segunda-feira, dezembro 31, 2012

AS CARACTERÍSTICAS DO SER GUARANI

Ser Guarani é fundamentalmente one’e guarani (falar guarani), oguata(caminhar, migrar, ter a ética do oguata), ko’ygua (ser camponês, um cultivador), tavaygua (um agricultor que vive em uma aldeia),naicaciquéi (sem cacique, uma sociedade sem estado), jopói(praticar uma economia de reciprocidade) e ñembu’e (pertencer a um povo de oração, em oração – palavra divina). Estas são as sete características fundamentais na composição do ñande reko, ou seja, do modo de ser guarani.
 
ÑEMBU’E – PERTENCER A UM POVO DE ORAÇÃO
Ñembu’e faz parte da concepção Guarani de que “a palavra é tudo e tudo é palavra”. Um conceito-existência que está na base da experiência antropológica, cosmológica e teológica.
 
O termo “palavra” (ayvuñe’ëä) também significa voz, fala, linguagem, idioma, alma, nome, vida, origem, personalidade. Constitui uma categoria das mais densas para explicar a maneira como se “trama o modo de ser guarani”. A indissociável relação entre palavra e alma leva Graciela Chamorro a concluir que o Guarani “é capaz de compreender-se e de compreender toda a sua vida, como experiências de palavra e atos de dizer-se”.
 
Na tradição indígena, a alma e o nome não são posses pessoais – a pessoa não tem o nome, não possui a alma –, e, sim, tanto a alma quanto o nome indicam o que ela é, a “alma é o próprio ‘eu’ ”. As expressões traduzidas por ‘alma’ em guarani designam o indivíduo em sua integridade e nisso assemelham-se aos equivalentes hebraico e grego nephesh e psyquê. Para “palavra-alma”, os termos que definem a relação são ñe’ë e ayvu, podendo significar, igualmente, palavra e alma, e também no sentido de “minha palavra sou eu” ou “minha alma sou e’’.
 
Graciela Chamorro recorre a Montoya e aos registros etnográficos para demonstrar a “capacidade expressiva singular” do termo “palavra” entre os Guarani: “Ñe’ë é expressar-se, é palavra, é linguagem. Tentar a palavra é jogá-la para frente, ñeëäa. Refletir antes de falar é jogar a palavra diante de si. Falar com ternura ou pôr querer no que se diz é vestir as palavras, ñeë monde. A palavra dita com ternura é palavra ainda não madura, ñeë aky. A palavra alegre é de olhos pequenos,ñeësaiÑeë syry é a palavra que sai rapidamente da boca, que escorrega. A palavra entrecortada é ñeëndóy, razão solta. Ser mudo ou silenciar é comer as palavras, ñeëngu. O segredo é palavra escondida, ñeë ñemï. Palavra dura é a que se trava na garganta, ñeë pyatäÑeë pyvoi é falar desordenadamente. Palavra magra é o chamar alguém com psius, ñeë piru. O aturdir com palavras é deixar o outro perdido, ñeë poromonkañy. Falar timidamente é ter medo, ñeë kyhyje. Palavra gorda, ñeë kyra, é mentira. Resposta é a palavra que encara, ñeë rovaicha. O falar ordinário é uma plantação de palavras,ñeëtyva. A palestra, o sermão, a conversa é tornar-se palavra,ñemoñeë. Rogar é articulado pela expressão “alquímica” ñeë marangatu, capaz de transformar o mal (marä) em algo bom (katu) “.
 
A imagética presente na Língua Guarani lembra as reflexões sobre os nomes e as palavras de Walter Benjamin, presentes na teoria sobre o Drama Barroco Alemão, que indicam a linguagem como o lugar das idéias, ou, ainda, como a “dimensão nomeadora da linguagem em contraste com sua dimensão significativa e comunicativa”.
 
Comentando a teoria Benjaminiana, Sérgio Paulo Rouanet fala da linguagem adamítica, que, para Benjamin, desperta as coisas, chamando-as pelos seus nomes  verdadeiros. Segundo Benjamin, “o nome transforma-se na palavra, mero fragmento semântico, coisa entre coisas”, perdendo, por essa razão, a capacidade de nomeá-las.“A idéia está inscrita na ordem do Nome”.
 
Pesquisando os Ache, Pierre Clastres diz que o canto dos caçadores designa “Um certo parentesco entre o homem e sua linguagem: mais precisamente um parentesco tal que parece subsistir apenas no homem primitivo. Isso equivale a dizer que, bem distante de todo exotismo, o discurso ingênuo dos selvagens nos obriga a considerar o que os poetas e pensadores são os únicos a não esquecer: que a linguagem não é um simples instrumento, que o homem pode caminhar com ela, e que o Ocidente moderno perde o sentido de seu valor pelo excesso de uso a que a submete. A linguagem do homem civilizado tornou-se completamente exterior a ele, pois é para ele apenas um puro meio de comunicação de informação. A qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam em sentido inverso. As culturas primitivas, ao contrário, mais preocupadas em celebrar a linguagem do que em servir-se dela, souberam manter com ela essa relação interior que é já em si mesma aliança com o sagrado. Não há, para o homem primitivo, linguagem poética, pois sua linguagem já é, em si mesma, um poema natural em que repousa o valor das palavras”.
 
Existem, ainda, outras tentativas de explicar a palavra guarani, como, por exemplo, referir-se a ela como corpo, encorpar-se e encarnar-se. Para Melià, os Guarani acreditavam que a alma não era algo recebido de forma acabada, e sim, construída ao longo da vida. Essa construção se exterioriza através da palavra. A “história da alma guarani é a história da sua palavra, a série de palavras que formam o hino de sua vida”.
 
OGUATA - A ÉTICA DO CAMINHAR
A busca pela "terra sem mal" tem sido apontada como motivo e razão da migração dos Guarani e como elemento constitutivo da construção do seu modo-de-ser. Nesta busca, inserem-se, também, as particularidades da economia do grupo, como a prática da horticultura e a reciprocidade, entre outras.
 
Assim, a terra se apresenta como espaço que deve ser caminhado. Oguata é caminhar. Esse verbo sintetiza o etos guarani até os dias atuais. Uma terra caminhada é um espaço cultivado, ocupado, humanizado. O pensamento mítico e religioso dos Guarani integra na idéia criacional uma terra que se alarga e se estende continuamente, o que supõe caminhar por ela, criar novos horizontes, tomando posse desses espaços de modo humano e pleno.
 
Os Guarani estabeleceram-se nas florestas tropicais e subtropicais dos vales dos grandes rios, ocupando as matas tropicais situadas ao longo dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai – incluindo os atuais estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, além do oriente paraguaio e boliviano, do nordeste argentino e do Uruguai –, provavelmente motivados pelo crescimento demográfico e por prolongada seca que teria alterado as condições de sobrevivência. Os que migraram para essas regiões teriam sido os ascendentes dos tupi-guarani.

Dado o processo contínuo de diferenciação cultural, os Tupi e os Guarani separaram-se, originando duas tradições distintas. Os Tupi aclimataram-se no litoral quente do Atlântico, desenvolvendo uma tradição baseada na cultura da mandioca amarga. Os Guarani adaptaram-se ao clima temperado das matas subtropicais dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, desenvolvendo uma tradição baseada na cultura do milho, compondo, na bacia do Rio da Prata, sociedades denominadas “horticultores de floresta tropical”.
 
Na região Platina, a área ocupada pelos Guarani era na maior parte limitada a oeste pelo rio Paraguai, pelo menos pela parte de seu curso situada entre o paralelo 22, a montante, e o paralelo 28, a jusante. A fronteira meridional encontrava-se um pouco ao sul da confluência do Paraguai e do Paraná. As margens do Atlântico constituíam o limite oriental, mais ou menos do porto de Paranaguá ao norte (paralelo 26) até a fronteira do Uruguai atual, outrora pátria dos índios Charrua (paralelo 33). Temos assim duas linhas paralelas (o curso do Paraguai, o litoral marinho), das quais basta ligar as extremidades para conhecer os limites setentrional e meridional do território guarani. Esse quadrilátero de aproximadamente 500.000 km não era integralmente ocupado pelos guaranis, uma vez que outras tribos residiam nessa região principalmente os caingangue. Pode-se avaliar em 350.000 km a superfície do território guarani.
 
De acordo com Arno Kern, a Bacia Platina “se caracteriza, do ponto de vista natural, por vários habitats com seus respectivos biomas” sendo este complexo geográfico ocupado por diferentes etnias cada uma delas detentora de espaços ecológicos específicos. Os grupos vindos da Amazônia buscaram espaços semelhantes ao de suas origens, estabelecendo suas aldeias nos vales quentes e úmidos, nas várzeas irrigadas das florestas tropicais e subtropicais dos vales dos rios Paraguai, Paraná, Uruguai e Jacuí, viabilizando a prática agrícola. Nas florestas de pinheiros do planalto estabeleceram-se os Guaianás, inimigos dos Guarani. Nos campos do Pampa, viviam Charruas e Minuanos.
 
A expansão dos Guarani na Bacia Platina limitou-se às terras adequadas ao cultivo e à forma de aproveitamento do espaço praticada por eles. Os campos abertos e florestas de araucárias, como já foi mencionado, ficaram sob o domínio de grupos caçadores, coletores e agricultores.
 
Os séculos XVI e XVII, tempo da ocupação e colonização da América pelos europeus e, conseqüentemente, da Região Platina, ofereciam dificuldades para novas expansões: a terra das matas subtropicais estava esgotada e a população alcançava a cifra aproximada de 2 milhões de habitantes. Juntamente com o estrangulamento das terras cultiváveis, empecilho para novas migrações, encontrava-se a ação depredadora dos colonos europeus, que se converteu no que Melià aponta ser “o mal maior e mais terrível que sobreveio à terra guarani”.
 
O’ÑEE – FALAR GUARANI
Os Guarani pertencem ao tronco lingüístico tupi-guarani, desenvolvido a partir do tronco tupi mais antigo, e à tradição denominada na arqueologia de tupi-guarani. São também genericamente identificados como “povos amazônicos”, em razão do local de origem dos seus ancestrais, a Amazônia, onde entre os rios Jiparaná e Aripuanã (afluentes do Rio Madeira) teriam se originado em torno de cinco mil anos atrás. Este ambiente caracteriza-se por florestas entremeadas de cerrados, aptos por isso mesmo, à caça e à coleta. Questões demográficas ao longo dos dois mil anos seguintes teriam ocasionado a expansão do grupo, a diversificação da protolíngua tupi e a modificação da cultura em geral, chegando à incorporação da agricultura – plantação de tubérculos – e de cerâmica. Ter-se-iam neolitizado.
 
Em levas sucessivas os povos amazônicos percorreram o litoral atlântico, descendo até o Rio da Prata e, no sentido do oriente atingiram os Andes, propiciando a difusão da língua e da cultura material, ainda que não de modo uniforme.
 
A migração paulatina ocorrida ao longo de 2500 anos fez com que os Guarani difundissem sua língua por um grande território, sendo a figura do Karai (espécie de liderança religiosa) fundamental na compreensão desse movimento migratório. São necessárias as palavras do Karai e a força de sua oratória para levantar o grupo de uma terra esgotada pelo cultivo. Através da busca de uma nova terra “a palavra caminhava com o povo, pois o povo era levado por ela ao mesmo tempo em que a levava consigo. Estar a caminho se tornou, assim, o núcleo dinamizador da economia profética e da vivência religiosa do grupo.”
 
O caminhar almeja uma terra e a terra guarani se compara a um corpo murmurante que se estende e se alarga continuamente. Há um canto que diz: Yvy (o)ñemongo’i vaekue“num passado-começo a terra balbuciava sua palavra”. Nesse mesmo tempo (vaekue), balbuciava (brotava) sua palavra também o milho (Itimby oñemongo’i vaekue). Seu brotar é também um murmúrio, um ensaio do falar, do dizer-se, da palavra. Brotar é mostrar-se, aparecer, chegar à existência, nascer. Itymby foi registrado por Montoya como “rebentar”, “brotar”, “furar”. Seus exemplos falam do milho que brota e de sementes que ficam carunchadas. Nos relatos Kaiová, o milho – como outras plantas e animais – assume um papel ativo na cosmogonia indígena.
 
O centro da terra para os Guarani atuais significa o umbigo do mundo, o lugar onde tudo começou, sendo, ainda, uma importante referência espacial. Estes termos (centro da terra ou universo), nos registros jesuíticos, foram traduzidos como “inferno” e “cemitério”. Assim, nos catecismos está escrito que o inferno fica no meio interior da terra (yvy ypytépe, ou igbi apiteripe), lugar habitado pelo diabo (aña retä). Bolaños e outros autores dos catecismos usavam essa expressão para traduzir a descida de Jesus ao mundo dos mortos.
 
Tyapu, “trovão”, vincula-se a Tupã, mas também representa o avô ou pai criador dos Guarani – Ñane RamöiÑande RuÑamandu,Hayapúva –, àquele que “troveja ou que se mostra em ruído”. O instrumento musical mbaraka amplia o significado de tyapu para ‘fala’, ‘palavra’ ou ‘mensagem’, que devem ser interpretadas pelos xamãs. Assim se diz: ”como fala essa maracá” (oñe’ë pe mbaraka) como sinônimo de ‘soa maracá’.
 
Quando portugueses e espanhóis chegaram à bacia Platina para dar início à colonização, encontraram nestas terras o resultado de um processo milenar de produção e reprodução cultural, ou seja, as populações falantes do guarani em diferentes dialetos e possuidoras de uma certa homogeneidade cultural.
 
NAICACIQUÉI – INEXISTÊNCIA DE CHEFIA
Pesquisando as culturas primevas ou arcaicas da América, Pierre Clastres defende a tese de que estas eram sociedades que se opunham a uma chefia efetiva, a um poder que se colocasse acima dos desejos e necessidades coletivas.
 
Excetuando as altas culturas do México, da América Central e dos Andes, diz Clastres, distribuídas ao longo do território americano encontrava-se um grande conjunto de sociedades nas quais a detenção do poder, como a entendemos, inexistia, onde se vê o político como um “campo fora de toda coerção e de toda violência, fora de toda subordinação hierárquica, onde, em uma palavra, não se dá uma relação comando-obediência”.
 
Segundo Clastres, as características imprescindíveis das lideranças indígenas são visíveis tanto no norte quanto no sul do continente. A liderança indígena se faz:
1.    quando o chefe assume a função de “fazedor de paz”, de instância moderadora do grupo, tal como é atestado pela divisão freqüente do poder em civil e militar;
2.    quando o chefe é generoso com seus bens, não repelindo os incessantes pedidos da comunidade. Caso isso acontecesse, cairia em descrédito;
3.    quando o chefe é bom orador. Somente um bom orador ascende à chefia e granjeia a simpatia do grupo.
 
Parece a Clastres que os grupos indígenas intuitivamente compreenderam que o poder é essencialmente coerção e, por isso mesmo, colocaram-se em oposição a ele. Tal atitude não pode, contudo, ser lida como uma inabilidade na resolução de questões políticas e de poder, na medida em que pressentiram muito cedo que a transcendência do poder encerra para o grupo um risco mortal, que o princípio de uma autoridade exterior e criadora de sua própria legalidade é uma contestação da própria cultura; foi a intuição dessa ameaça que determinou a profundidade de sua filosofia política.
 
Se nas sociedades de estado a palavra é o “direito” do poder, nas sociedades sem estado ela é “dever” do poder. A chefia como cargo não confere ao chefe o direito à palavra, ao contrário, as sociedades indígenas exigem de sua liderança o domínio sobre as palavras, sendo a fala um imperativo ao chefe. O silêncio incompatibiliza-se com a liderança.
 
Nas sociedades sem Estado, regras e leis se inscrevem na ordem do corpo. São marcas indeléveis a autorizar o pertencimento deste corpo ao grupo. Assim entende-se os ritos de iniciação e essa “escritura” que marca o corpo. As sociedades arcaicas são, sociedades de marca, são sociedades sem Estado, sociedades contra o Estado. A marca sobre o corpo, igual sobre todos os corpos, enuncia: Tu não terás o desejo do poder, nem desejarás ser submisso. E essa lei não-separada só pode ser inscrita num espaço não-separado: o próprio corpo. Admirável profundidade dos selvagens, que de antemão sabiam tudo isso, e procuravam, ao preço de uma terrível crueldade, impedir o surgimento de uma crueldade ainda mais terrível: a lei escrita sobre o corpo é uma lembrança inesquecível.
 
São sociedades que possuem um chefe, que, por sua vez, não possui autoridade, não ordena, não desenvolve instrumentos de coerção e não exige obediência. “Estranha à sua essência”, diz Clastres, o chefe não possui autoridade, mas, como dito anteriormente, desenvolvendo as habilidades, mantém-se como chefe enquanto o grupo assim o desejar. O chefe, enquanto visto como tal resolve os conflitos que podem surgir entre indivíduos, famílias, linhagens etc., ele só dispõe, para restabelecer a ordem e a concórdia, do prestígio que lhe reconhece a sociedade. Mas evidentemente prestígio não significa poder, e os meios que o chefe detém para realizar sua tarefa de pacificador limitam-se ao uso exclusivo da palavra: não para arbitrar entre as partes opostas, pois o chefe não é um juiz e não pode se permitir tomar partido por um ou por outro; mas, para, armado apenas de sua eloqüência, tentar persuadir as pessoas da necessidade de se apaziguar, de renunciar às injúrias, de imitar os ancestrais que sempre viveram no bom entendimento.
 
Momentos como esses são cruciais para a chefia. Alcançado o entendimento entre os disputantes, o chefe mantém e confirma sua posição. O contrário demonstra sua incapacidade persuasiva, abrindo espaço para resoluções violentas, sinônimo de incapacidade em responder o que dele se espera, o que coloca em risco seu prestígio.
 
Prestígio este que, segundo Clastres, advém tão-somente de sua competência técnica, dons oratórios, habilidades como caçador, capacidade de coordenar as atividades guerreiras, ofensivas ou defensivas. E, de forma alguma, a sociedade deixa o chefe ir além desse limite técnico, ela jamais deixa uma superioridade técnica se transformar em autoridade política. Finalmente o chefe está a serviço da sociedade, é a sociedade em si mesma o verdadeiro lugar do poder – que exerce como tal sua autoridade sobre o chefe.
 
A guerra surge como exceção. Tendo em vista a habilidade “técnica” de guerrear, durante a expedição guerreira o chefe pode exercer o mínimo de autoridade. Entretanto, terminada a guerra, o chefe volta a ser o chefe sem poder, independentemente do resultado da batalha, pois a sociedade separa poder e prestígio, a glória de um guerreiro vencedor e o comando que lhe é proibido exercer. O grupo tem clareza de que a fonte mais apta para saciar a sede de prestígio de um guerreiro é a guerra. Ao mesmo tempo, um chefe cujo prestígio está ligado à guerra não pode conservá-lo e reforçá-lo senão na guerra: é uma espécie de fuga impulsiva para frente que o faz querer organizar sem cessar expedições guerreiras das quais ele conta retirar benefícios (simbólicos) aferentes à vitória. Enquanto seu desejo de guerra corresponder à vontade geral da tribo, em particular dos jovens para os quais a guerra é também o principal meio de adquirir prestígio, enquanto a vontade do chefe não ultrapassar a da sociedade, as relações habituais entre a segunda e a primeira manter-se-ão inalteradas.
 
No centro da organização social dos Guarani, em especial, encontram-se, no mínimo, dois tipos ou conceitos de liderança. O líder civil, pa’i, era pai de linhagem ou da família extensa, teýru, e passou para a história sendo designado com o nome de “arawak”, “cacique”. O líder religioso, karai – referido nas crônicas como feiticeiro, mago e chupador (por dominar a técnica da cura por sucção), foi identificado pelos etnólogos como xamã.
 
JOPÓI – PRATICAR UMA ECONOMIA DE RECIPROCIDADE
As características jopói – reciprocidade  –, ko’ygua – ser camponês, um cultivador – e tavaygua – um agricultor que vive em uma aldeia – são melhor entendidas em conjunto. Cabe lembrar que a reciprocidade – jopói – é um atributo essencial para o reconhecimento de uma liderança.
 
Em Montoya, uma aldeia guarani pode compreender centenas de pessoas, distribuídas em grandes habitações retangulares recobertas de folhas de palmeira. Cada uma delas abriga uma grande família, que compreende os núcleos familiares formados pelas filhas e netas; ela funciona como um grupo defensivo e ofensivo e é local onde ocorre a maior parte das atividades de produção. Em certos casos, sessenta núcleos familiares vivem sob o mesmo teto. Cada um ocupa um local determinado, onde se estendem as redes de algodão ou de fibras de palmeira entre dois pilares e se agrupam alguns móveis e utensílios, bancos ou escabelos, às vezes ricamente esculpidos, grandes jarras para as bebidas fermentadas e os ornamentos ou vários objetos, duas ou três cabaças entalhadas que comportam recipientes, armas de caça ou de guerra, ferramentas rudimentares para o artesanato, estacas e machados para os trabalhos nos campos.
 
Sociedades como a Guarani são classificadas quanto à sua manutenção como “sociedades de economia de subsistência”. Segundo Clastres, se levados em conta o domínio do meio natural e sua adaptação às necessidades, falar de inferioridade técnica se torna impossível. As sociedades primevas demonstram “uma capacidade de satisfazer suas necessidades pelo menos igual àquela da qual se orgulha a sociedade industrial e técnica. Isso equivale a dizer que todo grupo humano chega a exercer, pela força, o mínimo necessário de dominação sobre o meio que ocupa”.
 
O tempo dedicado ao trabalho corresponde ao tempo exato para a obtenção do necessário para a sobrevivência do grupo e, mesmo não estando preocupados em produzir excedentes, estes ocorrem. São sociedades de abundância, e os relatos de época confirmam esta realidade ao descreverem “a bela aparência dos adultos, a boa saúde das numerosas crianças, a abundância e variedade dos recursos alimentares”.
 
A vida econômica dos grupos tupi-guarani baseava-se sobretudo na agricultura, e, acessoriamente, na caça, na pesca e na coleta. Uma mesma área de cultivo era utilizada por um período ininterrupto de quatro a seis anos. Em seguida, era abandonada, por esgotar-se o solo ou, mais provavelmente, em virtude da invasão do espaço destacado por uma vegetação parasitária de difícil eliminação. O grosso do trabalho, efetuado pelos homens, consistia em arrotear, por meio de um machado de pedra e com auxílio do fogo, a superfície necessária. Essa tarefa, realizada no fim da estação das chuvas, mobilizava os homens durante um ou dois meses. Quase todo o resto do processo agrícola – plantar, mondar, colher –, em conformidade com a divisão sexual do trabalho, era executada pelas mulheres.
 
Ainda, o autor conclui que metade da população da aldeia (os homens) trabalhava em torno de dois meses a cada quatro anos, dedicando-se, no tempo restante, à caça, à pesca e à guerra.
 
Se tão pouco tempo de trabalho é capaz de prover a aldeia, produzindo, inclusive, um excedente, parece impróprio usar a expressão 'de subsistência' para falar deste modelo de economia. A expressão carrega em si ares de negatividade sinônima de carência, pobreza, ou, como diz Clastres, defeito, como se elas – as economias – sofressem de um mal congênito. O uso do conceito deve ser necessariamente positivado, ou seja, pensar em subsistência é pensar numa economia de abundância, que abastece plenamente a sociedade.
 
Por que essas economias não produzem mais, por que não dedicam mais tempo para as atividades produtivas? Segundo Clastres, somente por meio da força se obtém a produção de excedentes. Nas sociedades primevas, essa força coercitiva não encontra espaço – vale lembrar do poder político. Para este autor, não existe o desejo efetivo da acumulação de bens. Suas economias não são economias políticas.
 
Para ilustrar esse pensamento econômico, Clastres usa o machado de metal como exemplo de objeto que causou muito impacto nas sociedades arcaicas americanas por ocasião da colonização. A vantagem do machado de metal sobre o de pedra é evidente demais para que nela nos detenhamos: podemos, no mesmo tempo, realizar com o primeiro talvez dez vezes mais trabalho que com o segundo; ou então executar o mesmo trabalho num tempo dez vezes menor. E, ao descobrirem a superioridade produtiva dos machados dos homens brancos, os índios os desejaram, não para produzirem mais no mesmo tempo, mas para produzirem a mesma coisa num tempo dez vezes mais curto. Mas foi exatamente o contrário que se verificou, pois, com os machados metálicos, irromperam no mundo primitivo dos índios a violência, a força, o poder, impostos aos selvagens pelos civilizados recém-chegados.
 
Para Clastres, “a sociedade primitiva, primeira sociedade de abundância, não deixa nenhum espaço para o desejo de superabundância”.
 
A horticultura praticada pelos Guarani apresentava grande rendimento. Nas roças, o milho era o produto de maior destaque (nos escritos de Montoya há notícia de seis variedades de milho), bem como notícias de, entre as plantas cultivadas, duas espécies de moranga, vinte de batata, seis de mandioca, seis de amendoim e quatro de pimenta. A alimentação guarani era completada com a coleta de ervas, frutos, mel, caça e pesca.
 
A horticultura era praticada na mata. A subsistência/abundância do grupo alicerçava-se na agricultura de coivara (derrubada e queima da mata). Segundo Melià, a “terra humanizada” dos Guarani compreendia, além da selva e da roça, um espaço habitável, uma casa, um pátio, uma aldeia. A mata preservada para a prática da caça, da pesca e da coleta de mel e de frutas silvestres. Terra especialmente fértil para os cultivos e, por fim, um lugar para a grande casa comunal, com seu grande pátio aberto, ao redor do qual cultiva-se banana, mamona, algodão e urucu. Os três espaços que servem para avaliar a boa terra guarani são: o monte, a roça e a aldeia. Assim, “a selva é espaço da caça, da pesca e da coleta; a roça, o lugar do cultivo; a aldeia, o lugar das casas, das festas e das reuniões”.
 
A organização social dos Guarani tinha por base o te’ý – a família extensa –, constituída de uma linhagem patrilinear ou grupo macrofamiliar, unido pelo parentesco, que habitava a casa comunal. Ote’ýiru, pai de cada família, constituía uma espécie de chefe da família extensa. O espaço vital em que os diversos te’ýi conviviam era otekoha. Os tekoha podiam confederar-se, eventualmente, originando as guará. No tempo da conquista podem ser precisadas 14 guára, que levam o nome de rios ou caciques: Cario, Carijó, Tobatim, Guarambaré, Itatim, Paranayguá, Uruguayguá, Tape, Guayrá, Arechané, Caaró, Tarumá, Chiriguano e Chadul ou Guarani das ilhas.
 
Texto de Maria Denise Bortolini

domingo, dezembro 30, 2012


 RESPONSABILIDADE

Quando estivermos num lugar tranqüilo ou em meio à nossa vida atribulada, devemos fazer uma pausa, para pensar em nós mesmos e em nossas ações. Estamos ai dando o primeiro passo para sermos pessoas responsáveis.(usamos neste momento uma de nossos primeiros ensinamentos a utilização de régua de vinte e quatro polegadas) as vezes pedimos por ajuda ou aconselhamento, mas não olhamos para nós mesmos  e usamos a nossa própria força.E neste momento ao recorrer a outros passamos a depender para o que nos digam o  que fazer.  Tenham cuidado, porque em todos os níveis que atuamos o primeiro passo rumo à responsabilidade e a força, é o cuidado com aquilo que aprendemos e buscamos. Nenhuma pessoa responsável dirá a outra o que fazer, mas  sim ajudará essa pessoa que o procurou  a encontrar o seu próprio caminho. (livre escolha) Todos nós que vivemos na diferença de sermos FRANCO-MAÇONS, precisamos mais ainda de nossos irmãos em diferentes momentos de nossa vida, mas acima de tudo devemos ser fiéis ao nosso Próprio ser em todos os níveis de existência. A decisão de fazer parte de nossa Arte Real foi avaliada segundo sua capacidade de abrir a sua mente e aprender os mistérios de que ela nos envolve, e procurar dentro disto através do estudo e contemplação a encontrar seu próprio caminho.
Somos escolhidos, mas isto não quer dizer que somos diferentes ou melhores do que os outros seres humanos. A diferença esta em nossa responsabilidade, nos cuidados e atitudes em relação aos outros , pois estamos a procura do aperfeiçoamento.
Somos ainda responsáveis absolutos pela ordem que pertencemos desta forma a responsabilidade é uma coisa totalmente personal. Somos responsáveis  pelos nossos atos  e pela maneira de tratar nossos irmão e pessoas que estão neste mundo .(veja a amplitude de nossa responsabilidade). A responsabilidade pelo nosso comportamento, pela conseqüência desse comportamento e pela forma como nos relacionamos com nossos irmãos e exclusivamente nossa. Assumir esta responsabilidade é algo muito importante para que nossos atos e reações na vida diária de inicio a uma corrente de energia de uma família constitui um elo na corrente energética de cuidados com a ordem (Maçonaria) com os que nos rodeiam e com todos os povos que habitam a terra.
Não devemos nunca e de maneira nenhuma subestimar a nossa contribuição. Ao assumirmos a responsabilidade pelos nossos atos aumenta a qualidade da vida como um todo e gera grande quantidade de energia.
Ao longo de nossas vidas vamos assumindo cada vez mais responsabilidades, seja com a família, trabalho, serviços sociais, e principalmente junto a Ordem. A energia que produzimos ao assumirmos este papel é muito responsável e especial, pois ela inspira exige esforços físicos coragem, criatividade, e possibilita o progresso individual não deixando de contribuir para harmonia geral.
É um estado do ser totalmente abrangente, esta energia criada é poderosa, mas tem de ser criada e alimentada, principalmente quando se combinam, e a partir desse momento assemelham-se a uma maravilhosa essência dourada em torno de todo planeta, se tornando mais forte à medida que vamos adquirindo conhecimento e vermos o tipo que contribuição que damos ao mundo. E se todos unidos colaborarmos com esta energia que envolve a responsabilidade e o zelo , trabalharmos para a liberdade a dignidade e para o futuro da vida.
Se por um segundo você parar de fazer o que estamos fazendo e perceber a força dessas energias dentro de nós mesmos, sentiremos a pulsação maravilhosa e a importância de nossa parte do modelo global da vida.
Agora acrescente a essa sensação interior o conhecimento de tudo que nos é dado como empréstimo e de que, quanto mais responsáveis nos tornaram maior será a energia que envolve o zelo e a responsabilidade com respeito aos nossos descentes.
Esta essência dourada que criamos está à disposição de todos, para ser ampliada e usada quando necessário for.
O planeta, o pais, estado, cidade, casa e loja são o cerne de toda a existência em todos os níveis. Sem a energia que transita em todo este meio, que une o físico, o espírito, enfraqueceremos os tornamos vulneráveis a qualquer ato a qualquer palavra.
Aceite e compreenda a imensa estrutura em que todas as coisas vivam está interligada, e passe a ter maior responsabilidade ainda  e assim estará evoluindo e contribuindo em todos os setores com excessiva importância . Pratique porque você é um ser que foi escolhido para o aprendizado de uma Arte Maior, aproveite a oportunidade que esta a sua disposição vinte e quatro horas por dia, estudem e pratique.Engana-se pois o maçom que achar que  a nobre Arte Real não é mágica, sim ela é uma  pura magia, mas  para aquele que  a entender, e fazerem bom uso, deste milenar  conhecimento, conhecimento este  que  nunca chega ao fim. Infeliz aquele que pensa saber tudo, infeliz aquele que é desonesto consigo mesmo, achando-se superior, esquece que somos iguais e a evolução só é dada a quem tem merecimento, através de atos, ações, bons pensamentos e principalmente com o cuidado de falar, pois o Verbo a primeira coisa a ser criada no Mundo às vezes quando mal empregada nos leva as trevas. Meditem sobre isto e policiem suas palavras, e ao falar tenha convicção no que esta dizendo, pois muitas vezes falamos coisas que não devemos, e, por conseguinte ouvimos coisas que não gostamos. (ação e reação). Não podemos criticar, pois criticas sempre voltam para  nós , e possivelmente quem nós criticamos vai se  justificar e isto  vai se tornar um verdadeiro pesadelo.Meditem muito sobre isto...
     RONALDO LIMA – GMD VM -- GR33°
    GLÓRIA DA ACÁCIA N°04


Em seu Quadro da Vida Humana, Cebes, que nasceu em Tebas, cidade da Beócia, no Século V a. C., descreve-nos um vasto recinto onde vivem seus habitantes. Uma multidão de candidatos à vida aglomera-se à porta. Um gênio, representado por um venerável ancião, dirige aos candidatos atilados conselhos. Infelizmente, suas sábias advertências sobre a conduta que se deve observar perante a vida são de pronto esquecidas pelas almas ávidas por viver. Tão logo entram no fatal recinto, sentem-se obrigadas a desfilar diante do trono da Impostura, mulher cujo semblante é de uma expressão convencional e que tem maneiras insinuantes. Ela apresenta-lhes um copo. Não se pode entrar sem beber pouco ou muito. Para viver intensamente, muitos bebem a grandes sorvos do erro e da ignorância; outros, mais prudentes, apenas provam a mágica beberagem e, em conseqüência, esquecem menos os conselhos recebidos e não sentem tanto apego à vida. 

Do mesmo modo, um cálice será apresentado ao neófito, quando ingressar na nova vida de Iniciado. O aspirante que acaba de sofrer a prova do fogo refrigera-se com esta água pura e refrescante. Mas, enquanto bebe a grandes goles, a doce bebida torna-se amarga. Quisera então rechaçar o cálice, mas se lhe ordena que beba até as fezes. Obedece, dócil e decidido a suportar a carga de sofrimento que o aguarda. Bebe, mas, – oh! Milagre! – a fatídica beberagem volta ao seu primitivo sabor! 

Este rito nos inicia no grande mistério da vida que nos brinda com suas doçuras, mas que quer que saibamos aceitar também seus rigores e crueldades. 

Quando aceitamos a vida, nossa tendência é de provar tão-só o agradável e desejamos a felicidade como se pudéssemos consegui-la gratuitamente sem havê-la merecido. Isso é desconhecer em absoluto a Lei do Trabalho que vale, necessariamente, para toda a vida. Viver é, em suma, cumprir uma função e, portanto, trabalhar. A Vida é a tal ponto inseparável do trabalho e do esforço, que não se a pode conceber na inércia. Nossa existência é ação. Descansamos para repor as forças, a fim de poder prosseguir com nossas atividades. Quem deixa de obrar renuncia à existência: o descanso definitivo esteriliza e equivale à anulação, à morte! 

Para dizer a verdade, é possível, – valendo-se de artifícios, – fugir a toda pena e obrar de maneira que só nos proporcione satisfações. Mas essa tática não produz mais que engano, e a vida sabe vingar-se daqueles que não querem acatar suas leis. Quando menos, o fastio de viver será sua herança. 

Para o Iniciado, impõe-se tanto mais a honra de viver, quanto mais ambicione possuir os segredos que são, precisamente, os da própria vida. A Iniciação ensina a viver uma vida superior, ou seja, em perfeita harmonia com a Grande Vida. Compreender bem a vida: eis aqui o objetivo de todo aspirante à sabedoria. Que nos importam os segredos da morte? Em seu devido tempo, ser-nos-ão revelados, e não há por que se preocupar com eles. Em troca, devemos viver, e viver de acordo com as exigências da vida. 

Estas exigências da vida poderão parecer tirânicas ao profano que não tenha compreendido a existência; uma inexorável necessidade condena-o ao trabalho. Em meio a trabalhos e penas, lamenta-se e revolta-se airoso contra a dor que lhe foi imposta. Esse suplício dura, enquanto não se determina a encontrar o paraíso, tão logo saiba renunciar ao mesmo. Sofrer, trabalhar: significará isso, por acaso, decadência? E quem pode ser forte e poderoso sem antes haver sofrido cruelmente? A alma que quer conquistar a nobreza e a soberania deve buscá-las nas fragas do sofrimento. 

Isto não quer dizer, todavia, que seja indispensável buscar o ascetismo ou tormentos intencionais: a vida saberá nos proporcionar provas salutíferas e nos brindará o cálice, convidando-nos a esvaziá-lo com firmeza, sem necessidade, de nossa parte, de aí acrescentarmos qualquer amargor. O Iniciado não teme a dor e sofre com coragem, mas não vive obrigado a amar nem a se comprazer com o sofrimento. Tem fé na vida. Sabe-a misericordiosa, apesar de suas leis inexoráveis, e saboreia as doçuras que nos reserva como compensação das penas que nos inflige. 

O que devemos buscar é a harmonia, o acordo harmônico com a vida. Não podemos obtê-lo de golpe; é indispensável uma penosa aprendizagem da Arte de Viver, a Grande Arte por excelência, a Arte que praticam os Iniciados. A vida é sua escola, onde não pode ser admitido aquele que não está decidido a beber do cálice da amargura. 

Sem embargo, a vida nos brinda felicidade. Todo ser acredita ter direito a ela, e esta é sua constante aspiração. Vivemos de esperanças, e nos parecem mais leves as penas de hoje, se as ponderarmos com as alegrias de amanhã. A vida corrente pode trazer para nós certas ilusões e tratar-nos como adolescentes, mas a vida iniciática considera-nos homens já maduros, pouco dispostos, portanto, a deixar-se levar por ilusões. A felicidade nos é assegurada, contanto que a saibamos buscar nós mesmos. De nada somos credores sem merecimento: se a vida nos é dada, é para que a utilizemos como é devido, não para desfrutar dela sem pagar tributo. Saibamos, pois, considerá-la sob seu verdadeiro aspecto. Entremos a seu serviço dispostos a consagrarmo-nos ao estrito cumprimento de nossa obra de vida, que deve ser a Magna Obra dos Alquimistas. 

Em todos os tempos, a Iniciação foi privilégio dos valentes, dos heróis dispostos a sofrer, dos homens com energia que não pouparam seus esforços. É a glorificação do esforço criador do sábio que chegou à plena compreensão da vida, a tal ponto que, ao viver para trabalhar, consegue romper as correntes do presidiário condenado a trabalhar para viver. Diz o adágio: Trabalho equivale à Liberdade, e ainda seria melhor dizer que nos libertamos da escravidão através de nosso amor ao trabalho. É, portanto, questão de desejar o trabalho, de buscar o esforço fecundo sem temor ao sofrimento que possa acompanhar sua realização. Então a vida será, para nós, amena, confortadora e bela. 

Assim fica explicado o simbolismo da poção cuja amargura não deve nos desanimar. Podemos devolver-lhe o primitivo sabor, aceitando, simplesmente, a obrigação de beber, até o fim, o Cálice Sagrado da Vida.

fonte: trecho do livro ideal iniciático

quinta-feira, dezembro 27, 2012





E Jacó sonhou: “e eis que uma escada era posta na terra, porque o sol era posto; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela, e eis que o Senhor estava em cima dela”.(Gênesis: 20, 12-13)


Jacó, filho de Isaac e Rebeca e irmão gêmeo de Esaú.
Narra a Bíblia que Isaac estava velho e sua vista se tinha de tal sorte enfraquecida que ele não podia ver nada. Chamou pois Isaac a Esaú, seu primogênito, e disse-lhe que pegasse suas armas e saísse à caça e, depois que tivesse apanhado algo, que preparas¬se dela e levasse para ele comer e ser abençoado antes que morresse.

No entanto, ouviu Rebeca a conversa entre Isaac e Esaú e, tão logo este saiu para a caça, chamou Rebeca a Jacó contando-lhe o que ouvira, aconselhando-o a ir até o rebanho e trouxesse dois cabritos dos melhores para deles preparar a iguaria que sabia ser do gosto de Isaac e, poder assim, em lugar de Esaú, receber a bênção do pai antes que este viesse a fale¬cer. E assim foi feito.

Todavia, para que Isaac não notasse a diferença entre os irmãos, vez que Esaú era todo peludo, vestiu Jacó dos mais preciosos vestidos de Esaú e cobriu as mãos e o pescoço com as peles dos cabritos.

Dando pois Isaac a bênção a Jacó, lhe disse: “Eis aqui o cheiro do meu filho, que é como cheiro de um campo bem cheio, ao qual o Senhor abençoou. Deus te dê o orvalho do céu e da gordura da terra, abundância de pão e de vinho. Os povos te estejam sujeitos, e eles prostem diante de ti. Tu sejas o senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se inclinem profundamente na tua presença. Aquele que te amaldiçoar, esse seja amaldiçoado, e aquele que te bem disser, seja cheio de bênçãos”.

Apenas Isaac tinha acabado de dizer estas palavras e Jacó saído, quando Esaú que, tendo apresentado a seu pai o que fizera cozer de sua caça lhe disse: “Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho, para tu de dares a tua bênção”.

Após esclarecidos os fatos, perguntou Esaú a seu pai? E tu, não reservaste também para mim alguma bênção?
Respondeu-lhe Isaac: “Eu o constituí a ele teu Senhor; sujeitai-lhe todos os seus irmãos. Estabeleci-o na posse do trigo e do vinho. E depois disso, meu filho, que te posso eu fazer?”
Como Esaú chorava, movido de compaixão, lhe disse lsaac: “A tua bênção será na gordura da terra e no orvalho do céu, que cai lá do alto. Tu viverás da tua espada e serás sujeito a teu irmão. E lá virá o tempo que tu sacudas o seu jugo da tua cerviz e te livres dele”.

Por causa desse episódio, conservou Esaú sempre um rancor contra Jacó, que só estava a espera da morte de seu pai para se desfazer de Jacó. Como Receba ficou sabendo da in¬tenção de Esaú, chamou a Jacó e lhe disse para que se retirasse para Haran, onde as¬sistia seu irmão Labão (irmão de Rebeca) e que por lá ficasse algum tempo até que a ira de Esaú se aplacasse e sua indignação passasse.

Jacó tendo partido de Bersabé, ia para Haran. E como chegasse após o por do sol a certo lugar, onde ele queria passar a noite, pegou numa das pedras, que ali havia; e tendo-a posto por baixo de sua cabeça, dormiu ali mesmo. Então viu em sonhos uma escada, cujos pés esta¬vam fincados sobre aterra, e o cimo tocava o céu; e os anjos de Deus subindo e descendo por esta escada. Viu também ao Senhor firmado no cimo da escada, que lhe dizia: “Eu sou o Senhor Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac. Eu darei a ti e a teus descendentes a terra em que tu dormes. A tua posteridade será numerosa, como o pó da terra; e tu te estenderás ao Ocidente, e ao Oriente, e ao Setentrião, e ao meio dia; e todas as tribos da terra serão bendi¬tas em ti e naquele que sairá de ti. Eu serei o teu condutor por toda a parte, por onde fores; e eu te tomarei a tra¬zer a este país; e não te deixareis, a menos que não tenha executado tudo o que te prometi”.

Jacó tendo despertado depois do sono disse: “Em verdade que o Senhor está neste lugar, e eu não sabia. Verdadeiramente não é isso outro coisa, que a casa de Deus, e a porta do céu. Tendo-se pois levantado logo ao amanhecer, tomou a pedra que ti¬nha posto por baixo da cabeça e a erigiu em padrão, lançando-lhe azeite em cima. E pôs o nome de Betel à cidade que antes se chamava Luz. Ao mesmo tempo fez ele Jacó este voto a Deus, dizendo-lhe: “Se Deus for comigo, e me guardar no caminho, por que eu ando, e me der comer, e pano para me cobrir, e eu voltar felizmente para a casa de meu pai: o Senhor será o meu Deus. E esta pedra, que erigi em título, será chamada Casa de Deus: e de todas as coisas que vós me derdes, vos oferecerei o dízimo”.

A escada mística vista por Jacó simboliza singelamente o ciclo involutivo e evolutivo da vida, em seu perpétuo fluxo e refluxo, através de nascimento e morte, a desdobrar-se em hierarquias de seres, potestades, mundos, remos devida e raças.

Segundo as tradições maçônicas, a escada com esse significado consta de catorze degraus; nos mistérios persas e indostâmicos ela tinha grande importância e, por isso, em seus templos se erigia uma escada de sete degraus, correspondentes também as sete cavernas iniciáticas. Mas, em realidade, seus degraus são tantos quantas são as virtudes necessárias ao aperfeiçoamento individual e, das quais, as três principais são a Fé, a Esperança e a Caridade, ali simbolizadas pela Cruz, a Âncora e o Cálice. 

Contam ainda os antigos iniciados que a evolução da alma se operava numa série de sete globos, entre os quais se citavam Saturno, Mercúrio, Vênus, Júpter, Marte, Lua e Sol. Assim, a chamada Escada de Jacó tinha e tem múltiplas implicações e correspondências, e sua presença na Maçonaria nos recorda perpetuamente a universal lei da evolução e a existência de poderosas hierarquias cooperando maravilhosamente na sua execução através de milênios e milênios.

FÉ - ESPERANÇA- CARIDADE

O teto de um Templo Maçônico, é a representação da sua própria altura, ou seja, têm o céu estampado em suas pinturas.. Todo maçom deve ter como objetivo, alcançar este Céu, o ilimitado, o infinito a certeza de estar se atingindo a própria LIBERDADE. O ELO de ligação ou a estrada a ser trilhada para alcançar tal pretensão, da ESCADA DE JACO. Cada degrau representa. uma etapa de aperfeiçoamento moral e também um grau da Maçonaria Simbólica e Filosófica.

Três são os símbolos que o maçom deve ter sempre em seus corações, e em mente, para se empenhar nessa caminhada.. SÃO ELES: FE, ESPERANÇA E CARIDADE, representados respectivamente pela CRUZ, ÂNCORA e TAÇA.

A Fé, representa o primeiro degrau da escada de Jacó, pois ela é a SABEDORIA do ESPÍRITO, sem a qual o Homem nada levará a termo.
A esperança, representa os degraus intermediários, pois ela ampara e anima o espírito nas dificuldades encontradas no caminho.

A Caridade, representa o último degrau, que só será atingido praticando-a, pois ela é a própria imagem dos mais puros sentimentos humanos. 

quarta-feira, dezembro 26, 2012



Um leitor deste blogue, em comentário ao texto Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXX, expressou a sua insatisfação pelo facto de, em tempos de crise em Portugal e na Europa, não ver aqui comentário à mesma. Seguiu-se uma troca de comentários em que penso ter explicado a posição dos maçons que aqui escrevem sobre o assunto.

Mas, ao documentar-me sobre as respostas a dar, recordei uma passagem de Morals and Dogma, de Albert Pike, que julgo interessante para se ver como a Maçonaria já desde há muito tempo que sabe muito bem como cada um dos maçons deve intervir na Sociedade.

Os teóricos da conspiração costumam muito citar Pike e a sua obra Morals and Dogma para elocubrarem sobre o pretenso projeto da Maçonaria de dominar a Humanidade e criar a Nova Ordem Mundial (seja lá o que isso for). Mas não se dão ao cuidado de ler Pike e Morals and Dogma...

Este excerto que aqui transcrevo ilustra bem, creio, a postura dos maçons perante a Sociedade. E, quanto à presente Crise, destaquei e sublinhei uma passagem. Para bom entendedor...

Por muito negro que seja o momento, a tormenta há de passar e este Povo há de ressurgir mais forte e mais capaz de superar as adversidades!

Que assim seja!

Eis o excerto:

Mas o grande mandamento da Maçonaria é: “Dou-vos um novo mandamento: Amareis uns aos outros! Aquele que disser estar na luz e odeia seu irmão, ainda estará na escuridão”.
Estas são as obrigações morais de um Maçom. Porém, também será obrigação da Maçonaria ajudar a elevar o nível moral e intelectual da sociedade; cunhando conhecimento, trazendo ideias à circulação e fazendo crescer a mente da juventude; e colocando a raça humana em harmonia com seu destino, gradualmente, mediante ensinamento de axiomas e pela promulgação de leis positivas.
É desse dever e trabalho que o Iniciado é aprendiz. Não deve imaginar que não pode afetar nada, e com isso desiludir-se e permanecer inerte. Está nisso, assim como está na vida diária de alguém. Muitas grandes obras são executadas nas pequenas lutas da vida. Existe, nos dizem, bravura determinada porém invisível, que se defende passo a passo, na escuridão, contra a invasão fatal da necessidade e da baixeza. Existem triunfos nobres e misteriosos, que os olhos não vêem, que não têm recompensas renomadas e que não recebem a saudação de fanfarras de trompetes.
A vida, o infortúnio, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que têm seus heróis – heróis obscuros, mas algumas vezes maiores do que aqueles que ficam famosos. O Maçom deve lutar da mesma maneira e com a mesma bravura contra aquelas invasões da necessidade e da baixeza que atingem as nações assim como às pessoas. O Maçom deve enfrentá-las também, passo a passo, mesmo no escuro, e protestar contra o erro e a insensatez; contra a usurpação e contra a invasão dessa hidra, a Tirania.
Não há eloquência mais soberana do que a verdade indignada. É mais difícil para um povo manter do que conseguir sua liberdade. Sempre são necessários os Protestos da Verdade. O direito deve continuamente protestar contra o Facto. Existe, verdadeiramente, Eternidade no Direito.
O Maçom deve ser um sacerdote e um guerreiro desse Direito. Se o seu país tiver roubadas as suas liberdades, não deve desesperar. O protesto do Direito contra o Facto persiste para sempre.
O roubo de um povo nunca prescreve. O reclamo de seus direitos nunca é barrado. Varsóvia não pode mais ser tártara do que Veneza teutónica. Um povo pode resistir à usurpação militar, Estados subjugados ajoelham-se a Estados e usam a canga sob a pressão da necessidade; mas, quando a necessidade desaparece e se o povo estiver preparado para a liberdade, o país submerso virá à tona e reaparecerá e a Tirania será julgada pela História por ter assassinado suas vítimas.
Seja lá o que ocorrer, devemos ter Fé na Justiça e na Sabedoria soberana de Deus, Esperança no Futuro e benevolência Afetuosa para com os que erram. Deus torna Sua vontade visível às pessoas através de acontecimentos; um texto obscuro, escrito numa linguagem misteriosa. As pessoas traduzem-na imediata, rápida e incorretamente, com muitos erros, omissões e interpretações falhas. A nossa visão do arco do grande círculo é tão curta! Poucas mentes compreendem o idioma Divino. Os mais sagazes, os mais calmos, os mais profundos, decifram hieróglifos lentamente; e, quando voltam com seu texto, talvez a necessidade já se tenha ido há tempo; já existem vinte traduções – a maioria é incorreta e, é claro, são as mais aceites e populares.
De cada tradução nasce um partido; de cada interpretação falha, uma fação. Cada partido acredita ou finge que detém o único texto verdadeiro; e cada fação acredita ou finge que apenas ela possui a Luz. Além disso, fações são gente cega que aponta apenas para frente, e erros são projéteis excelentes, atingindo habilmente e com toda a violência que salta de argumentos falsos, onde quer que um desejo de lógica naqueles que defendem o direito os faça vulneráveis como uma falha numa couraça.
Portanto, muitas vezes seremos derrotados ao combater o erro diante do povo. Antaeus resistiu a Hércules por longo tempo, e as cabeças da Hidra cresceram tão rapidamente quanto foram cortadas. É um absurdo dizer-se que o Erro, ferido, agoniza em dor e morre no meio dos seus adoradores. A Verdade conquista lentamente. Há uma vitalidade surpreendente no Erro.
A Verdade, realmente, na maioria das vezes, atira por sobre as cabeças das massas; ou, se um erro estiver prostrado por um momento, levantar-se-á num instante, vigoroso como nunca. Não morrerá quando o cérebro tiver sido arrancado; e os erros mais estúpidos e irracionais serão os mais duradouros.

A Crise há de ser superada. A Sociedade é e será o que cada um de nós e todos em conjunto delas fizermos. Que cada um aprimore a sua Sabedoria, melhore a sua Força e em tudo o que faça ponha Beleza para que do melhor de nós resulte uma Sociedade melhor, antes, durante e depois de qualquer crise!

Rui Bandeira 

sexta-feira, dezembro 21, 2012


Guna-traya: Os Três Modos da Natureza Material


Todas as almas encarnadas estão sob o controle dos três modos da natureza material.
O Senhor Krsna explica o que são esses modos, como agem sobre nós e como podemos superá-los.

Sri Krsna Bhagavan
excertos da obra Bhagavad-gita

A natureza material consiste em três modos — bondade, paixão e ignorância. Ao entrar em contato com a natureza, a entidade viva eterna é condicionada por esses modos.

O modo da bondade, sendo mais puro do que os outros, ilumina, livrando a pessoa de todas as reações pecaminosas. Aqueles que estão situados neste modo condicionam-se a uma sensação de felicidade e conhecimento. O modo da paixão nasce de desejos e anseios ilimitados, e, por causa disso, a entidade viva encarnada está presa às ações fruitivas materiais. Fique sabendo que, no modo da escuridão, nascido da ignorância, todas as entidades vivas encarnadas ficam iludidas. Os resultados deste modo são a loucura, a indolência e o sono, que atam a alma condicionada.

O modo da bondade condiciona o homem à felicidade; o da paixão o condiciona à ação fruitiva; e o da ignorância, cobrindo seu conhecimento, o ata à loucura. Às vezes, o modo da bondade se torna preeminente, derrotando os modos da paixão e da ignorância. Às vezes, o modo da paixão sobrepuja a bondade e a ignorância. Outras vezes, a ignorância derrota a bondade e a paixão. Dessa maneira, há sempre competição pela supremacia.
As manifestações do modo da bondade podem ser experimentadas quando todos os portões do corpo são iluminados pelo conhecimento. Quando há um aumento do modo da paixão, desenvolvem-se sintomas de grande apego, atividade fruitiva, esforço intenso e desejo e anseio incontroláveis. Quando predomina o modo da ignorância, manifestam-se escuridão, inércia, loucura e ilusão.

Quando alguém morre no modo da bondade, ele atinge os planetas superiores puros, onde residem os grandes sábios. Quando alguém morre no modo da paixão, nasce entre os que se ocupam em atividades fruitivas. Quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal.


Foto: Os destinos possíveis após a morte segundo
os três modos da natureza material.

O resultado da ação piedosa é puro e se diz que está no modo da bondade. Mas a ação feita no modo da paixão resulta em miséria, e a ação executada no modo da ignorância resulta em tolice.

Do modo da bondade, desenvolve-se o verdadeiro conhecimento; do modo da paixão, desenvolve-se a cobiça; e, do modo da ignorância, desenvolvem-se a tolice, a loucura e a ilusão.

Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores, aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres, e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais.

Quando alguém vê corretamente que, em todas as atividades, o único agente que está em ação são estes modos da natureza, e quando conhece o Senhor Supremo, que é transcendental a todos esses modos, ele então alcança Minha natureza espiritual. Quando é capaz de transcender estes três modos associados com o corpo material, o ser encarnado pode liberar-se do nascimento, da morte, da velhice e dos sofrimentos que são inerentes a eles, e mesmo nesta vida pode gozar o néctar.

Conforme os modos da natureza adquiridos pela alma encarnada, sua fé pode ser de três espécies — bondade, paixão ou ignorância. Agora ouça enquanto falo sobre isso. Segundo sua existência sob os vários modos da natureza, o homem desenvolve determinada espécie de fé. Segundo os modos com os quais conviveu, o ser vivo tem uma fé específica.

Os homens no modo da bondade adoram os semideuses, aqueles que estão no modo da paixão adoram os demônios, e aqueles que vivem no modo da ignorância adoram fantasmas e espíritos.

Descrição: TA1443

Foto: Objeto de culto segundo os três modos da natureza material.

Aqueles que se submetem a rigorosas austeridades e penitências não recomendadas nas escrituras, executando-as por orgulho e egoísmo, que são impelidos por luxúria e apego, que são tolos e que torturam os elementos materiais do corpo bem como a Superalma que mora dentro deste devem ser conhecidos como demônios.
Mesmo o alimento preferido de cada um é de três espécies, conforme os três modos da natureza material. O mesmo se aplica aos sacrifícios, às austeridades e à caridade. Agora ouça enquanto falo sobre as distinções que existem entre eles.

Os alimentos apreciados por aqueles que estão no modo da bondade aumentam a duração da vida, purificam a existência e dão força, saúde, felicidade e satisfação. Estes alimentos são suculentos, gordurosos, saudáveis e agradáveis ao coração. Alimentos que são muito amargos, muito acres, salgados, quentes, picantes, secos e ardentes são apreciados por quem está no modo da paixão. Tais alimentos causam sofrimento, miséria e doença. Alimento preparado mais de três horas antes de ser ingerido, alimento insípido, decomposto e putrefato e alimento que consiste em refugos e substâncias intocáveis atrai aqueles que estão no modo da escuridão.


Foto: As três categorias de alimentos
de acordo com os três modos da natureza material.

Dos sacrifícios, é da natureza da bondade o sacrifício que por uma mera questão de dever é executado conforme as direções das escrituras por aqueles que não desejam nenhuma recompensa. Mas saiba que o sacrifício executado em troca de algum benefício material, ou por orgulho, está no modo da paixão. Considera-se que todo sacrifício executado sem que se levem em consideração a direção das escrituras, sem que se distribua prasada (alimento espiritual), sem que se cantem os hinos védicos, sem que se remunerem os sacerdotes e sem que se tenha fé está no modo da ignorância.

A austeridade do corpo consiste em adorar o Senhor Supremo, os brahmanas, o mestre espiritual e os superiores, tais como o pai e a mãe, e em limpeza, simplicidade, celibato e não-violência. A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam os outros, e também em recitar regularmente a literatura védica. E satisfação, simplicidade, gravidade, autocontrole e purificação da existência são as austeridades da mente. Estas três espécies de austeridade, executadas com fé transcendental, por quem não espera benefícios materiais, mas que atua apenas por amor ao Supremo, chamam-se austeridades em bondade. Afirma-se que a penitência executada por orgulho e com o intuito de ganhar respeito, honra e adoração está no modo da paixão. E não é estável nem permanente. Penitência executada por tolice, com autotortura, ou visando a destruir ou ferir outros, se diz que está no modo da ignorância.

A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno está no modo da bondade. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância.
Conforme os três diferentes modos da natureza material, há três classes de conhecimento, ação e executor da ação. Agora ouça enquanto falo sobre eles.
Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão. E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.

A ação que é regulada, e que se executa sem apego, sem amor nem repulsa, e sem desejo de resultados fruitivos, diz-se que está no modo da bondade. Mas a ação executada com grande esforço por alguém que busca satisfazer seus desejos, e efetuada devido a uma sensação de falso ego, chama-se ação no modo da paixão. A ação executada em ilusão, que não leva em conta os preceitos das escrituras, e em que não há preocupação com cativeiro futuro ou com violência ou sofrimento causados aos outros diz-se que está no modo da ignorância.

Aquele que executa seu dever sem entrar em contato com os modos da natureza material, sem falso ego, com grande determinação e entusiasmo, e sem se deixar levar pelo sucesso ou pelo fracasso diz-se que é um trabalhador no modo da bondade. O trabalhador que se apega ao trabalho e aos frutos do trabalho, desejando gozar esses frutos, e que é cobiçoso, sempre invejoso, impuro e que se deixa afetar pela alegria e tristeza diz-se que está no modo da paixão. O trabalhador que sempre está ocupado em trabalho contra os preceitos das escrituras, que é materialista, obstinado, trapaceiro e perito em insultar os outros, e que é preguiçoso, sempre desanimado e irresoluto diz-se que é um trabalhador no modo da ignorância.

Agora, por favor, ouça enquanto lhe falo com detalhes sobre as diferentes espécies de entendimento e de determinação, segundo os três modos da natureza material. Esta compreensão pela qual se sabe o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que se deve temer e o que não se deve temer, o que prende e o que liberta, está no modo da bondade. A compreensão que não distingue entre religião e irreligião, entre a ação que deve ser executada e ação que não deve ser executada, está no modo da paixão. A compreensão que considera a irreligião como religião e a religião como irreligião, que está sob o encanto da ilusão e da escuridão, e se esforça sempre na direção errada está no modo da ignorância.

A determinação que não cede, que através da prática de yoga ganha muita firmeza, e controla assim as atividades da mente, da vida e dos sentidos, é determinação no modo da bondade. Mas a determinação pela qual o homem se atém aos resultados fruitivos da religião, do desenvolvimento econômico e do gozo dos sentidos é da natureza da paixão. E a determinação que não pode transpor o sonho, o temor, a lamentação, a melancolia e a ilusão — tal determinação ininteligente está no modo da escuridão.

Agora, por favor, ouça enquanto falo sobre as três espécies de felicidade em que a alma condicionada desfruta.

Aquilo que no começo pode parecer veneno, mas que no final é tal qual néctar e que causa o despertar da autorrealização diz-se que é felicidade no modo da bondade. A felicidade que deriva do contato dos sentidos com seus objetos e que parece néctar no começo porém no final é um veneno diz-se que é da natureza da paixão. E se diz que a felicidade que é cega para a autorrealização, que é ilusão do começo ao fim, e que surge do sono, da preguiça e da ilusão é da natureza da ignorância.

Aqui ou entre os semideuses nos sistemas planetários superiores, não existe ser algum que esteja livre destes três modos nascidos da natureza material.

daivī hy eṣā guṇa-mayī
mama māyā duratyayā
mām eva ye prapadyante
māyām etāṁ taranti te

Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la.