sábado, junho 29, 2013

O Herói Alquímico no filme "Sinédoque, Nova York"


O filme "Sinédoque, Nova York" aprofunda ainda mais a simbologia gnóstica e alquímica dos trabalhos anteriores de Charlie Kaufman como roteirista. Narra a jornada do herói que busca a individuação numa cultura marcada pelo medo do anonimato e da insignificância do gesto individual. Através de uma verdadeira jornada alquímica de transformação busca a verdade numa sociedade inautêntica.

“Sinédoque, Nova York” é o primeiro filme como diretor de Charlie Kaufmann, roteirista de filmes anteriores como “Quero ser John Malkovich”(Being John Malkovich, 1999), “Adaptação” (Adaptation, 2002) e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004). Tal como nesses filmes extravagantemente conceituais, aqui, como diretor, Kaufmann tem a plena liberdade em desenvolver todos os simbolismos lançados nos trabalhos passados.

Os trabalhos de Kaufman como roteirista já transitavam por simbolismos de inspiração na mitologia gnóstica como a discussão da reencarnação como uma prisão para o espírito no cosmos físico em “Quero Ser John Malkovich” (veja links abaixo) e o indivíduo prisioneiro em um mundo mental cujas memórias são manipuladas por um Demiurgo tecnognóstico em “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”.

Dessa vez, e com plena liberdade, Kaufman aprofunda ainda mais todos esses simbolismos ao empreender uma jornada alquímica no sentido dado pelo psicanalista Jung. Em entrevistas, Charlie Kaufman tem salientado que não pretende fazer filmes que tentam transpor para a tela as imagens dos sonhos, mas, ao contrário, explorar a vida interior dos protagonistas por meio de narrativas oníricas.  Em outras palavras, ele pretende transpor a narrativa onírica composta por metáforas e metonímias (condensações e deslocamentos, como dizia Freud) para a narrativa fílmica. Daí o nome do filme “Sinédoque” que é uma forma de linguagem metonímica como veremos adiante.


“Sinédoque, Nova York” trata de um protagonista que busca autenticidade em um mundo inautêntico. É um filme sobre o fracasso, sobre a luta de um protagonista para deixar a sua marca em um mundo cheio de pessoas que são mais talentosas, bonitas, glamorosas e desejáveis do que o resto de nós. A narrativa de Kaufman sobre os estágios de transformação psicológica do protagonista são claramente inspirados nos arquetípicos estados alquímicos de transformação da matéria (nigredo, rubedo e albedo). Se o diretor, desde os seus trabalhos como roteirista, bebia nas fontes da psicanálise gnóstica junguiana, nesse filme é explícita a aproximação com a metáfora alquímica de Jung para o processo de individuação humana.

O filme nos conta a estória de um diretor de teatro, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) casado com uma talentosa pintora Adele (Catherine Keeler). Os dois moram em Nova York com sua filha de quatro anos Olive (Sadie Goldstein). Vivem uma vida envoltos em uma melancolia depressiva dentro de uma casa propositalmente de aparência frágil com cômodos pequenos e atmosfera opressiva. Visitam uma terapeuta de casais onde Adele confessa sua fantasia de que somente seria feliz se Caden morresse para, enfim, poder viver uma nova vida sem culpas.

A peça que Caden dirige se tranforma em sucesso, mas a sua vida cai em pedaços: Adele finalmente tem seu talento reconhecido e vai para Berlin levando sua filha Olive e uma amiga junkie. Só, hipocondríaco e com feridas que começam a surgir no seu corpo, Caden fica para trás. Enquanto isso, Adele e Olive transformam-se em estrelas na mídia alemã, líderes de tendências em moda e comportamento.

Até que um dia ele recebe pelo correio a notícia de que recebera o Prêmio da Fundação MacArthur (premiação em dinheiro para subvencionar trabalhos inovadores e criativos). Então decide trabalhar em uma produção teatral monumental. Diz para a terapeuta com uma sinceridade funesta que pretende criar “algo grande e verdadeiro, colocar o meu verdadeiro Eu em alguma coisa”

A gigantesca produção teatral de Cadem:
um laboratório alquímico
Dentro de armazém impossivelmente enorme pretende criar uma réplica exata do bairro em que mora em Nova York, dirigindo milhares de atores, orientando-os em separados para reproduzirem vinhetas realistas. Quer reproduzir na ficção teatral no interior de uma gigantesca cenografia a sua própria vida até que ficção e não-ficção se confundam. Como o mapa gigante do conto de Jorge Luis Borges "O Rigor da Ciência" (1935) onde a representação (o mapa) de tão minuciosa assume as dimensões da realidade a ponto de substituí-la.

Os Estados Alquímicos

O pesquisador Eric G.Wilson em seu livro “Secret Cinema: gnostic visions in film” desenvolve a noção de “cinema alquímico” dentro do conjunto de filmes hollywoodianos que se inspiram na mitologia gnóstica. Para ele, ao longo da sua história o cinema criou dois tipos de heróis: o “extrovertido” que tenta intervir e alterar o mundo exterior e o “introvertido” que através da contemplação cultiva valores internos. Diferente disso, o “cinema alquímico” pratica a “centroversão”: busca integrar o mundo interior e exterior através de um processo de transformação íntima através dos estados alquímicos de transformação da matéria.

Apesar das diferenças nas instruções dos alquimistas desde a antiguidade, pode-se notar uma concordância no que se refere aos estágios do processo alquímico de transformação:

  • Nigredo (enegrecimento); o caos primário de indiferenciação. Seus símbolos são o oceano, a serpente ouroboros e o caduceu de Mercúrio. O estado psicológico é a melancolia, associada à influência de Saturno. Ao falar sobre o que representa a sua gigantesca produção teatral, Caden fala em “banho comum, porque estamos todos na mesma água, mergulhados em nosso próprio sangue menstrual e emissões noturnas”. A melancolia de Caden vê a realidade como um caos de indiferenciações, alienado de qualquer sentido;

  •  Albedo (enbranquecimento): Sob a influência da Lua o caos é estabilizado, imobilizado em um estado abstrato, ideal. É o momento em que Caden cria um simulacro de Nova York no estúdio gigantesco. Sonhos e fantasias tornam-se perigosos, podendo o herói tornar-se “lunático” e se perder em seus próprios sonhos. Isso parece ocorrer tando com Caden como para o próprio espectador que começa a confundir realidade e representação numa narrativa em abismo (atores que representam personagens reais que representam que são atores...)

  • Rubedo (enrubescimento): a esse estado ideal e congelado é injetado o sangue, o Sol, a vida. O microcosmo encontra sua conexão com o macrocosmo. Caden encontra, ao final, a energia vital que mobiliza dos os atores na sua “sinédoque” teatral (a parte que representa o todo): paradoxalmente, o que mobiliza a vida é a morte. “Tive uma ideia, e se todos morressem”, fala Caden ao final reconhecendo a impossibilidade de dirigir a vida como no teatro. 

Ao transformar a sua gigantesca produção teatral num verdadeiro laboratório alquímico onde procura a reddenção em meio ao caos das relações humanas, Caden se diferencia do caminho escolhido por Adele para dar conta da melancolia: ela vai procurar a redenção através da imagem, da fama, do estrelato e do sucesso midiático.

A angústia da individuação nas redes de comunicação

O estados alquímicos correspondem aos
estágios psíquicos da individuação
A melancolia e a angústia atual surge num paradoxal dificuldade de individuação: embora as redes de comunicação atuais mobilizem uma fantasia narcísica de onipotência (a esperança de ter um gesto ou palavra ecoado pelas redes sociais), por outro lado cresce a angústia em relação à qualidade, duração e significado dos atos individuais.

Ter filhos, escrever um livro e plantar uma árvore (a marca individual deixada para a posteridade) torna-se cada vez mais improvável numa época que, ironicamente, convivemos com a mais fantástica rede de mídias, comunicação e informação da História. Cresce a percepção melancólica, o medo de morrer anônimo, sem um gesto significativo, sem o reconhecimento da posteridade.

“Sinédoque, Nova York” é notável em apresentar os dois caminhos para o problema da individuação contemporânea: a redenção através da imagem, do gesto hiperbólico que busca repercussão midiática; ou através da jornada alquímica, da sinédoque que Caden cria num verdadeiro laboratório alquímico em que se transformou o gigantesco estúdio. Adele quis encontrar um atalho para o mal estar da individuação através da fama midiática. Ao contrário, Caden mergulha fundo no caos, na angústia da indiferenciação, numa gigantesca peça de teatro sem público onde todos reencenam a si mesmos como em uma enorme sessão de psicanálise.

Cadem é o herói alquímico: ele não quer transformar o mundo e nem embarcar em um mergulho interior solipsista ou alto-indulgente. Busca um terceiro caminho, o tertium quid, redimir a matéria e encontrar a integração cósmica que é o princípio do gnosticismo hermético: “Acima como abaixo” ou o que está no mundo menor (microcosmo) reflete o que está no mundo maior (macrocosmo).

Como Charlie Kaufman descobre ao final com Caden, é na consciência que vivemos para morrer onde encontramos o significado do gesto individual: cada detalhe, cada ação reflete um sentido maior que nos escapa (como Caden descobriu ao tentar inutilmente dirigir milhares de atores). Ironicamente, é nessa ignorância que reside a nossa liberdade.

Ficha Técnica


  • Título: Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York)
  • Diretor: Charlie Kaufman
  • Roteiro: Charlie Kaufman
  • Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Michelle Williams, Catherine Keener, Tom Noonan, Dianne Wiest
  • Produção: Likely Story, Sidney Kimmel Enternainment
  • Distribuição: Imagem Filmes
  • País: EUA
  • Ano: 2008

sexta-feira, junho 28, 2013

ÁGUIA BICÉFALA E MAÇONARIA – por Martha Follain
A definição mais corrente de Maçonaria, e que pode ser encontrada em vários sites maçônicos, com algumas alterações, é:
“A Maçonaria, Ordem Universal, é constituída por homens de todas as nacionalidades, acolhidos por iniciação e congregados em Lojas, nas quais, auxiliados por símbolos e alegorias, estudam e trabalham para o aperfeiçoamento da sociedade humana. É fundada no amor fraternal  e na esperança de que, com amor a Deus (G.A.D.U.), à pátria, à família, e ao próximo, com tolerância e sabedoria, com a constante e livre investigação da verdade, com a evolução do conhecimento humano pela filosofia, as ciências e as artes, sob a tríade da Liberdade, Igualdade, Fraternidade e dentro dos princípios da moral, da razão e da justiça, o mundo alcance a felicidade geral e a paz universal”.   
Como instituição iniciática, a Maçonaria adota para o ensino e estudo de sua filosofia, a apresentação de símbolos e Rituais. Este método consiste na  interpretação intuitiva dos símbolos, e é eminentemente auto didático.
Os símbolos utilizados nas cerimônias têm como finalidade, agregar as forças arquetípicas para o iniciado. A promoção na hierarquia da Ordem ocorre, quando sua consciência (do maçom) atingiu um grau de desenvolvimento satisfatório.
Como todo processo de metamorfose, não há retrocesso. Uma vez maçom, sempre maçom. Transposto o portal que transmuta o indivíduo, ele jamais será o mesmo. O iniciado morre para uma realidade e renasce para outra dimensão de sabedoria. As consequências  são irreversíveis: o milho que vira pipoca, jamais volta a ser milho. O iniciado fez o voto de caminhar sempre adiante, portanto, não pode mais retroceder.
Os símbolos utilizados pela Maçonaria têm origens diversas. Alguns autores dividem esses símbolos em dois tipos principais: os que tiveram origem na Maçonaria Operativa e os que foram introduzidos a partir de conhecimentos ocultistas, que se integraram à Maçonaria Especulativa (Alquimia, Hermetismo, Astrologia, Numerologia, Cabala).
Mas todos os símbolos devem ser assimilados pelo maçom e interpretados de acordo com sua inteligência, grau de evolução interior, sua maneira de ser e sentir. Os símbolos são oriundos de diversas crenças, filosofias, antigos mistérios, mas isso não implica que os iniciados partilhem dessas crenças. As mensagens contidas nos símbolos serão interpretadas, compreendidas e interiorizadas, e passarão a fazer parte do ser e da experiência de cada maçom.
A Águia é um desses símbolos. Águia é o nome comum dado a algumas aves de rapina (gaviões, falcões, algumas espécies de corujas, abutres e urubus) geralmente de grande porte, carnívoras, de grande acuidade visual. Suas principais presas são: coelhos, esquilos, cobras, marmotas e outros animais, principalmente roedores. Algumas espécies alimentam-se de ovos de outros pássaros e peixes. Costumam fazer seus ninhos em locais altos como, por exemplo, topo de montanhas e árvores de grande porte. Existem diversas espécies de Águias. Possui  peso de até 8 kg, comprimento de até 1 metro com uma envergadura de até 2 metros, põe até 3 ovos a cada vez, o tempo de incubação dura 35 dias e atinge uma velocidade de aproximadamente 100km/h (algumas espécies podem atingir mais de 200km/h). Uma águia vive em média 70 anos. É  tema de uma mensagem na internet, dizendo que aos 40 anos troca o bico, as garras e as penas, mas essa informação não procede.
Em todos os tempos os animais sempre foram usados como símbolos. A Águia é um desses símbolos, utilizado em vários contextos e culturas, por suas características físicas e temperamento.Tem  a capacidade de voar muito alto, e por esse motivo, está associada  à nobreza e à elevação espiritual. É considerada como  mediadora entre os reinos divino e espiritualUm dos símbolos esotéricos mais antigos da humanidade, identifica-se com o poder de divindades. É a ave dos reis e dos líderes. A Águia é considerada como sendo a rainha dos pássaros e tem a ver tanto com o desejo de poder, como com a elevação espiritual, com os altos vôos do pensamento e da imaginação. A rainha das aves é símbolo do sol e do céu, morada dos deuses e seu vôo personifica a alma de xamãs e magos indo em direção ao mundo dos espíritos.
Entre os cristãos, evoca a ascensão de Jesus, e é a mensageira celestial, simbolizando a subida das orações a Deus.
Na Roma antiga a Águia era o símbolo sagrado de suas legiões pois, metaforicamente, trazia consigo o relâmpago e as tempestades.  Além disso,  uma Águia voando, significava a elevação da alma de um soberano romano após a morte do corpo físico.
Entre os antigos gregos, representava a força e a espiritualidade, além de ser o animal favorito de Zeus e estava consagrada ao Sol.
No antigo Egito consagraram-na a Hórus, com o nome de “Ah”.
Entre os coptas era cultuada sob o nome de “Ahom”.
Os druídas consideravam a Águia o símbolo do “Supremo Deus”.
Na Mitologia Germânica é associada a Wotan, o deus maior do Valhalla.
Os persas, romanos,  austríacos e os franceses (especialmente Napoleão), entre outros, adotaram essa ave em suas insígnias militares.
É símbolo no Ocultismo e na Cabala.
A Águia é o animal que representa os EUA.
É um ser que pode olhar para a luz do sol sem queimar os olhos (nota 1).

Na Maçonaria esta ave simboliza a grandeza, a sabedoria, a liberdade, o poder, a força, a superioridade e a inteligência. A Águia é um dos símbolos que representa o Mestre Maçom (MM), pois ele deverá, entre outras qualidades,  “ter o coração do leão, a astúcia da raposa, a inteligência do macaco e a ligeireza da águia”. Verdadeiros maçons são como águias:  necessitam de tempo para amadurecer, pois  Águias podem demorar para voar sozinhas (há um tipo que pode demorar até 1 ano).


Blog MidiaeProfecia: Albert Pike
Albert Pike (1809-1891: advogado, poeta,  escritor, general de brigada no Exército dos Estados Confederados da América e maçom), considerado o pai e revisor  do R.E.A.A. nos EU, com a Águia de Duas Cabeças (colar no pescoço).
A utilização da emblemática Águia Bicéfala é muito antiga. Nos últimos anos do século II a.C., o cônsul romano  “Gaius Marius”  (157 a.C.- 86 a.C.) decretou que as legiões romanas eram um exército profissional, e usava a Águia Bicéfala como insígnia de Roma Imperial. Muitos reinos usaram-na em suas bandeiras, estandartes e escudos, como o Império Russo e o Império Bizantino. Muito usadas em heráldica (nota 2), as 2 cabeças que vigiam o passado e o futuro  significam poder, liberdade, sabedoria.
No Esoterismo a Águia Bicéfala também pode simbolizar a natureza dual do ser humano e a origem do Universo, produto da interação entre forças antagônicas (positivo/ negativo).

A Águia Bicéfala é utilizada como símbolo e é a “jóia”  do “Supremo Conselho” (nota 3) na Maçonaria, pois caracteriza a eterna vigilância, tanto para o futuro quanto para o pretérito. A Águia Bicéfala simboliza também a liberdade e a ousadia que o maçom deve ter para pensar e  realizar seus objetivos. Nos Rituais da Maçonaria a Águia Bicéfala figura como inteligência e força.
A Águia Bicéfala é um distintivo dos graus mais elevados da Maçonaria Filosófica e Administrativa. Figura nos símbolos do Cavaleiro Kadosh, Grau 30; Grande Juiz Comendador, Grau 31; Príncipe do Real Segredo, Grau 32 e Soberano Grande Inspetor Geral, Grau 33, representando o poder e a liberdade, do Rito Escocês Antigo e Aceito (nota 4).
O Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.)  é um dos Ritos mais difundidos na Maçonaria atualmente. É composto por 33 Graus. Ele foi formado ou extraído do Rito de Perfeição ou Rito de Heredon, que contava 25 Graus. A constituição dos Altos Graus é atribuída ao pensador escocês Andrew Michael Ramsay (1686 -1743), sendo a base do Rito Escocês Antigo e Aceito. “Antigo”  porque é  ex operativo. “Aceito”  por serem seus membros aceitos ou iniciados sem serem construtores.
A Águia Bicéfala, que representa o Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.), é o símbolo maçônico mais conhecido depois do Esquadro e Compasso. Acredita-se que a Águia Bicéfala tenha sido introduzida na Maçonaria, possivelmente, em 1758 (ou 1759). No século XVIII a Maçonaria escocesa estava se desenvolvendo fortemente  na França. Então, uma facção maçônica criou o Conselho dos Cavaleiros do Oriente, para organizar os Graus Superiores. Para ofuscá-la, outros maçons criaram o Supremo Conselho de Imperadores do Oriente e Ocidente, e adotaram como emblema a Águia Bicéfala, e acrescentaram uma coroa sobre as cabeças das Águias. Águia com 2 cabeças, cada uma olhando para um lado, que podem ser Oriente e Ocidente e  ela agarra uma fita com os dizeres “Deus Meumque Jus”, “Deus e Meu Direito”. Há ainda o dístico “Ordo Ab Chao”, “Ordem no Caos”. Na Maçonaria a Águia de Duas Cabeças agarrada à Espada, é a representação da força conjugada à sabedoria.
A Águia Bicéfala, que desde 1758 (ou 1759) figura no emblema adotado pelo Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, na França, é patente registrada para os Graus Escoceses, nos Supremos Conselhos de todo o mundo.
A Águia de Duas Cabeças seria a  Águia de Lagash, que tem origem muito antiga. Era já utilizada há cerca de 1000 anos antes do Êxodo dos Judeus do Egito. Alguns autores afirmam que o símbolo existia em 3000 a.C.,  há mais de  2000 anos antes da  construção do  Templo de Salomão (opinião contestada por outros pesquisadores). A Cidade de Lagash situava-se na Suméria, ao sul da Babilônia (capital da Suméria, na antiga Mesopotâmia, onde atualmente é o Iraque), entre os rios Tigre e Eufrates,  perto da atual cidade de Shatra, no Iraque. Foi uma das principais cidades da Suméria. Lagash era famosa por suas fortificações e economia, sendo a comunicação com o Golfo Pérsico. A civilização suméria criou a escrita cuneiforme (o mais antigo idioma humano escrita conhecido), iniciou a construção de cidades estados, foi a precurssora da tábua pitagórica, raízes quadradas e cúbicas, frações com numerador 1, pi com valor de 3, bem como do sistema sexagesimal, que originou conceitos usados até hoje, como a hora de 60 minutos e ângulo de 360 graus, além do calendário de 12 meses que usamos atualmente. Sumérios inventaram a carroça e a cerveja.
A cidade estado de Lagash, na antiga Suméria, foi encontrada no século XIX. Foram achadas 2 placas de argila provavelmente de 4000 anos atrás que foram depositadas no Templo quando do lançamento da pedra fundamental  por Gudea, governador de Lagash. Perto do sítio onde estava o Templo também foi encontrada uma estatueta de Gudea. Uma dessas inscrições em uma das placas incluía um esboço de um “pássaro da tormenta”, uma Águia Com Duas Cabeças.
O símbolo da Águia Bicéfala foi passado dos sumérios aos acadianos, povo que conquistou a Suméria, e desses a outros conquistadores até os hititas. Posteriormente se tornou o emblema de alguns povos da Ásia Menor. Na Idade  Média, foi trazida do Oriente pelos cavaleiros Cruzados e figurou como símbolo para os imperadores do Oriente e do Ocidente, os Habsburgos (nota 5) e os Romanovs (nota 6). A partir daí, aparece em moedas, principalmente na Alemanha.
A Águia Bicéfala pode ter sido usada como símbolo maçônico desde o século XII, mas não há provas documentais. O que se sabe  é que ela foi usada pela Maçonaria em 1758 (ou 1759), após a criação do Conselho de Imperadores do Oriente e do Ocidente em Paris. E, não existe dúvida quanto ao seu uso pelo Supremo Conselho, Grau 33, nos EUA desde 1801.
Os Supremos Conselhos ligados  à Grande Loja da Inglaterra têm em seus selos a Águia com as asas voltadas para cima, enquanto os Supremos Conselhos ligados à Grande Loja da França, têm em seus selos a águia com as asas para baixo.
Uma característica dos ensinamentos da Ordem é o uso de símbolos, e o uso da “Águia Bicéfala” demonstra um caminho exotérico e esotérico. A Maçonaria, além de preservar e ensinar conhecimentos esotéricos de várias civilizações do passado, sempre foi e será uma escola de formação humanística. Ser maçom implica integrar o racional a uma entrega mística. Os Rituais e o estudo da Simbologia permitem que os maçons progridam no entendimento racional e emocional, nos conceitos que a Maçonaria transmite. Com o aprofundamento de seus estudos, o maçom encaminha-se para a verdadeira “espiritualidade” – sem dogmas e livre de crenças religiosas.
- Notas:
1- Membrana Nictante: possibilita às Águias olharem diretamente para o sol.  A membrana nictitante, membrana nictante ou terceira pálpebra, é uma dobra da conjuntiva, encontrada em muitos animais. Localiza-se em regra numa posição medio ventral e, nos mamíferos, assume uma forma em T. A sua função é essencialmente proteger o globo ocular e auxiliar na sua limpeza. Esta é retrátil e pode-se estender no sentido horizontal e cobrir a córnea, não bloqueando inteiramente a visão, uma vez que é translúcida, em alguns animais. Pisca com frequência, daí o seu nome nictitante ou nictante. Ela é encontrada em répteis,anfíbiosavespeixes e em mamíferos. No ser humano, a membrana nictitante é uma protuberância cor de rosa no canto interno medial dos olhos, que já não tem mais as funções originais. Nas aves, a membrana nictitante vira uma terceira pálpebra (são duas, a superior e a inferior). E, ao contrário das demais, abre no sentido horizontal (da parte interna para a externa do olho), em vez de verticalmente. Essa pele é transparente; por isso, não atrapalha a visão.  Protege os olhos do sol e da chuva http://pt.wikipedia.org/wiki/Membrana_nictitante ;
2- Heráldica: “arte de formar e descrever o brasão de armas, que é um conjunto de peças, figuras e ornatos dispostos no campo de um escudo e/ou fora dele, e que representam as armas de uma nação, país, estado, cidade, de um soberano, de uma família, de um indivíduo, de uma corporação ou associação” - http://www.heraldica.genealogias.org/  
3- Supremo Conselho: “O termo “Supremo Conselho” usado pelas duas instituições faz confundir suas funções.
O Supremo Conselho para o Grau 33 é responsável pela distribuição do Grau 33 apenas. Sua função se restringe somente a esse grau;
O Supremo Conselho do Rito é o responsável por todos os Graus Filosóficos anteriores ao 33 e pelas revisões dos Rituais dos Graus Simbólicos deste Rito.
Nenhum dos dois Supremos Conselhos está vinculado as Potências Simbólicas.
Assim, os Rituais do Simbolismo e dos Graus Filosóficos são os mesmos para as Três Potências Regulares, emitidos pelo Supremo Conselho do Rito, e os maçons das três potências recebem o Grau 33 do Supremo Conselho para o Grau 33” - 
 http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20130327155650AAERDe1
4- A origem do Rito Escocês Antigo e Aceito é razão de muitas controvérsias. Ao contrário do que se acredita, o Rito Escocês nada tem a ver com a Escócia, pois na época do aparecimento deste Rito, as Lojas da Escócia trabalhavam no Rito “Emulation Rite”. O Rito de York é praticado nos EUA. O “Emulation Rite” é praticado na Inglaterra e na Comunidade Britânica, como em toda a Grã Bretanha. O Rito Escocês surgiu na França, depois de lá ter sido introduzida a Maçonaria Inglesa, do Rito de “Emulation Rite”.
No final do século XVII, vários maçons escoceses fugiram para a França, em virtude de acontecimentos e convulsões sociais, que aconteceram nas Ilhas Britânicas. O tipo de cerimonial que praticavam ficou marcado como Ritual dos Escoceses ou Rito Escocês. Foi a partir de 1732 que a primeira Loja desses maçons escoceses “Scottish Chalé” passou a funcionar em Bordeaux, um dos centros maçônicos mais antigos e influentes na França.
Os 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito:
1º, 2º, e 3º - Graus concedidos pelas Lojas Simbólicas;
Do 4º ao 14º - Graus concedidos pelas Lojas de Perfeição;
Do 15º ao 18º - Graus Capitulares concedidos pelos Capítulos Rosa Cruz;
Do 19º ao 30º - Graus Filosóficos concedidos por um Conselho Kadosh;
31º e 32º - Graus Administrativos concedidos pelo Consistório;
33º - Último Grau Administrativo concedido pelo Supremo Conselho;
5- Habsburgos: “Casa de Habsburgo também conhecida por Casa da Áustria, é uma família nobre européia que foi uma das mais importantes e influentes da história da Europado século XIII ao século XX. Foi a dinastia soberana de vários Estados e territórios. Entre os seus principais domínios estavam o Sacro Império Romano Germânico (962-1806), onde imperou de 1273 até seu desmembramento em 1806, como consequência dasGuerras Napoleônicas (1799-1815); e o Império Austro Húngaro, que governou desde a sua fundação em 1867 até sua dissolução em 1918, pelo Tratado de Saint Germain en Laye, como consequência da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_de_Habsburgo
6- Romanovs: “a Casa Romanov é uma família nobre russa, tendo sido a segunda e últimadinastia imperial e portanto, a Família Imperial, que governou a Moscóvia e o Império Russo por 8 gerações entre 1613 e 1762. Entre 1762 e 1917, a Rússia foi governada por uma ramificação da Casa de Oldenburgo, que manteve o sobrenome Romanov, hoje ainda utilizado por seus descendentes. O primeiro czar Romanov que a Rússia teve foi Mikhail I. O último foi Nicolau II, assassinado junto com sua esposa e filhos no porão da casa Ipatievna cidade de Ecaterimburgo, em julho de 1918, após a revolução de 1917, liderada pelos bolcheviques”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinastia_Romanov
- Bibliografia:
- Beck, Ralph T. - “A Maçonaria” – São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2005;
- Castellani, José - “O Rito Escocês Antigo e Aceito - História, Doutrina e Prática” - São Paulo, Editora A Trolha, 1995;
- Debortoli, Irene R. - “Mistérios da Fauna À Luz da Maçonaria” - Minas Gerais, 2000;
- Follain, Martha – “Maçonaria e Programação Neurolinguística” – São Paulo, 2006 ;
- Mackey, Albert G. - “O Simbolismo da Maçonaria - Volume 1” - São Paulo, Editora Universo dos Livros, 2008;
- Mackey, Albert G. - “O Simbolismo da Maçonaria - Volume 2” – São Paulo, Editora Universo dos Livros, 2008;
- Pike, Albert – “Moral e Dogma do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria Graus Simbólicos” – São Paulo, Editora Livraria Maçônica Paulo Fuchs – e-book;
- Internet.

TEXTO REGISTRADO NA BIBLIOTECA NACIONAL – DIREITOS AUTORAIS – Reprodução permitida, desde que, com todos os créditos da autora e de seu trabalho.

quarta-feira, junho 26, 2013

                                                

É comum ouvirmos designar as três formas geométricas que decoram o corrente avental de Mestre Instalado por "Taus". Tau é a décima nona letra do alfabeto grego, graficamente muito semelhante ao latino "T". É claro que já tinha notado que as ditas formas geométricas no avental de Mestre Instalado estavam invertidas em relação à forma gráfica do Tau, apresentando o elemento vertical sobre o elemento horizontal, enquanto que na dita letra do alfabeto grego o elemento horizontal está sobre o elemento vertical. Mas confesso que não dei grande importância  ao assunto e não procurei aprofundar a razão da notada discrepância. Até que recentemente li um excelente texto de um não menos excelente e conhecedor maçom brasileiro, Kennio Ismail, publicado, já desde outubro de 2011, no seu muito elucidativo blogue No Esquadro, com o título Desvendando o "Triplo Tau".

A tese exposta nesse texto pelo Irmão Kennio Ismail é que, afinal, as ditas formas geométricas não são Taus, não têm nada que ver com essa letra do alfabeto grego, antes reproduzem algo que tem diretamente muito mais que ver com a Maçonaria, uma ferramenta utilizada pelos maçons operativos, especificamente o Esquadro T (em inglês: T-square), também designado por Régua T, ferramenta que, além de se utilizar para desenhar ângulos retos, é útil para desenhar retas paralelas.

Como se vê pela imagem de duas réguas T, também há diferença em relação à representação no avental de Mestre Instalado, não em relação à disposição dos elementos horizontal e vertical (já que, a régua T pode ser posicionada em qualquer sentido), mas em relação à dimensão e proporção do elemento vertical, sensivelmente maior na régua T que na representação no avental. 

Mas o raciocínio exposto pelo Irmão Kennio Ismail parece-me lógico: uma vez que a simbologia maçónica é inspirada na Maçonaria Operativa e nas suas ferramentas, tem mais cabimento que se considere que no avental está triplamente representada uma ferramenta do que uma letra grega...

Pontua seguidamente o referido Irmão que também o vulgarmente designado Triplo Tau do Arco Real 


não é afinal um Triplo Tau, mas sim um "T" sobre um "H", sigla de "Templum Hierosolymae", que em latim significa "Templo de Jerusalém", ou seja, o Templo de Salomão.

Esta hipótese parece-me um pouco mais rebuscada. Ou seja, considero-a possível, mas não beneficiando da simplicidade da referência direta a uma ferramenta operativa que, e a meu ver com muito peso, suporta o argumento anterior. Com efeito, entre várias explicações possíveis, a experiência mostra-nos que, na maior parte das vezes, a mais simples é a correta. É isso que me faz propender para a aceitação da tese de que as formas geométricas no avental de Mestre Instalado possivelmente representam réguas T e não Taus. Já no caso do Arco Real, a hipótese alternativa não só não tem a vantagem da simplicidade como apresenta a dificuldade de o pretenso "H" estar muito deformado, demasiado largo...

Não sou particularmente versado no Arco Real (a minha praia é o Rito Escocês Antigo e Aceite...) e assim abstenho-me de dar opinião definitiva sobre esta segunda situação. A meu ver, a melhor explanação sobre o assunto (ainda assim não conclusiva) é a que se encontra no artigo "1868 Sterling Silver Mark Master Keystone", que encontrei no também muito interessante sítio http://www.phoenixmasonry.org/, (administrado pelo ilustríssimo maçom Frederic L. Milliken) e de que traduzo a passagem mais relevante, no meu entendimento:

A Cruz de Taus, ou Cruz de Santo António, é uma cruz na forma de um Tau grego. O Triplo Tau é uma figura formada por três destas cruzes unidas pelas bases, assim se assemelhando à letra "T" sobreposta na barra transversal de um "H". Este símbolo, colocado no centro de um triângulo inscrito num círculo - ambos símbolos da Divindade - constitui a joia do Arco Real, tal como praticado em Inglaterra, onde é tão estimado que é considerado o "símbolo de todos os símbolos" e "o grande símbolo da maçonaria do Arco Real". Foi adotado nessa forma como emblema do Arco Real pelo Grande Capítulo Geral dos Estados Unidos em 1859. O significado original deste símbolo tem tido variadas explicações. Alguns supõem que ele inclui as iniciais do Templo de Jerusalém, "T" e "H", Templum Hierosolymae; outros que é um símbolo da união mística do Pai e do Filho, "H" significando Jehovah e "T", ou a Cruz, o Filho. Um autor no Moore's Magazine engenhosamente considera-o ser uma representação de 3 Réguas T, aludindo às três joias dos três Grão-Mestres (da Lenda da construção do Templo de Salomão: Salomão, Hiram, rei de Tiro, e Hiram Abif). Também tem sido dito ser o monograma de Hiram de Tiro; e outros sustentam que é apenas a modificação da letra hebraica shin, que é uma das abreviaturas judaicas do Nome Sagrado.  

Como se vê, interpretações há muitas... Quais são, nas duas situações, os significados corretos? No meu entendimento, também aqui se aplica o que eu considero dever ser a regra básica da interpretação simbólica em Maçonaria: não há significados obrigatoriamente corretos. Cada um analisará, tirará as suas conclusões, atribuirá a cada símbolo o significado que entender mais adequado. O significado correto para si é esse. O que não impede que o significado correto para outro Irmão seja outro, total ou parcialmente diferente. Nos casos referenciados neste texto, para o Irmão Kennio Ismail, os significados corretos são os que ele indica, a régua T no avental e "T" sobre "H" no símbolo do Arco Real. Quanto a mim, e no meu atual entendimento (em matéria de interpretação simbólica considero estar permanentemente em work in progress), no avental concordo estar representada triplamente a régua T, mas, quanto ao símbolo do Arco Real, ainda me mantenho ao lado da interpretação mais difundida, do triplo Tau. E daí não vem qualquer mal ao Mundo: a interpretação do Irmão Kennio Ismail é a correta para ele, a minha é a que eu acho correta para mim. E ambos, ora aqui concordando, ali debatendo, vamos percorrendo os nossos caminhos que, sendo diferentes, vão na mesma direção e têm muitos trechos comuns. 

Rui Bandeira

quinta-feira, junho 20, 2013


Por vezes, a mesma situação ou ação é designada, entre os maçons, por termos diferentes, sem que muitos deles se apercebam da origem ou da razão de ser das diferentes designações.

Por exemplo, alguns maçons costumam designar o acesso ao grau de Companheiro e a respetiva cerimónia como a Passagem a Companheiro; outros designam essa mesma ocorrência de Elevação a Companheiro, outros referem tratar-se de uma Receção e outros ainda falam de uma Colação. Mas também é comum haver quem utilize a expressão Elevação para referir o acesso ao grau de Mestre Maçom e respetiva cerimónia. Mas, neste caso, também há quem utiliza e expressão Exaltação, quem use a palavra Receção e quem se sirva do termo Colação. Não é incomum, numa conversa entre maçons, por vezes até da mesma Loja, verificarmos a utilização em simultâneo de todas estas palavras, para referir estas duas ocorrências.

Mas, se passarmos da referência coloquial a uma análise mais aprofundada e perguntarmos a quem intervém na conversa qual o termo correto a utilizar, verificamos facilmente que as opiniões se dividem e não raro se estabelecem debates sobre a qual delas dar primazia. Se procurarmos aprofundar mais e perguntarmos a razão da existência dessas diversas denominações, raramente obteremos uma resposta satisfatória.

Pois bem, a resposta para esta diversidade de denominações dos mesmos atos é muito simples, tão simples que alguns, obcecados pela busca em lugares longínquos, documentos antigos ou razões esotéricas, se esquecem de olhar à sua volta: essa diversidade resulta apenas do facto de existirem diversos Ritos e diferentes rituais na Maçonaria e ainda de cada Obediência elaborar soberanamente os seus rituais, daí decorrendo, com alguma frequência, pequenas divergências - que, por vezes, decorrem de simples diferenças de tradução, outras de fixações de práticas em uso na respetiva Obediência, que constituem evoluções ou corruptelas de práticas mais antigas ou recolhidas em outros lugares, etc..

Se consultarmos os rituais do Rito Escocês Antigo e Aceite em uso na GLLP/GLRP, verificamos que o termo de Elevação é utilizado, quer para exprimir o acesso ao grau de Companheiro, quer ao grau de Mestre. Já os rituais do Rito Escocês Antigo e Aceito (note-se a diferença na última palavra...) em uso no Grande Oriente do Brasil usam o termo Elevação para o acesso ao grau de Companheiro, reservando para o acesso ao grau de Mestre o termo Exaltação. Mas se consultarmos os rituais do Rito Brasileiro em uso no Grande Oriente do Brasil, verificamos que aí se reserva o termo Passagem para a transferência dos trabalhos do grau de Aprendiz para o grau de Companheiro e deste grau para o grau de Mestre e se utiliza o termo Colação para o acesso do obreiro Aprendiz ao grau de Companheiro e do obreiro deste grau ao grau de Mestre. Consultando os rituais do Rito de York em uso na GLLP/GLRP, verifica-se que o acesso do Aprendiz ao grau de Companheiro é designado pelo termo Passagem (em consonância com o original Rito Azul anglo-saxónico) enquanto que o acesso do Companheiro ao grau de Mestre é designado por Elevação. Finalmente - em relação aos rituais que possuo em meu poder e que pude, assim, consultar -, nos rituais do Rito Escocês Retificado em uso na GLLP/GLRP, o Aprendiz que está em condições de progredir é Recebido Companheiro e o Companheiro pronto para avançar para o grau seguinte é Recebido Mestre e, consequentemente, as respetivas cerimónias são designadas de Receção.

Por esta breve excursão por vários rituais, verificamos não haver, em bom rigor, que dar primazia a um termo sobre outros. Cada rito utiliza os seus termos, podendo haver variantes, mesmo dentro do mesmo rito, entre Obediências. Não há, assim, um termo "certo" para designar qualquer das duas ocorrências que aqui refiro. Obviamente que, dentro da mesma Loja, não faz muito sentido que se usem termos diferentes para designar a mesma realidade, devendo todos os obreiros dessa Loja ter em atenção que devem utilizar o termo em uso no respetivo ritual do seu Rito, por evidente questão de rigor. Em termos mais abrangentes, o que convém é que todos os maçons - pois convivem entre si maçons de todos os ritos e de todas as Obediências - conheçam as várias variantes existentes, para que saibam do que estão a ouvir falar, quando um destes termos vier à baila na conversa. E, quando porventura alguém não esteja familiarizado com algum termo, não hesite em perguntar... Entre Irmãos, perguntar algo não é nunca sinal de fraqueza ou menor capacidade. É para isso e por isso que todos os maçons se consideram mutuamente como Irmãos: para e por se auxiliarem mutuamente a suprir os desconhecimentos ou asperezas de cada um, assim ajudando a que todas as brutas pedras progressivamente ganhem forma e polimento... 

Rui Bandeira

sexta-feira, junho 14, 2013

Símbolos e Rituais Maçônicos – por Martha Follain

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Como instituição iniciática, a Maçonaria adota para o ensino e estudo de sua filosofia, a apresentação de símbolos e Rituais. Este método consiste na interpretação intuitiva dos símbolos e Rituais, e é eminentemente auto didático.
Ritual Maçônico é uma representação, uma demonstração alegórica, um teatro ritualístico. Rituais (ou cerimônias) são fundamentais para o maçom.  Dentre eles, destacam-se: o Ritual de Iniciação: de profano a Aprendiz; Ritual de Elevação: de Aprendiz a Companheiro; e o Ritual de Exaltação (Rito Escocês Antigo e Aceito) de Companheiro a Mestre, que é a encenação da morte de Hiram Abiff. Os Rituais são cerimônias de transformação interior - há uma interconexão entre o consciente e o inconsciente.
“Iniciação” é uma palavra oriunda do latim “initiare”, “início ou começo em”. O termo “iniciação” tem um sentido designado pelo uso comum da palavra: é o “início” de alguma coisa. Mas a expressão “Ritual Iniciático” é usada em dois contextos diferentes: em primeiro lugar, um Ritual Iniciático é a cerimônia de aceitação de um indivíduo por determinado grupo. Nessa primeira acepção, o Ritual Iniciático tem um caráter social, que demarca a relação da pessoa com a coletividade ou com algum segmento da sociedade. Portanto, quando o indivíduo entra para um determinado grupo, esse ingresso é comemorado com um Ritual de Iniciação.
Em segundo lugar, a expressão “Ritual Iniciático”, indica não uma mudança de condição social, mas uma transformação interna: o que se modifica é o próprio ser do iniciado e, consequentemente, sua consciência e percepção. Trata-se de uma verdadeira transmutação, no sentido alquímico do termo. E, ao contrário do primeiro tipo, não envolve uma cerimônia pública. É um reconhecimento externo de uma mudança interior, que já se processou. Neste segundo sentido, a Iniciação ocorre quando o neófito estabelece contato com as forças arquetípicas e deixa seu campo de consciência ser transformado pela exposição a essas forças, que se expressam por meio de manifestações simbólicas, que cabem a ele decifrar. O cérebro, durante práticas de Rituais (ou de meditação), passa a operar em ondas mais lentas. Durante o Ritual, o indivíduo entra num estado alterado de consciência, com ondas cerebrais alfa e teta, que lhe permitem acessar o inconsciente. Esse estado alterado de consciência é alcançado pelo pensamento e a emoção, colocados na dramatização. Quando acontece a emoção (intensidade e perfeição na atuação de cada maçom), o cérebro não consegue perceber o que é “realidade” e o que é “teatro”, entendendo o Ritual como realidade no presente. E, cada maçom, acessando seu inconsciente individual, estará conectado com o inconsciente coletivo.
No Ritual de Iniciação, há uma transmutação, um renascimento interior, proporcionando uma nova percepção de si mesmo e do mundo. O iniciado passa por “provas”, como acontece com cada indivíduo durante sua vida.
Por esse motivo, o símbolo maçônico da Iniciação é a morte – morrer para a vida profana e renascer para a Vida Maçônica. Morte e nascimento são dois aspectos entrelaçados e inseparáveis de toda mudança.

Os Rituais de Iniciação na Maçonaria englobam esses dois sentidos. O Ritual se destina a legitimar o ingresso do indivíduo na Ordem, e concomitantemente, seu interior está se desenvolvendo por meio de uma série de evoluções graduais que vão ampliando seu consciente e inconsciente. A Iniciação tem como especial e fundamental objetivo, dissolver e eliminar aspectos negativos, que possam estar impedindo o crescimento pessoal: medos, egoísmo, etc. O ato da Iniciação não pretende extirpar definitivamente do homem seu ser profano e o mundo. A finalidade é fazê-lo conviver com o profano e o conhecimento sagrado.
Os símbolos utilizados na cerimônia têm como finalidade, agregar as forças arquetípicas para o iniciado. A promoção na hierarquia da Ordem ocorre, quando sua consciência (do iniciado) atingiu um grau de desenvolvimento satisfatório. Os Graus maçônicos são os degraus do conhecimento a serem alcançado pelo iniciado.
Como todo processo de metamorfose, não há retrocesso para o iniciado. Uma vez maçom, sempre maçom.  Transposto o portal que transmuta o indivíduo, ele jamais será o mesmo. O iniciado morre para uma realidade e renasce para outra dimensão de sabedoria. As consequências do Ritual são irreversíveis: o milho que vira pipoca, jamais volta a ser milho. O iniciado fez o voto de caminhar sempre adiante, portanto, não pode mais retroceder.
Nos Rituais, são interpretadas, dramatizadas e vivenciadas várias situações arquetípicas - arquétipos primordiais, muito mais antigos que a própria linguagem. Os Rituais, praticados em segredo são a imagem de processos interiores, permitindo a elevação para o conhecimento, a sabedoria, de maneira progressiva. Os ensinamentos da Ordem dão-se, preferencialmente, através de três caminhos: Rituais, Devocionais e Contemplativos. Os Rituais são o caminho da ação e são o principal método de ensinamento da Ordem. No caminho da devoção, há o uso da meditação, obediência e amor fraterno – os aspectos devocionais acontecem por meio dos trabalhos filantrópicos. O caminho contemplativo acontece com o estudo de símbolos e os valores que esses símbolos representam.
Os Rituais estão carregados de alegorias e simbolismos que se impõem desvendar e assimilar. Os símbolos utilizados pela Maçonaria têm origens diversas. Alguns autores dividem esses símbolos em dois tipos principais: os que tiveram origem na Maçonaria Operativa e os que foram introduzidos a partir de conhecimentos ocultistas, que se integraram à Maçonaria Especulativa (Alquimia, Hermetismo, Astrologia, Numerologia, Cabala). Mas todos os símbolos devem ser assimilados pelo maçom e interpretados de acordo com sua inteligência, grau de evolução interior, sua maneira de ser e sentir. Os símbolos são oriundos de diversas crenças, filosofias, antigos mistérios, mas isso não implica que os maçons partilhem dessas crenças. As mensagens contidas nos símbolos serão interpretadas, compreendidas e interiorizadas, e passarão a fazer parte do ser e da experiência de cada maçom. Ser maçom implica integrar o racional a uma entrega mística. Os Rituais e o estudo da simbologia permitem que os maçons progridam no entendimento racional e emocional, nos conceitos que a Maçonaria transmite. Com o aprofundamento de seus estudos, o maçom encaminha-se para a verdadeira “espiritualidade” – sem dogmas, livre de crenças religiosas. Na realidade, é mais um princípio filosófico “espiritualista”: considerar que no homem e no Universo há “algo mais”, seja do ponto de vista “imanente” ou “transcendente”. Essa espiritualidade é um aspecto indissociável da condição humana, e está muito mais além do que qualquer religião: espiritualidade é o que coloca cada ser diante do absoluto, do infinito, do todo, da eternidade, de seu “Deus”, de si próprio.  A espiritualidade maçônica é uma espiritualidade livre, pois sugere um caminho individual para a relação com a Divindade, com o Divino. A Ordem, respeitando as diferentes opções religiosas, não despoja o indivíduo de seu entendimento espiritual. E, esse respeito é a base da harmonia e da tolerância maçônica.
Como ensina Carl Sagan (maçom): “
é essa espiritualidade que nos permite sentir de uma forma mais intensa e profunda a beleza de uma trilogia muito famosa e que define bem os grandes valores da humanidade:LiberdadeIgualdade Fraternidade. E quando chegamos a esta fase em que, enquanto vamos construindo o nosso templo interior, e vamos estabelecendo fortes laços de união com os nossos Irmãos, é que estaremos realmente aptos a influenciar, positivamente, a evolução da humanidade e a defender todos os seus grandes valores”.

TEXTO REGISTRADO NA BIBLIOTECA NACIONAL – DIREITOS AUTORAIS –
Obra registrada na Biblioteca Nacional – Direitos Autorais:
Nº do registro: 444.566
Livro: 834
Folha: 226

quarta-feira, junho 12, 2013


CORDA DE 81 NÓS
Por Martha Follain
“Maçonaria é uma ciência, uma filosofia, um sistema de doutrinas que é ensinado de maneira bastante peculiar e própria por suas alegorias e símbolos”. Albert G. Mackey (1807-1881– autor maçom)

A Maçonaria é uma organização mundial de homens que, utilizando-se de formas simbólicas dos antigos construtores de templos, uniram-se para o propósito comum de se aperfeiçoarem na sociedade. Maçons partem da premissa que a Luz Oculta existe em todos os homens - é preciso despertá-la por esforço próprio. Os conceitos fundamentais de antigos ensinamentos como Alquimia, Hermetismo, coincidem com a Doutrina Aristotélica de que todas as coisas tendem a alcançar à perfeição. E, a perfeição do interior, da própria alma, é o que almejam os obreiros maçons.
A Maçonaria utiliza-se da Simbologia, em seus ensinamentos e a Simbologia é a ciência mais antiga do mundo. Através dos símbolos, os povos primitivos se expressavam e comunicavam suas tradições. O primeiro aprendizado foi constituído por símbolos - em um tempo onde a linguagem oral era ainda incipiente, os símbolos foram o meio de comunicação. A palavra símbolo deriva da palavra grega “symbolom”, que significa juntar, reunir. Os símbolos são uma representação de objetos, ideias ou ações e são uma linguagem especial, compreensível pelo hemisfério direito do cérebro, isto é, a imaginação. Eles têm um efeito muito poderoso na mente humana, sendo mais eficientes do que palavras. Isso porque o significado contido em um termo muitas vezes, não traduz de fato, a essência do que busca comunicar. Remontam às origens da humanidade sendo, fundamentalmente, esotéricos – revelam de forma velada a sabedoria cósmica que orienta cada indivíduo nos passos da iniciação interna. Os símbolos, segundo Carl Gustav Jung, (1875-1961: psiquiatra suíço, discípulo de Freud - maçom) não são apenas alegorias, porém, imagens com conteúdos que podem transcender a consciência (são arquétipos). Jung postulou: “O homem necessita de uma vida simbólica”. Como não existe nenhuma cultura antiga (e mesmo moderna) sem símbolos, pode-se inferir que, eles façam parte, necessariamente, da trajetória humana.
A observação de símbolos no interior de uma Loja Maçônica provoca estímulos no cérebro, que são processados e compreendidos pelo inconsciente, através da memória genética e do inconsciente coletivo: religiões milenares, seitas pagãs, oráculos (tarô, runas, numerologia, etc.), mitologias. Os símbolos inspiram e ensinam, e são a matéria prima de uma linguagem atemporal. Portanto, a Maçonaria não pode ser compreendida, somente intelectualmente. “O que interessa à filosofia maçônica não é apenas o homem em si, mas o homem símbolo”. – Rizzardo da Camino (1918-2008: escritor maçônico). Fundamentado na Simbologia, o ensinamento maçônico é pessoal e autodidático - para cada maçom, será o resultado de seus estudos.
São vários os símbolos maçônicos e a “Corda de 81 Nós” é um deles. Símbolo eivado de outros símbolos: corda, nó de Hércules ou laço, símbolo matemático do infinito, número 1, número 8, número 9 (8+1), número 3 número 40 (40 + 40).
Segundo João de Jesus Paes Loureiro (1939-: escritor, poeta e professor), “a corda é um signo universal que se estende transversalmente por várias culturas e em diferentes épocas. É um símbolo de ascensão. Desejo e meio concreto de subir. Na tradição védica ela é a força do arco. Assim aparece no Rig Veda, a grande epopeia dos Vedas”:
“Ei-la que se aproxima da orelha
como se fosse falar, beijando
seu querido amante,
é a corda: esticada no arco, ela vibra
como uma donzela salvadora na batalha”
Varuna, divindade indiana, tem nas mãos uma corda com a qual estabelece ligação com a humanidade. Entre os antigos egípcios, em seus hieróglifos, a corda é uma representação, e pode designar a vida ou o nome de um homem. Na Grécia antiga a corda está nas mãos da deusa da Fortuna, que pode acabar com a vida dos humanos  segundo seus caprichos. Há também lendas gregas que falam em um cordoeiro, “Ocno”, que trançava uma corda que era logo comida por um burro, simbolizando o trabalho constante. As antigas lendas nórdicas contam que os feiticeiros atavam os ventos com cordas de 3 nós. Na África a corda faz parte dos rituais de magia. Na cultura maia as cordas simbolizavam o sêmen dos deuses, que caíam como chuva para fertilizar a terra. No Japão, para os xintoístas, a corda protege contra os maus espíritos. No Islamismo a corda serve para ascender aos céus, etc.. O simbolismo da corda remete ao vínculo e à solidariedade, sendo a união entre 2 pontos. Cordas com nós têm sido utilizadas para fins mágicos desde a antiguidade. Os nós teriam o poder de armazenar encantamentos, liberando-os, lançando-os quando fossem desatados.
Na Maçonaria há a Corda de 81 Nós. Sua origem pode estar na Maçonaria Operativa, século XIII (e termina com a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717), onde os construtores se utilizavam de cordas com nós para efetuarem marcações e amarrações (muito importantes, mormente quando se tratava da construção de um Templo). Na fase Especulativa da Maçonaria, (século XVIII em diante), adquiriu um significado mais simbólico. Inicialmente na Europa (e até hoje), a Corda possuía 12 Nós e representava a Cadeia de União. No Brasil, a Corda passou a ter 81 Nós, e as teorias para isso são as mais diversas.
A Corda de 81 Nós  tem relação com outros símbolos maçônicos: o Pavimento Mosaico , a Cadeia de União, a Orla ou Borda Dentada e as Romãs, símbolos estes que conduzem os maçons à sua união e ao fato que formam uma família - segundo a citação maçônica: “Se perguntarem a um maçom: Quantos sois vós? Respondereis: SOMOS UM SÓ”.
Para os maçons, uma Corda com Nós é o símbolo de sua comunidade.  O Nó simboliza o enlace e a união. A Corda circunda a Loja,  com Nós equidistantes, e é  colocada no alto das paredes e acima das colunas zodiacais ( R.E.A.A.). O Nó central deve ficar por cima do Delta Luminoso,  no centro da parede do Oriente, acima do Trono (cadeira do Venerável Mestre) e acima do Dossel, se ele for baixo, ou abaixo dele e acima do Delta, se o Dossel for alto. 40 Nós são distribuídos em igual distância na parede do Sul e 40 outros na parede do Norte. É permitido que a Corda de 81 Nós  seja esculpida na parede, mas preferencialmente,  deve ser feita com material natural podendo ser  de sisal, cânhamo,  juta, linho, etc. O Nó simboliza o enlace e a união. Os Nós isolados são frágeis, mas unidos, tornam-se extremamente resistentes. Os Nós representam os maçons, que se unem sem se fundir, sem perderem a sua individualidade.
Cada um dos Nós é chamado de “Laço de Amor” (ou Nó em Oito ou Nó Quadrado ou Nó Direito) que lembra o amor que deve existir entre os membros da Loja e entre maçons, de uma forma geral. Era conhecido pelos antigos gregos como Nó de Hércules. Este Nó é muito utilizado por ser fácil de fazer e por sua simetria, mas se for submetido a tensão em apenas uma de suas pontas pode se desfazer. Além disso,  une 2 cabos de diâmetros iguais – em cabos de diâmetros diferentes ele também se desmancha. E esses, são  alertas simbólicos para o maçom. A forma de cada Nó lembra o ato de perpetuação da espécie, já que consiste em um laço, o  feminino, que é penetrado pela corda, masculino, representando a continuidade da vida e tem o desenho do símbolo matemático “infinito” ∞. Essa imagem é conhecida desde a antiguidade, e tem o nome de “lemniscata” -  é o 8 deitado, símbolo matemático, um traço contínuo sem começo nem fim. A lemniscata é uma figura geométrica e aparece em antigos desenhos celtas e no caduceu do deus Hermes, o deus grego que levava as mensagens dos mortais para os deuses. No tarô, a lemniscata aparece em duas lâminas: acima da cabeça do Mago na lâmina 1 e na lâmina 11, a Força.. O simbolo do infiníto, ∞, representa algo realmente grande em número, incontável, e o inglês John Wallis (1616-1703: matemático) foi o primeiro a utilizá-lo. Esses Nós entrelaçados (que não se interrompem) são a imagem da união que liga, por uma cadeia indissolúvel, os maçons. São 81 “Laços do Amor Fraterno” existentes entre todos os membros da Loja, sendo que o 81 pode representar, simbolicamente, um número infinito.
Alguns autores maçônicos indicam mais uma interpretação para o uso do “Laço do Amor”:  maçons são conhecidos como “Filhos da Viúva” (Hiram Abiff, possível fundador da Maçonaria, seria filho de um tírio, obreiro do bronze, e de uma viúva da tribo de Neftali - depois da  morte de Hiram Abiff, os maçons teriam se tornado filhos da viúva; ouViúva, é a própria Maçonaria, como instituição, já que Hiram Abiff foi assassinado - assim seus filhos, maçons, seriam órfãos de pai).   “e coincidência ou não, tempos atrás, os cordões de seda com que as viúvas cercavam seus rostos eram feitos de “Laços de Amor” que terminavam em borlas”.

A Maçonaria, em seu conteúdo esotérico, preocupa-se também com os números e seu estudo, que é a Numerologia. A Numerologia interpreta os significados ocultos dos algarismos e é  uma ciência tão antiga quanto a formação do universo. Era ensinada e praticada  desde os mais remotos tempos e utilizada pelos fenícios, babilônios, egípcios, gregos, romanos, chineses, árabes e caldeus. Os números são considerados como símbolos muito significativos por quase todas as civilizações ainda hoje. Para essa ciência os números possuem um valor metafísico e representam a ordem e a harmonia cósmica. Tudo o que existe emite uma vibração que está associada a números.
Pitágoras (580 a.C.- 497 a.C.: filósofo e matemático grego) deu uma contribuição muito importante para o desenvolvimento da Numerologia,  e sua obra é a base da Numerologia moderna. Ele dizia que tudo se reduz a números, os quais determinam a harmonia da música, da arquitetura e até dos movimentos dos astros.

Claro está que, as interpretações a seguir  não satisfarão todos os exegetas.
O número de Nós da Corda, 81, leva a desdobramentos: número 1,  número 8, número 9 (8+1), número 3 e  número 40 (40 + 40).

O número 1, contém em potência, todos os demais números. Todo número está constituído pelo anterior mais 1. O número 1 materializado no Nó central acima do Trono do Venerável Mestre, representa a Unidade Indivisível, o símbolo do Criador, Deus (G.A.D.U.), o princípio e fundamento do Universo e é considerado um número sagrado. Esse Nó traduz que a Maçonaria é conduzida pelo G.A.D.U..
O número 8 simboliza a Justiça e, na Mitologia Egípcia, é representado pelo deus Anúbis. Anúbis, o deus com cabeça de chacal, julga os mortos com uma balança, onde em um dos pratos  é colocada uma pena e no outro o coração do iniciado. O 8 representa a dicotomia  emoção/mente e é representado por 2 círculos, um em cima do outro. Por sua vez, o círculo é  representado pelo  “Ouroborus”, que é um símbolo muito antigo resgatado pela tradição alquímica, onde se vê uma serpente que morde a própria cauda e devora a si mesma. Foi largamente usado nos desenhos celtas. Representa o equilíbrio entre o masculino e o feminino universais. É também a representação  do infinito e do equilíbrio dinâmico universal. O “Ouroboros” é o símbolo da meta a ser alcançada, a união dos opostos. Sem início nem fim, o círculo traduz a eternidade, a imortalidade, a perfeição, posto que é alfa e ômega. O início e o fim da vida humana. O 8, sendo símbolo da morte iniciática e da passagem de um mundo a outro, significa a morte do iniciado para o mundo profano e o ingresso em um novo caminho – o maçônico.
O número de Nós da Corda, 81, é um número sagrado, que na tradição cabalística é representado pelos 72 anjos que servem diante do trono de Deus mais os 9 Elohin, Mestres Construtores do Universo. E 81 anos era a idade de Hiram Abiff quando foi assassinado. Nos Templos maçônicos, o número 81 simboliza também os princípios místicos de todas as tradições esotéricas, por conduzir  ao número 9: 8+1= 9, que é o símbolo da imortalidade, da regeneração e da vida eterna. É o número dos iniciados e dos profetas. É o princípio da Luz Divina, Criadora. O número 9  no simbolismo maçônico desempenha um papel variado e importante. É a humanidade. O número raiz do presente estado de evolução humana. O número de Adão. O número da iniciação: assinala o fim de uma fase de desenvolvimento espiritual e o início de outra fase superior. As 9 esferas celestes e os 9 espíritos elevados que as governam. O ilimitado. Os 9 orifícios do corpo humano. Os 9 meses da gravidez humana. O número dos ciclos humanos temporais na Terra. O número 9 representa as hierarquias angelicais: serafins, querubins, tronos, dominações, potestades, virtudes, principados, arcanjos e anjos. O número 9 também tem relação com o Zoroastrismo, criado por  Siptman Zoroastro (6400 a.C.) na Pérsia. Essa doutrina  estava firmada sobre 3 pilares: bons pensamentos, boas palavras e boas ações. Zoroastro caminhava sempre com o seu cajado de 9 nós, que representavam: um só Deus; destruição das imagens; autodisciplina; igualdade das castas; militância; organização; simplicidade; democracia e fraternidade universal. Além disso, 81 é o quadrado de 9, que por sua vez é o quadrado de 3, número perfeito e símbolo da Divindade.

O número 3 era considerado místico por quase todas as antigas culturas. Na Bíblia 3 eram os filhos de Noé: Sem, Cam e Jafé. Eram 3 os varões que apareceram a Abraão, 3 os dias de jejum dos judeus desterrados, 3 as negações de Pedro. As trindades divinas sempre existiram em todas as religiões: Shamash, Sin e Ishtar, dos sumérios; Osíris, Ísis e Hórus dos antigos egípcios; Brahma, Vishnu e Siva, dos hindus; Yang, Ying e Tao, do Taoismo, etc., além da Trindade cristã, Pai, Filho e Espírito Santo. Outras trindades consideradas esotéricas:  trindade Cabalística: Kether, Chokmah e Binah. A trindade Familiar: Pai, Mãe e Filho. A trindade Alquímica: Nigredo, Rubedo e Albedo. Os 3 Planos ou Dimensões: Material, Espiritual e Físico. As  3 partes do átomo: próton, elétron e neutron.As 3 perguntas da Esfinge: Quem é você? De onde vem?  Para onde vai? As 3 faces do tempo: Passado, Presente e Futuro. Os 3 reinos da Natureza: Mineral, Vegetal e Animal.  O espaço é tridimensional: Comprimento, Largura, e Altura. O Universo é Espaço, Tempo, e Matéria. Os 3 ciclos de vida: Nascimento, Apogeu e Morte. O Conhecimento: Música, Geometria, Astronomia, segundo Pitágoras. A composição do homem: Corpo, Alma, Espírito. As 3 esferas concêntricas do Universo: Natural, Humano e Divino;  O número 3 ao ser desenhado,  é formado por 3 ângulos.

Para o maçom o número 3 tem uma relevância especial: 3 são os graus da Maçonaria Simbólica: Aprendiz, Companheiro e Mestre. 3 são os princípios maçônicos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. 3 são as Qualidades Maçônicas: Sabedoria, Força e Beleza. São 3 as Luzes da Loja: Venerável Mestre, Primeiro Vigilante e Segundo Vigilante. 3 Ordens da Arquitetura Grega utilizadas nas colunas: Dórica, Jônica e Coríntia. 3 são as qualidades exigidas para aqueles que postulam entrar para a Ordem: Vontade, Amor e Inteligência. 3 são as Jóias Fixas da Loja: Prancheta,  Pedra Bruta e a Pedra Polida. 3 são as Jóias Móveis da Loja: o Esquadro, o Nível,  e o Prumo. 3  são as Grandes Luzes: Sabedoria, Força e Beleza. 3 são as Virtudes Morais que devem estar no coração do maçom: Fé, Esperança e Caridade. Os 3 Pontos que identificam o maçom usados após sua assinatura, nas abreviaturas e nos códigos maçônicos: os 3 Pontos dispostos em triângulo equilátero são uma das expressões da Luz Interior e do Espírito que presidiu à Criação do Mundo. A tradição grega considerava o triângulo a imagem do céu. O triângulo é a mais estável das formas poligonais. 3 Pontos traduzem a concepção piramidal egípcia. Símbolo sexual masculino completo: pênis mais testículos.

O número 40. 40 Nós para cada lado da Corda (excetuando-se o Nó Central). Em Numerologia 40 é o número simbólico da penitência, da provação da expectativa e do julgamento: os 40 dias do  dilúvio bíblico. Os 40 dias que Moisés passou no deserto com o Senhor. Israel comeu  o maná durante 40 anos. Os 40 dias do jejum de Jesus.  40 açoites (tem a ver com julgamento) era a pena máxima de chicotadas. Ezequiel levou a iniquidade da casa de Judá por 40 dias. Os 40 dias que Jesus esteve na Terra após a ressurreição.  Jesus foi tentado por 40 dias. 40 anos os judeus peregrinaram pelo deserto até chegar a Canaã, a Terra prometida. Saul, Davi, e Salomão reinaram cada um  durante 40 anos. Elias jejuou 40 dias. A Quaresma dura 40 dias.  Antigamente certos doentes mais graves ficavam em quarentena como se tal fosse o período necessário para purificação.
Há ainda as 2 borlas presas às extremidades da Corda em torno da porta de entrada, e são 2 os possíveis simbolismos: que a Maçonaria está sempre aberta para receber candidatos que desejem receber seus ensinamentos, ou que a Ordem é dinâmica e progressista, recebendo novas ideias em benefício da evolução individual e do progresso da humanidade. Essa  segunda interpretação é a mais aceita. As borlas podem receber o nome de Justiça ou Equidade e Prudência ou Moderação.
Assim, a Corda de 81 Nós é um símbolo maçônico cheio de significados. Ela também funciona como uma “moldura”, que protege  o sagrado do profano, especialmente durante os Rituais. É a representação da comunhão de ideais e objetivos, simbolizando a união fraternal, espiritual e a amizade  entre maçons, trabalhando para a evolução da humanidade em qualquer parte do Planeta.

Bibliografia:
- Internet;
http://www.lojasabedoria.com.br/index.php?option=com_k2&view=itemlist&task=category&id=4&Itemid=13&limitstart=42 – “os cordões de seda com que as viúvas cercavam seus rostos eram feitos de “Laços de Amor” que terminavam em borlas”.
http://www.jornalobruxo.org/2013/04/universo-simbolico-magiah-dos-nos.html - Universo Simbólico: A Magiah dos Nós - Simples, porém eficaz! D’anjelo Terah - estudante de Artes Visuais. Fundador do Círculo de Estudos Pagãos Tuatha Lunar;
- Camino, Rizzardo da - “Ritualística Maçônica” - São Paulo, Editora Madras,  1998;
- Castellani, José - “O Rito Escocês Antigo e Aceito - História, Doutrina e Prática” - São Paulo Editora A Trolha, 1995;
- Castellet, Alberto Victor - “O que é a Maçonaria” - São Paulo, Editora Madras;
- Leadbeater, C. W. - “A Vida Oculta Na Maçonaria” - São Paulo, Editora Pensamento, 1969;
- Mackey, Albert G. - “O Simbolismo da Maçonaria - Volume 1” - São Paulo, Editora Universo dos Livros, 2008;
- Mackey, Albert G. - “O Simbolismo da Maçonaria - Volume 2” – São Paulo, Editora Universo dos Livros, 2008;
- Revista Superinteressante - Editora Abril - Agosto/2006;
- Revista Superinteressante - Editora Abril - Setembro/2005;