com poderes interventivos e ordenadores no interior das próprias células-base da mesma, as Lojas, é introduzida com a criação da Grande Loja dos Modernos, em 1717.

Com essa criação, claramente mitigou-se a independência das Lojas. A Grande Loja dos Modernos (e subsequentemente todas as Grandes Lojas da Maçonaria Especulativa que a partir do seu modelo se criaram) não foi uma mera estrutura federadora das Lojas, e muito menos confederadora. Rapidamente se assumiu como vera estrutura dirigente, definidora de regras,certificadora das boas práticas da Maçonaria, da sua estrutura (maxime Grão-Mestre e Assembleia de Grande Loja) emanando as regras, as determinações, que deveriam ser seguidas pelas Lojas, cuja autoridade passou a ser, no essencial, delegada pela Grande Loja, embora se incluísse e inclua nessa delegação uma ampla autonomia e poder decisório de cada Loja, em relação às suas relações e opções internas.

Esta assunção do Poder estrutural pela Grande Loja implicou, necessariamente, o respetivo poder fiscalizador do cumprimento das regras emanadas (e por isso as Grandes Lojas possuem Grandes Inspetores, cuja função é precisamente fiscalizar a conformidade da atuação das Lojas com as regras e rituais definidos) e o poder disciplinar, isto é,  poder de coercivamente impor o cumprimento das regras e sancionar o seu incumprimento, seja em termos individuais ou de grupo.

Símbolo desta assunção do Poder Maçónico pela Grande Loja e pelo seu representante executivo máximo, o Grão-Mestre, é precisamente esta primeira regra: O Grão-Mestre, ou o seu Vice-Grão-Mestre, tem o poder de estar presente em qualquer reunião de qualquer Loja (ainda que contra a vontade desta, conclui-se). 

Mas não só: estando presente, tem o poder de dirigir a reunião, relegando o Venerável Mestre da Loja para o lugar puramente simbólico se se sentar à sua esquerda. Embora o Venerável Mestre da Loja seja o obreiro que foi eleito pelos que a compõem para a dirigir, esta eleição, esta manifestação de vontade, cessa perante a vontade do Grão-Mestre. Este, embora também eleito, foi-o por toda a estrutura - porventura até com a oposição da particular Loja que visita e dos seus obreiros. É assim evidente a relação de hierarquia estabelecida, ficando evidente que a legitimidade geral do Grão-Mestre se sobrepões à específica legitimidade do Venerável Mestre eleito pela Loja, mesmo no estrito âmbito desta e do seu normal funcionamento. O que pressupõe claramente que a fonte primordial do Poder Maçónico é a Grande Loja, a estrutura que agrega todos os maçons de um determinado território, assumindo as estruturas base ou celulares apenas o poder que lhes é tácita ou expressamente delegado pela estrutura global. A organização maçónica é, assim, ao contrário do que muito - mesmo no interior da Maçonaria - pensam, uma organização de tipo unitário, não federal. Mais explicitamente, talvez: a Grande Loja não é uma federação de Lojas, é uma vera estrutura de direção, criação e certificação de Lojas. Estas existem porque a sua existência é aceite, reconhecida, quiçá promovida pela Grande Loja e têm o conjunto largo de poderes decisórios e organizativos que têm, não porque originariamente assim seja, mas porque nelas foram delegados esses poderes. 

A Maçonaria Especulativa não é uma estrutura basista, isto é, cujo poder fundamental se origina na base e flui até ao topo, mas, pelo contrário, uma estrutura unitária descentralizada. Mas é, simultaneamente, uma estrutura eminentemente democrática, pois o poder fundamental central assenta na Assembleia de Grande Loja, isto é, na assembleia dos representantes escolhidos pelas Lojas. E o Grão-Mestre tem o lato poder que tem, porque é eleito, ou por essa assembleia de delegados de Lojas, ou diretamente por voto universal dos Mestres de toda a estrutura. O Poder é unitário, descentralizado por via de delegação, mas funda-se, baseia-se, no universo global de elementos que compõem a estrutura.

O que se verifica é que a estrutura global, a Assembleia de Grande Loja, baseada nesse poder concedido pelo universo dos indivíduos associados, e consequentemente, aquele a quem são conferidos poderes executivos - e não só -, o Grão-Mestre,se sobrepõe às estruturas locais, as Lojas. O que suscita a conclusão de que o Poder individual originário de cada maçom é tanto mais forte quanto mais diluído num universo maior. Com efeito, o Mestre maçom associa-se aos demais Mestres maçons da sua Loja para eleger o Venerável Mestre dela. E associa-se a todos os Mestres maçons de todas as Lojas da Obediência para eleger o Grão-Mestre, cujos poderes sobrelevam os dos Veneráveis Mestres das várias Lojas. 

Esta verificação implica a conclusão de que o que, em termos de estrutura, significativamente mudou na transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa foi a independência das Lojas, que se transfigurou em mera autonomia. Na Maçonaria Operativa existiam Lojas independentes que se associavam para definir regras comuns, sem prejuízo da respetiva independência. Na Maçonaria Especulativa, as Lojas associaram-se para criar uma estrutura comum, para a qual transferiram o essencial dos poderes organizativos e regulamentadores, abdicando da sua independência em favor da sua integração na estrutura superior, conservando apenas a autonomia que a própria regulamentação da Grande Loja consagra - e que não podia deixar de consagrar, sob pena de descaraterizar, quiçá irremediavelmente, o que se entende por Maçonaria, que assenta conceptualmente no brocardo "um homem livre numa Loja livre" (mas "livre" não sendo sinónimo de "independente", embora necessariamente implicando o conceito de "autónomo").

O que é de assinalar é que esta transformação - que, em termos estruturais, é muito similar à estrutura dos Estados unitários modernos - ocorre no século XVIII!

Uma última nota: a demonstração de que a Maçonaria Especulativa, embora alterando a conceção da sua estrutura, se organiza como estrutura eminentemente democrática está na referência aos Grandes Vigilantes, expressamente se consignando que assessoram o Grão-Mestre, ou Vice-Grão-Mestre.mas só substituem os Vigilantes da Loja se o Grão-Mestre assim o ordenar. Por uma razão muito simples: os Grandes Vigilantes não são eleitos, antes são designados. Não possuem a legitimidade do Grão-Mestre. Este,que foi leito por todos, é que tem o poder de, quando está presente numa Loja, assumir ou não assumir o malhete (pode, apesar de estar presente, deixar a condução dos trabalhos ao Venerável Mestre da Loja, se assim o entender - e normalmente assim sucede); assumindo a condução dos trabalhos, pode decidir ser assessorado pelos Grandes Vigilantes , pelos Vigilantes da Loja ou por outros elementos que nomeie ad hoc e  pro tempore.

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 136. 

Os deveres de um Maçom são:

· Honrar e venerar o Grande Arquiteto do Universo, a quem agradece, todos os dias,pelas boas ações que pratica, em relação ao próximo, e os bens que lhe couberem em partilha.
· Tratar todos os seres humanos como seus iguais irmãos, sem distinção de sexo, raça, nacionalidade e classe social.
· Combater a ambição, o orgulho, o erro e os preconceitos.
· Lutar, sempre, contra a ignorância, a mentira, o fanatismo e a superstição, que são flagelos provocadores de todos os males que afligem a humanidade e impedem o progresso.

· Praticar a justiça recíproca, como verdadeira salvaguarda dos direitos e dos interesses de todos, e a tolerância, que dá, a cada um, o direito de escolher suas opiniões e seus credos religiosos.

· Deplorar os que erram, esforçando-se, todavia, para reconduzi-los ao caminho da Verdade.

· Socorrer os infortunados e os aflitos.

Esses deveres são cumpridos, porque o Maçom deve ter fé, que lhe dá a Coragem, a Perseverança, que vence os obstáculos, e o Devotamento , que o leva a praticar o Bem, mesmo com o risco de sua vida e sem esperar nenhuma outra recompensa além da tranqüilidade de consciência

A Maçonaria combate a ignorância, em todas as suas formas, porque a ignorância é a mãe de todos os vícios e o seu princípio é nada saber, saber mal o que se sabe e saber coisas outras além do que deveria saber. Não pode, o ignorante, medir-se com o sábio, cujos princípios são a tolerância, o amor e o respeito a si próprio. É por isso que os ignorantes são irascíveis, grosseiros e perigosos; perturbando e desmoralizando a sociedade, evita que os seres humanos conheçam os seus direitos e saibam, no cumprimento dos seus deveres, que, mesmo com constituições liberais, um povo ignorante é escravo.Inimigos do progresso, afugentam as luzes, aumentam as trevas e permanecem em eterno combate contra a Verdade, a Perfeição e o Bem.

A Solidariedade, que deve existir entre os Maçons, é a mais pura e fraternal, mas deve ser restrita aos que praticam o bem e sofrem os espinhos da vida; aos que, nos trabalhos lícitos e honrados, são infelizes; aos que embora com fortuna, sentem, na alma, o amargor das desgraças.

Onde houver uma causa justa,aí deverá se fazer sentir a solidariedade maçônica.
Quando, entretanto, um Maçom , olvidando os princípios da Ordem, desvia-se da moral, tornando-se um mau cidadão, um mau pai, uma má mãe, um mau filho, uma má filha, um mau marido, uma má esposa, um mau irmão, uma má irmã, um mau amigo e uma má amiga; quando, cego pelo ódio ou pela ambição, pratica atos considerados indignos de um Maçom, ele rompe o compromisso de solidariedade que não mais poderá existir, pois, se ela fosse mantida, haveria a conivência com atos degradantes.

Assim, o Maçom que procede mal, perde todo o direito ao auxílio material e, principalmente, ao amparo moral de seus Irmãos.