segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Mestres do Esoterismo Ocidental














“O tempo dá tudo e tudo toma tudo muda, mas nada morre… Com esta Filosofia meu espírito cresce, minha mente se expande. Por isso, apesar de quanto obscura a noite possa ser, eu espero o nascer do dia…” (Bruno)
Antes de adentrarmos nessa maravilhosa coleção dos Mestres do Esoterismo Ocidental, quero escrever um pouco sobre Esoterismo, Magia, Ocultismo, Misticismo, Hermetismo, Gnose e discorrer acerca da sua importância em nosso Universo.
Antigamente, quando um homem era sábio ele era chamado de Magus, Mago ou Magi, plural da palavra persa antigamagus, significando tanto imagem quanto “um homem sábio”, que vem do verbo cuja raiz é meh, que quer dizer Grande, e em sânscrito, Maha (daí Mahatma Gandhi, por exemplo).
Os Magi originais eram formados pela casta sacerdotal da Pérsia, além de químicos e astrólogos. Seus trajes consistiam de um manto escuro (preto, ou marrom, ou vermelho), e suas demonstrações públicas envolviam o uso de substâncias químicas para geração de fumaça, as quais causavam grande impressão entre o povo. Com isso, os observadores europeus trouxeram sua imagem para o folclore do Ocidente.
Mago usualmente denota aquele que pratica a Magia ou o Ocultismo; no entanto, pode indicar ainda alguém que possui conhecimentos e habilidades superiores, quando, por exemplo, se diz que um músico é um “mago dos teclados”, pois ele toca o instrumento musical com muita destreza.
No sentido religioso e histórico, portanto, denotava uma linha sacerdotal ou casta hereditária na Pérsia, da qual Zoroastro (ou Zaratrusta) foi um membro conhecido. Essa casta formava uma sociedade de Magos que dividia os iniciados em três níveis de iluminação:
Khvateush – Os mais elevados, iluminados com a luz interior, iluminados;
Varezenem – Aqueles que praticam;
Airyamna – Amigos dos arianos.
Os antigos Magos Parcis podiam ser divididos em três níveis:
Herbods – noviços;
Mobeds – Mestres;
Destur Mobds – Homens perfeitos, idênticos aos Hierofantes dos mistérios praticados tanto na Grécia como no Egito (veja Hermetismo).
Esclarecemos que Hierofante é um termo utilizado para classificar os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios. Em língua portuguesa, o Grande Hierofante representa o Sacerdote Supremo ou Sumo Sacerdote. Um dos exemplos mais conhecidos de alguém que pode ser designado Grande Hierofante é o líder supremo (supremo para os que comungam do mesmo credo, é lógico) da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa, também chamado de Sumo Pontífice.
Podemos dizer que o Hierofante simboliza o mestre espiritual que habita em nosso interior, é o intermediário que faz a ligação entre a consciência terrena e o conhecimento intuitivo da lei Divina. Um dos principais objetivos desses líderes, ou instrutores, é o de ajudar os seres humanos na escalada dos graus na grande jornada da vida, permitindo-os evoluir para se libertarem de seus sofrimentos. Em cada grau que ascende existe um desafio, uma experiência, até que o indivíduo consiga separar o joio do trigo.
A teosofista Helena Blavatsky, em Ísis Sem Véu, refere-se ao Hierofante dizendo que era o título pertencente aos mais elevados adeptos nos templos da Antiguidade: mestres e expositores dos Mistérios e os iniciadores nos grandes Mistérios finais. O Hierofante era a representação do Demiurgo que explicava aos candidatos à Suprema Iniciação os vários fenômenos da Criação que se expunham para o seu ensinamento.
Discorrendo claramente a respeito do Demiurgo, o escritor Kenneth R. H. Mackenzie disse que “era o único expositor das doutrinas e arcanos esotéricos. Era proibido até pronunciar seu nome diante de uma pessoa não-iniciada. Residia no Oriente e levava como símbolo de sua autoridade um globo de ouro junto ao colo. Chamavam-no, também, Mistagogo”.
De acordo com o francês Pierre Weil, presidente da Fundação Cidade da Paz e Reitor da Universidade Holística Internacional de Brasília (UNIPAZ), o Sumo Pontífice (Sumo Pontifex) é aquele que lança pontes, ou, tradicionalmente, aquele que deve unir as diferentes pessoas e coordenar esforços, lançar pontes em todas as direções. Hierofante também designa grandes sacerdotes de outras religiões. Em seu livro A Enxada e a Lança, Alberto da Costa e Silva traz esta definição: “Orumila, o Hierofante”. Sabe-se que Orumila é o grande conhecedor do Orum (o Desconhecido), o outro lado, o infinito, o longínquo. Acredita-se que nesse lugar inalcançável pelos habitantes da Terra (para os iorubás,Aiyê) os Orixás conservam suas moradas.
Na Bíblia, os magos são vistos como homens sábios. O termo também se tornou familiar, por causa dos três reis magos, que, seguindo uma estrela, chegaram ao local onde se encontrava o menino Jesus.
Na atualidade, a Magia foi revivida em seu aspecto ritualístico, principalmente pela Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (Hermetic Order of the Golden Dawn), na Inglaterra, no final do século XIX.
Na Maçonaria, que dia a dia permite que homens investidos de uma pregação comunista e materialista desviem a Ordem de seu curso natural, esse aspecto ritualístico está sendo perdido aos poucos. A Maçonaria é uma Escola Iniciática, na qual o candidato galga os graus, submetendo-se a ultrapassar os obstáculos, enfrentando-os até alcançar a Luz. Somos construtores sociais, sim (maçons = pedreiros), mas temos que em primeiro lugar elevar a consciência, incentivando a busca do conhecimento próprio. Esse conhecimento é profundo… Precisamos primeiramente construir nosso próprio edifício e, somente depois de acabado, ajudar o próximo a construir o seu, e assim sucessivamente…
O maçom tem que se esforçar para poder libertar todas as amarras do instinto. É aquele que guia as rédeas ao conduzir a parte animal que ainda, por missão, sente-se obrigado a possuir no mundo. No entanto, sabe que tudo na Terra tem seu período de transição, todas as coisas ocupam tempo fixo, por lei, e são determinadas pela necessidade evolutiva. Ele sabe, mediante sua mente divina, que a atuação do Ser Supremo se faz através do Espaço. Quando volta seus “olhos de ver” para a Imensidão, é capaz de ler essas lições no livro da Sabedoria Eterna, onde tudo fica gravado para sempre, como se fosse um eterno presente.
Portanto, o maçom precisa, sim, desenvolver seu sexto sentido. A intuição é seu modo de ver, ouvir e falar. No mais alto grau da Maçonaria, já se torna senhor dos três mundos: físico, anímico e espiritual. Somente nesse ponto pode e deve ser considerado Mestre Maçom.
O caminho da Iniciação
Assim como uma flor não desabrocha fora do tempo, do mesmo modo a alma terá seu momento de encontro com a Luz. Nenhum esforço, além da senda apontada pela Consciência, poderá marcar mais perfeitamente o início dos primeiros passos no Caminho. A ansiedade é má conselheira e oferece tanta resistência à evolução do discípulo quanto à displicência. De tal modo Deus fez a alma do Homem, que ela sabe que, apesar de todas as voltas e curvas do caminho humano, é seu destino retornar mais iluminada ao Reino do Pai.
Se levarmos em conta o rigorismo do vocábulo esoterismo, na acepção de oculto, somente os Iniciados poderiam chamar-se esoteristas.
Iniciados são, portanto, todos os seres que, tendo atingido os páramos supremos dos últimos graus da iluminação, ainda como seres humanos, adquirem os meios de coordenar as forças ocultas do ser. Já sabemos que a iluminação é o ponto solar que conduz o Homem aos Mistérios. Como poderia palmilhar o Caminho aquele que, primeiramente, não se iluminasse? De sua Luz brota a claridade para seu próprio Caminho.
Dentre os filósofos que se manifestaram a respeito da Iniciação, Próclus nos diz que ela serve para “retirar a alma da vida material e lançá-la na luz”. E Salústio afirma que “o fim da Iniciação é levar o Homem a Deus”.
Antonio de Macedo nos dá uma boa luz sobre o significado de Esoterismo: “O adjetivo eksôterikos, -ê, -on (exterior, destinado aos leigos, popular, exotérico) já existia em grego clássico, ao passo que o adjetivo esôterikos, -ê, -on (no interior, na intimidade, esotérico) surgiu na época helenística, nos domínios do Império Romano. Diversos autores os utilizaram. Veremos adiante alguns exemplos.
Esotérico e exotérico têm origem, respectivamente, em eisô ou esô (como preposição significa “dentro de”, como advérbio, “dentro”), e eksô (como preposição significa “fora de”, como advérbio, “fora”). Dessas partículas gramaticais (preposição, advérbio) os gregos derivaram comparativos e superlativos, tal como no caso dos adjetivos. Via de regra, o sufixo grego para o comparativo é teros, e para o superlativo é tatos. Por exemplo: o adjetivo kouphos, “leve”, tem como comparativo kouphoteros, “mais leve”, e como superlativo kouphotatos, “levíssimo”. Do mesmo modo, do advérbio/preposição esô obtém-se o comparativo esôteros, “mais interior”, e o superlativo esôtatos, “muito interior, interno, íntimo”. O adjetivo esôterikos deriva, portanto, do comparativo esôteros.
Certos autores, porém, talvez com uma visão mais imaginativa, propõem outra etimologia, baseada no verbo têrô, que significa “observar, espiar; guardar, conservar”. Assim, esô + têrô significaria qualquer coisa como “espiar por dentro e guardar no interior”.
Sabemos que as práticas ocultas concentram-se na habilidade de manipular leis naturais, como na Magia. Antigamente, Mistérios eram cultos sempre secretos nos quais uma pessoa precisava ser “iniciada”. Os líderes dos cultos incluíam os Hierofantes (“revelador de coisas sagradas”). Uma sociedade de Mistério mantinha tradições como: refeições, danças e cerimônias em comum, especialmente ritos de iniciação. Faziam isso por acreditar que essas experiências compartilhadas fortaleciam os laços de cada culto.
Esoterismo é o nome genérico que designa um conjunto de tradições e interpretações filosóficas das doutrinas e religiões que buscam desvendar seu sentido oculto. É o termo utilizado para simbolizar as doutrinas cujos princípios e conhecimentos não podem ou não devem ser “vulgarizados”, sendo comunicados apenas a um pequeno número de discípulos escolhidos.
A idéia central do Esoterismo é pesquisar o conhecimento perdido e utilizar todas as técnicas possíveis para que cada homem consiga transmutar o velho em novo, as trevas em luz, o mal em bem. Enfim, para que o esotérico consiga fazer a alquimia da sua própria alma e ascender ao encontro com o Criador. O Esoterismo estuda e faz uso prático das energias da natureza. Os métodos de sintonia com essas energias são inúmeros.
Segundo Blavatsky, o termo “esotérico” refere-se ao que está “dentro”, em oposição ao que está “fora” e que é designado como “exotérico”. Mostra o significado verdadeiro da doutrina, sua essência, em oposição ao exotérico, que é a “vestimenta” da doutrina, sua “decoração”. Um sentido popular do termo é de afirmação ou conhecimento enigmático e impenetrável. Hoje em dia, o termo está mais relacionado ao misticismo, ou seja, à busca de supostas verdades e leis que regem o Universo, porém ligando ao mesmo tempo o natural com o sobrenatural.
Ao encontro do Misticismo
Misticismo é uma filosofia que existe em muitas culturas diferentes e que se apresenta de várias maneiras. Místico é todo aquele que concebe a não separatividade entre o Universo e os seres (reino transcendente). A Essência primordial da vida, a Consciência Cósmica, ou Deus, como costumou chamar – ao contrário do que se pensa – não está e nunca esteve separado de qualquer coisa. O místico é aquele que busca um contato com a realidade, que utiliza as forças naturais como intermediário.
O místico busca a presença de um Ser Supremo, ou do inefável e incognoscível, em si mesmo. Ele acredita que dessa forma pode perceber todas as coisas como parte de uma infinita e essencial Unidade de tudo o que existe. Os místicos não reconhecem diferenças entre a natureza do Universo e a natureza dos seres.
Misticismo é, portanto, a busca de conhecimento espiritual direto mediante processos psíquicos que transcendem as funções intelectuais. Sob essa ótica, o Misticismo é tido como um caminho pessoal de evolução, realização e felicidade.
Hermetismo
Aquilo que na atualidade é chamado de Hermetismo, ou de Ciências Herméticas, compreende um campo de conhecimento muito amplo. Diariamente, observamos as ordens e as sociedades herméticas; ouvimos falar de conhecimentos herméticos. Em um primeiro momento, o leigo acredita que a palavra “hermética”, presente em inúmeras organizações, significa oculto, mistério, velado. Mas esse não é o sentido real. Aquilo que é ensinado como Hermetismo tem raízes tão antigas que é impossível precisar o seu surgimento. Acreditamos que pode ser considerado como sua origem, o registro de todos os conhecimentos que a humanidade foi acumulando, ciclo após ciclo de civilização, mesmo muito antes da Atlântida.
A Prof. Dra. Eliane Moura Silva, do Departamento de História da UNICAMP ressalta: “Em 1460, Cósimo de Médicis manda Marsílio Ficino interromper a tradução dos manuscritos de Platão e Plotino para iniciar com urgência, a tradução do Corpus Hermeticum, coletânea de textos formados pelo Asclépios (onde se descreve a antiga religião egípcia e os ritos e processos através dos quais estes atraíam as forças do Cosmos para as estátuas de seus deuses) e outros quinze diálogos herméticos tratando de temas como a ascensão da alma pelas esferas espirituais até o reino divino e a regeneração durante a qual a alma rompe os grilhões da matéria e torna-se plena de poderes e virtudes divinas, incluindo o Pimandro, que é um relato da Criação do mundo”.
Essa tradução e as obras de Platão e Plotino tiveram um papel fundamental na história cultural e religiosa do Renascimento, sendo responsáveis pelo triunfo do Neoplatonismo e de um interesse apaixonado pelo Hermetismo em quase toda a Europa. A apoteose do homem, característica do Humanismo, passou a ter, em diferentes pensadores do período, uma profunda inspiração na tradição hermética redescoberta, assim como no Neoplatonismo para cristão.
De acordo com estudiosos, todos os movimentos de vanguarda da Renascença tiraram seu vigor e impulso a partir de um determinado olhar que lançaram sobre o passado. Ainda vigorava uma noção de tempo cíclica em que o passado era sempre melhor que o presente, pois lá estava a Idade do Ouro, da Pureza e da Bondade. Essa tendência aponta uma profunda insatisfação com a escolástica e uma aspiração em encontrar as bases para uma religião universalista, trans-histórica e primordial. O Humanismo Clássico recuperava a Antiguidade Clássica procurando o ouro puro de uma civilização melhor e mais elevada. Os reformadores religiosos procuravam a pureza evangélica nos estudos das Escrituras e nos textos dos precursores da Igreja.
A crença em uma prisca theologia e nos velhos teólogos – Moisés, Zoroastro, Orfeu, Pitágoras, Platão e Hermes Trismegistos – conheceu uma voga excepcional, assim como a leitura do Antigo Testamento, dos Evangelhos e a própria Tradição Clássica. Pensava-se em uma aliança possível entre essas antigas e puras teologias, entre as quais se destacava o Hermetismo (afinal, sendo Hermes o mais antigo dos sábios e diretamente inspirado por Deus, pois suas profecias se cumpriram com o nascimento de Jesus), para se chegar a um universalismo espiritual capaz de restaurar a paz e o entendimento pela compreensão da “divindade” nos seres humanos.
Sob essa ótica, no decorrer dos anos assistimos a uma intensa recuperação de diversas formas de Gnose, da Alquimia e do Esoterismo cristão em seus temas fundamentais: enobrecimento e transmutação dos metais, regeneração do homem e da natureza, a quem serão devolvidas a dignidade e a pureza perdidas com a queda, a vitória sobre as doenças, a imortalidade e felicidade no seio de Deus, as relações simpáticas entre os seres e as coisas, o acesso a textos ocultos e revelados a poucos iniciados, Astrologia, Magia naturallis, entre outras fontes do saber.
Estamos falando das bases sobre as quais certos pensadores que marcaram época construíram suas obras, dentre eles Johanes Augustinus Pantheus, sacerdote veneziano; autor de Ars transmutationes metallicaee; ou ainda, do provençal Michel de Nostredame (ou Nostradamus), médico e alquimista, protegido de Catarina de Médicis e autor das proféticasCentúrias; de Jerônimo Cardano, médico e matemático perseguido pela Inquisição e protegido pelo Papa; Juan Tritemio, sacerdote do convento de Spanheim, mas também um profeta, necromante e mago da corte do imperador Maximiliano. Por fim, chegamos a Paracelso (Teofrasto Bombast von Hohenheim), discípulo de Tritêmio e buscador da realização sobrenatural. Temos também Henrique Cornélio Agrippa de Netesheim, que em 1510 publicou De Occulta Philosophia.* Ele era um exímio estudioso de Cabala, Magia naturallis, Alquimia, Angelologia, dos segredos ocultos da natureza e da vida. Lembramos, ainda, dos esoteristas cristãos Marsílio Ficino e Pico de la Mirandola (a renovação do cabalismo no Renascimento).
Agrippa declarava que para ocupar-se da Magia, era necessário conhecer perfeitamente Física, Matemática e Teologia. Para ele, a Magia é uma faculdade poderosa, plena de mistério e que encerra um conhecimento profundo das coisas mais secretas da natureza, substâncias e efeitos, além de suas relações e antagonismos.
Giovanni Pico de la Mirandola justifica a importância da busca humana pelo conhecimento em uma perspectiva neoplatônica. Ele afirma que Deus, tendo criado todas as criaturas, foi tomado pelo desejo de gerar outra criatura, um ser consciente que pudesse apreciar a criação. Porém, não havia nenhum lugar disponível na cadeia dos seres, desde os vermes até os Anjos. Então Deus criou o homem, que, ao contrário dos outros seres, não tinha um lugar específico nessa cadeia. Em vez disso, o homem era capaz de aprender sobre si mesmo e sobre a natureza, além de poder emular qualquer outra criatura existente. Desta forma, segundo De la Mirandola, quando o homem filosofa, ele ascende a uma condição angélica e comunga com a Divindade. Entretanto, quando ele falha em utilizar o seu intelecto, pode descer à categoria dos vegetais mais primitivos. Desse modo, De la Mirandola afirma que os filósofos estão entre as criaturas mais dignificadas da criação.
A idéia de que o homem pode ascender na cadeia dos seres pelo exercício de suas capacidades intelectuais foi uma profunda garantia de dignidade da existência humana na vida terrestre. A raiz da dignidade reside na sua afirmação de que somente os seres humanos podem mudar a si mesmos pelo seu livre-arbítrio. Ele observou na história humana que filosofias e instituições estão sempre evoluindo, fazendo da capacidade de autotransformação do homem a única constante.
Em conjunto com sua crença de que toda a criação constitui um reflexo simbólico da Divindade, a filosofia de De la Mirandola teve uma profunda influência nas artes, ajudando a elevar o status de escritores, poetas, pintores e escultores, como Leonardo da Vinci e Michelangelo, de um papel de meros artesãos medievais a um ideal renascentista de artistas considerados gênios que persiste até os dias atuais.
Para esses pensadores, era possível elaborar uma harmonia entre Gnose, Hermetismo, Cabala Magia natural e Cristianismo. “Magia naturallis era compreendida como a aproximação da Natureza com a religião, ou seja, estudar a natureza (inclusive oculta) das coisas era visto como um caminho para compreender e chegar a Deus”.
Gnosticismo ou Conhecimento
De acordo com os apontamentos de Claudio Willer, os gnósticos existiram como seitas, em diversos grupos, nos séculos I a V da Era Cristã, especialmente no Egito, convivendo e interagindo com o Neoplatonismo e o Hermetismo. Escritores conceituados, sempre empenhados na recriação mítica de suas origens, deixaram uma série de evangelhos apócrifos (a exemplo dos cabalistas que, mais tarde, também fizeram seus acréscimos à Bíblia, reescrevendo ou introduzindo trechos atribuídos aos profetas). Esses autores foram desaparecendo diante da organização, não só teológica como política, do Cristianismo. Perseguidos e combatidos como hereges, ressurgem na Idade Média como bogomilos, variante do Maniqueísmo, nos atuais territórios da Bulgária, Hungria e Romênia. E, já nos séculos XII e XIII, aparecem como cátaros, os albigenses da Provença, militarmente exterminados. Sua documentação também foi destruída, restaram apenas as peças acusatórias do Cristianismo que, para se afirmar como poder temporal, os varreu da face da Terra.
Com isso, encerra-se a Gnose como forma de organização social, mas não como modo de pensar. A inversão da história do Jardim do Éden, com a serpente portadora não da perdição, mas da sabedoria, além de se manter em práticas de Magia e Bruxaria desde a baixa Idade Média e da Renascença, reaparece na criação de novos escritores, especialmente na transição do século XVIII para o XIX. Alexandrian, em sua História da Filosofia Oculta (Seghers, 1983, ou Edições 70, Portugal, s/d), atribui-lhes grande alcance: “o espírito da Gnose subsistiu até nossos dias; além disso, todos os grandes filósofos ocultos foram de uma forma ou de outra, continuadores dos gnósticos, sem que necessariamente utilizassem o mesmo vocabulário e os temas”. Seu comentário coincide com aquele feito em 1949 por André Breton (no ensaio Flagrant délit, em La clé des champs, Le Livre de Poche, 1979), ao registrar com lucidez a importância da então recente descoberta das Escrituras Gnósticas de Qumran. “Sabe-se, com efeito, que os gnósticos estão na origem da tradição esotérica que consta como tendo sido transmitida até nós, não sem se reduzir e degradar parcialmente no correr dos séculos, apontando ainda que poetas tão influentes como Hugo, Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé e Jarry haviam sido mais ou menos marcados por essa tradição.”
Esses escritores são de uma família representada também por William Blake* (1757-1827). Pouco antes de Blake, Emannuel Swedenborg (1688-1772) havia formulado cosmologias complexas de grande influência, a ponto de se criarem seitas swedenborguianas, grupos que persistem até nossos dias. Swedenborg, que também deixou obra científica, representa uma dualidade típica do século XVIII, a coexistência do culto à razão e ao desenvolvimento científico, e seu aparente inverso, o crescimento, a sombra do Iluminismo, de seitas e grupos iniciáticos de orientação hermética. Entre outros, destacam-se a Maçonaria, na versão de Cagliostro; os Martinistas e os “Iluminados”. Ambos, racionalismo e ocultismo, aparente claridade e suposto obscurantismo, modernização e tradicionalismo, são pólos da mesma complexa configuração. Para cada Voltaire havia um Cagliostro; para cada Rousseau, um Marquês de Sade. Todos possíveis graças à liberdade de pensamento e expressão possibilitada pelo enfraquecimento dos regimes absolutistas e do poder temporal da Igreja.
Não por acaso, o pai de William Blake foi adepto de Swedenborg. E o poeta, também notável artista plástico, formou-se por meio de leituras não somente do próprio Swedenborg, mas de seus antecessores renascentistas como Paracelso e Jacob Boehme – formuladores da teoria das “assinaturas” de que o microcosmo reproduziria traços do macrocosmo, e cada coisa particular manifestaria correspondências com o Todo, as qualidades e características da ordem universal – e dos movimentos ocultistas de seus contemporâneos, iluminados e martinistas inclusive. Não era de se estranhar que, sendo um visionário, Blake acreditasse que, desde a adolescência, conversava com profetas bíblicos e que poemas seus fossem ditados por anjos.
Sem dúvida, Blake foi um panteísta e um politeísta, pelo modo como apresentou em seus poemas uma pluralidade de entidades, uma teogonia particular, e como cultuou a natureza, visualizando-a animada pela energia divina (minha principal fonte, The Poetical Works of William Blake, editada por John Sampson, Oxford University Press, 1960). Formulou antevisões, em seus Poemas Proféticos, em América, A Revolução Francesa e em Matrimônio do Céu e do Inferno, em cujas metáforas, deslindando-as, é possível reconhecer antecipações do que estava por vir (no mínimo, na Canção de Liberdade, em Matrimônio do Céu e do Inferno), ou seja, a expansão e a subseqüente queda do Império Britânico. Até que ponto sua poesia encerra idéias gnósticas, isso é e continuará sendo uma incógnita.
Contudo, declarações como esta: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria” (a mais famosa de Matrimônio do Céu e do Inferno) permitem associação a um Gnosticismo dissoluto. Igualmente, as estetizações de Satã, retratado como fonte da sabedoria (em Matrimônio do Céu e do Inferno, em outros lugares de sua obra e na esplêndida gravura na qual seu Lúcifer triunfante é uma herética citação do redentor apocalíptico de Michelangelo), e os personagens, deuses criadores do mundo, porém decaídos ou malignos, como Los, Urizen e Nobodaddy, são representações do Pai opressor.
Friedrich Hölderlin (1770-1843) jamais ascendeu ao status de profeta, e o componente visionário de sua obra – mais evidente quando passou o restante de seus dias na pequena cidade de Nürtingen, abrigado na casa do carpinteiro Zimmer em sua fase de loucura – não pode ser tomado como expressão da adesão a seitas e doutrinas. Escrevia como se fosse um grego e estivesse na Grécia antiga, e, impregnado de mitos, lamentava a queda dos deuses em poemas lacunares, extremamente modernos, com belas imagens; assim naufraga o ano no silêncio…
Com o passar do tempo, Hölderlin e Blake, quase contemporâneos, cresceram em prestígio e estatura literária. Outro poeta, já de um romantismo tardio, de uma geração seguinte, também se destacou: Gérard de Nerval (1808-1855), influenciado pela Cabala, pelo Hermetismo e por idéias gnósticas, a qual havia aderido de modo consciente, conforme deixou claro em Les Illuminés. Em Aurélia, obra que escreveu antes de desencarnar em virtude de um acesso de melancolia e que é uma narrativa regida por mecanismos do sonho e do delírio, bem como em Sílvia, exemplarmente analisada por Umberto Eco em Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, confundem-se dois modos do pensamento mágico: um deles, aplicação ou expressão da formação ocultista; o outro, resultado de seu distúrbio psíquico.
O Luciferianismo é um antigo culto de mistérios que tem origem nos cultos de adoração às serpentes ou dragões, sendo parte dessa crença originada dos mistérios clássicos. O luciferianista presta culto ao Deus romano, Lúcifer, o Andrógino, o Portador da Luz, o espírito do Ar, a personificação do esclarecimento, por meio de seus deuses machos e fêmeas. Dentro do contexto geral pagão, Lúcifer era o nome dado à estrela matutina (a estrela conhecida por outro nome romano, Vênus). A estrela matutina aparece nos céus logo antes do amanhecer, anunciando o Sol ascendente. O nome deriva do termo latino lucem ferre, o que traz, ou o que porta a luz. Lúcifer vem do latim, lux + ferre e é denominado, muitas vezes, como a Estrela da Manhã. Dentre todos os deuses, Lúcifer foi aquele que manteve a relação mais notável com a Humanidade. Encontrar a faceta da divindade Lúcifer dentro de nós é fator importante no caminho da Verdade para um luciferianista. Ela nos trará a consciência, o conhecimento e, sobretudo, o livre-arbítrio. Lúcifer, para nós, é o caminho para o encontro com o verdadeiro Eu - divindade, a nossa vontade real.
Lúcifer (em hebraico, heilel ben-shachar, ; em grego na Septuaginta, heosphoros) representa, como já dissemos, a Estrela da Manhã (a estrela matutina), a estrela D’Alva, o planeta Vênus, mas também foi o nome dado ao anjo caído, da ordem dos Querubins (ligados à adoração de Deus). Na atualidade, em uma nova interpretação da palavra, chamam-no de Diabo (caluniador, acusador) ou Satã (cuja origem é o hebraico Shai’tan, adversário).
Hoje, Nerval é visto como possuidor de uma estatura próxima à do autor referencial, inaugurador da modernidade, Charles Baudelaire (1821-1867), o poeta dos mistérios, dos abismos e da sua cidade, da metrópole moderna e movimentada em que Paris ia se convertendo. Ambos, Nerval e Baudelaire, eram excêntricos no plano da conduta pessoal; sua excentricidade passando a símbolo de uma provocação romântica e pós-romântica.
Karl Bunn nos diz que: “No Ocidente, algumas das formas mais conhecidas de Gnose são o Hermetismo, a Gnose Cristã, a Alquimia, os ensinamentos dos Templários e a Maçonaria.
O Hermetismo ou os Mistérios de Hermes foi estabelecido em antiqüíssimos tempos por Hermes Trismegistos, no Egito dos grandes magos e sacerdotes. Afortunadamente, essa ciência conseguiu manter-se pura e intacta até nossos dias nas lâminas do Tarô Egípcio. Já a Gnose dos primeiros cristãos, somente nos últimos 20 anos do século passado ressurgiu nos principais centros culturais do mundo, tanto em forma integral quanto em forma de livros compilados a partir das chamadas obras apócrifas do Cristianismo antigo – que nada têm de apócrifos, considerando-se que a lista canônica foi elaborada para servir aos interesses dos primeiros padres da Igreja Romana. Na realidade, apócrifa e canônica são obras escritas na mesma época e da mesma maneira. Existe sim uma diferença de fundamental importância: os textos denominados apócrifos não sofreram mutilações nem adaptações ao longo dos séculos e são, portanto, mais puros, originais e completos que os canônicos.
Segundo estudiosos do assunto, existem muitas discussões e polêmicas em torno das obras apócrifas. Isso é compreensível, levando-se em conta que as fantasias teológicas, criadas nos últimos dois mil anos, estão muito vivas na cabeça das pessoas, principalmente dos fiéis católicos e das seitas cristãs. Em contrapartida, é crescente o número de pessoas esclarecidas que atestam a veracidade e a fidelidade dos textos considerados apócrifos, tornando acessível ao público toda a sabedoria gnóstica da Antiguidade.
A Gnose chama a atenção não só por seus aspectos históricos e antropológicos, que ajudam a explicar os pontos cruciais da atribulada trajetória da humanidade, mas também por seu caráter psicológico profundo, de extrema atualidade, como conhecimento divino, ou fogo liberador que surge das mais íntimas profundezas do indivíduo.
Hoje em dia muitos sábios, filósofos, psicólogos, humanistas, etc., encontraram na Gnose as orientações precisas que possibilitam o esclarecimento dos grandes enigmas do Universo e do Homem. Basta recordar a famosa frase: “Nosce te Ipsum” (Conhecida tradicionalmente como “Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”).
Vemos, então, que a Gnose sempre foi um conhecimento misterioso, que parece surgir espontaneamente nas mais diversas épocas e lugares. O estudioso francês Serge Hutin diz o seguinte: “Se o Gnosticismo não fosse mais que uma série de aberrações doutrinárias, próprias de hereges cristãos dos três primeiros séculos, seu interesse seria puramente arqueológico. Mas é muito mais que isso, a atitude gnóstica aparecerá espontaneamente, além de qualquer transmissão direta. O Gnosticismo é uma ideologia mística que tende a reaparecer incessantemente na Europa e em outros lugares do mundo em épocas de grandes crises ideológicas e sociais”.
E também afirma: “Ainda que muitos gnósticos falem uma linguagem desconcertante para o homem contemporâneo, sua atitude no fundo é muito moderna: apresentam-se como homens preocupados com o futuro do mundo, procurando uma solução para os problemas que o envolvem”.
Em meados do século passado, foram encontrados pergaminhos, manuscritos e outros textos que, ao serem traduzidos, mostram a profundidade das doutrinas gnósticas praticadas antes de Jesus Cristo e também depois de sua vinda, fundindo-se com as primeiras comunidades cristãs. Pode-se dizer que o Cristianismo nascente encontrou seu primeiro ponto de apoio nos filósofos gnósticos daquela época.
O Gnosticismo, ou grupos de doutrinas relativas à Gnose, constitui-se no que é a tradição esotérica das diversas religiões, em especial do Cristianismo. Podemos dizer que a Gnose é aquele elo secreto que une a sabedoria do Oriente à do Ocidente.
No Budismo, vamos encontrar a Gnose principalmente nas formas que se caracterizam pela transmissão direta, como oZen; nas formas esotéricas tibetanas, o Prajna-Paramita, entre outros.
A palavra zen é a forma japonesa do ch’an chinês, que por sua vez vem do dhyana sânscrito, do qual se deriva gnana(sabedoria), que finalmente chega ao grego, e daí Gnose em língua portuguesa.
No Islã também vamos encontrar a Gnose na parte esotérica, no Sofismo.
No Pistis-Sophia, livro que pode ser considerado a Bíblia Gnóstica, vimos que Jesus revelou a Gnose oralmente a seus discípulos, depois da Ressurreição.
Após os primeiros séculos do Cristianismo, a pura Gnose Cristã precisou se envolver no véu do Hermetismo, pois sua existência manifesta já não era mais conveniente à religião de Estado que então se formou.
Pistis Sophia - o livro - foi publicado pela primeira vez em 1851, na França. Depois, houve uma versão para o inglês, feita por G.R.S. Mead. Mas, qualquer que seja a edição de Pistis Sophia, moderna ou antiga, trata-se de uma obra incompreensível para os não-iniciados. Mesmo a edição comentada do Mestre Samael Aun Weor, que desvela os dois primeiros dos seis volumes de Pistis Sophia, é bastante complexa, não somente pelo vocabulário mas pelas próprias verdades da Alta Iniciação ali contidas.
Infelizmente, por preconceito ou ignorância, os maiores tesouros do Gnosticismo antigo continuam incompreendidos. Mestres e estudiosos, como Samael Aun Weor, H. P. Blavatsky e Carl Gustav Jung foram alguns poucos que se atreveram a enveredar pelos caminhos do Gnosticismo histórico e de lá retornar com compreensão e entendimento suficientes para explicar algo de seus augustos e reservados mistérios. Mas, agora em edição especial, a Madras Editora traz para a língua portuguesa a maior coletânea de textos apócrifos em duas obras: O Mistério do Pergaminho de Cobre de Qumran – O Registro dos Essênios do Tesouro de Akhenaton, de Robert Feather, com 448 páginas, e A Biblioteca de Nag Hammadi – A Tradução Completa das Escrituras Gnósticas, coordenação de James M. Robinson, com 464 páginas.
No entender de um antigo Patriarca Gnóstico, Clemente de Alexandria, “Gnose é um aperfeiçoamento do homem enquanto homem”. A Gnose, transmitida oralmente depois dos apóstolos, chegou a um pequeno número de pessoas.
As doutrinas gnósticas, sendo doutrinas de regeneração, ocupam-se especialmente do trabalho com a energia criadora, a transmutação ou Alquimia sexual, ou ainda Tantrismo, como é conhecida no Oriente a ciência gnóstica da supra-sexualidade.
É interessante saber que a misteriosa ciência dos alquimistas teve origem na Gnose de Alexandria. De Alexandria, ela passou a Bizâncio e aos venezianos. Mas foram os árabes que levaram a Alquimia à cristandade européia, por meio da Espanha.
Na Alquimia tântrica, o amor desempenha um papel essencial. Por isso, as ilustrações feitas pelos alquimistas mostram sempre um casal em atitude amorosa.
Uma das principais características do Tantrismo é que ele se apóia totalmente em um progressivo e total domínio da sexualidade – o que também é exigido de todo alquimista. O Tantrismo e a Alquimia buscam os mesmos objetivos: a reconquista progressiva dos poderes perdidos pelo homem quando da queda (sexual) no Éden, do domínio total das energias ocultas do Cosmos e também das energias que se encontram no próprio homem.
Wagner Veneziani Costa
Fontes de Consulta:
Jornal Infinito (www.jornalinfinito.com.br).
G. Trowbridge, Swedenborg, Vida e Ensinamento;
J. H. Spalding, Introdução ao Pensamento Religioso de Swedenborg;
S. Toksvig, Emanuel Swedenborg : Cientista e Místico.
S. M. Warren, ed., Um Compêndio dos Escritos Teológicos de Emanuel Swedenborg.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Origem do Rito Escocês Antigo e Aceito


Chevalier Ramsay

Andrew Michael Ramsay (1686-1743), também conhecido por Chevalier Ramsay, foi um teólogo e escritor escocês que viveu a maior parte da sua vida adulta em França, como jacobita exilado. Estudou teologia nas Universidades de Glasgow e Edimburgo, tendo-se graduado em 1707. Em 1708, foi viver para Londres, tendo-se relacionado com Isaac Newton, Jean (ou John) Desaguliers e David Hume.

Em 1710, estudou sob a orientação do filósofo místico François Fénelon, tendo-se, por influência deste, convertido ao catolicismo. Após a morte de Fénelon, em 1715, foi viver para Paris, onde se tornou amigo do Príncipe Regente de França, Philippe d'Orléans, que o fez, em 1723, Cavaleiro da Ordem de S.Lázaro de Jerusalém - o que motivou a sua futura designação por Chevalier Ramsay.

Defensor das pretensões jacobitas (de James Stuart) aos tronos de Inglaterra e Escócia, chegou a desempenhar, embora por breve espaço de tempo, as funções de tutor dos filhos de James Stuart, Charles Edward e Henry. Entre 1725 e 1728, viveu como hóspede convidado no Hotel de Sully, sob o patrocínio do Duque de Sully, e frequentou o clube literário parisiense Club de l'Entresol, onde se relacionou, entre outros, com Montesquieu.

Em 1727, publicou as Viagens de Ciro, que foi um grande êxito (um verdadeiro best-seller na época) e o tornou célebre na sociedade (o que, na época, equivalia a dizer: entre a nobreza) francesa.

Desde a introdução em França (através dos exilados jacobitas) da maçonaria que Ramsay nela se integrou.

Em 1737, sendo então Grande Orador em França, escreveu e proferiu, perante uma assembleia de nobres, o seu célebre Discurso pronunciado na receção de Maçons por Monsieur de Ramsay, Grand Orador da Ordem.

Neste discurso, Ramsay efetua uma ligação da Maçonaria às cruzadas. Veio a ser um dos discursos maçónicos mais divulgados e discutidos da História da Maçonaria. Nenhum outro recebeu alguma vez mais atenção. Nenhum outro teve, até agora, maior efeito no desenvolvimento dos eventos relativos à Maçonaria.

No entanto - e tal é hoje pacífico entre os historiadores da maçonaria - o que ele relatou não corresponde à realidade histórica. A Maçonaria não deriva dos Templários nem das Cruzadas e Ramsay sabia-o bem. Na ocasião, o seu propósito foi dar aos recém-iniciados uma razão para terem orgulho na Ordem. A sua Oração, por consequência, não foi um resumo histórico factual, antes uma narrativa alegórica sobre as suas origens. Foi essencialmente o discurso do idealista que ele era.

Assim, ele falou de uma ligação entre os Cruzados e os Maçons, afirmando que, depois das Cruzadas, o Príncipe Eduardo, filho de Henrique III de Inglaterra, tinha trazido de volta àquele país as suas tropas, que tomaram o nome de... Maçons. Acrescentou que, das Ilhas Britânicas, a Arte Real estava então a passar para França, que iria passar a ser a sede da Ordem (!) e continuou dizendo:
" As obrigações que vos foram impostas pela Ordem são as de proteger os vossos irmãos pela vossa autoridade, de os iluminar pelo vosso conhecimento, de os edificar pelas vossas virtudes, de lhes acudir nas suas necessidades, de renunciar a todo o ressentimento pessoal e de favorecer tudo o que possa contribuir para a paz e a unidade da sociedade."

Ramsay ligou a Maçonaria aos Cruzados, designadamente ingleses. Mas, ao contrário do que é correntemente afirmado, não é exato que tenha feito qualquer referência aos Templários. Este mito sobre um mito nasceu de um erro de Mackey, que tal afirmou na entrada dedicada à "Origem Templária da Maçonaria" na sua Enciclopédia da Maçonaria. Os grandes também se enganam, Mas os erros dos grandes acabam por ser divulgados como verdades... 

Em nenhuma passagem do Discurso Ramsay sugeriu a criação de um novo rito, mas dele foi isso que veio a resultar. A Maçonaria tinha sido introduzida em França poucos anos antes, mas a nobreza francesa (o Povo, esse, simplesmente sobrevivia e só com a sua sobrevivência se preocupava), embora de algum forma fascinada, não acreditava que fosse possível que o ideário maçónico fosse originário de trabalhadores comuns, de mãos calejadas pelo trabalho de construção. Ramsay proporcionou-lhe uma resposta a essa desconfiança e um pretexto para que vissem a Maçonaria como digna de si: providenciou-lhe, à Maçonaria, nobres ancestrais!

Quase que de um dia para o outro, a nobreza e a intelectualidade francesa dedicaram-se a esta novidade, reformulando-a a seu gosto: em pouco tempo, mais de 1.100 graus foram inventados, agrupados em mais de cem ritos. A maior parte deles teve uma existência efémera, mas, entre os que sobreviveram, contavam-se os 25 graus do Rito de Perfeição, antecessor direto do Rito Escocês Antigo e Aceite.

O maçom Andrew Michael Ramsay, com o seu famoso Discurso, inadvertidamente mudou o curso da História da Maçonaria, ao inspirar a criação dos Altos Graus, daí vindo a ocorrer uma evolução que veio a culminar no Rito Escocês Antigo e Aceite.

Fontes:

http://www.chevalierramsay.be/chevalier-andrew-ramsay/
http://en.wikipedia.org/wiki/Andrew_Michael_Ramsay


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

OS ESTRANHOS CONCEITOS DE REGULARIDADE E IRREGULARIDE

OS ESTRANHOS CONCEITOS DE REGULARIDADE E IRREGULARIDADE


                                                                                              --- José Castellani ---

Tem-se a impressão de que existe, em Maçonaria, hoje em dia, uma verdadeira obsessão, por um lado, pela “regularidade” maçônica, e uma verdadeira preocupação, por outro lado, com a “irregularidade”.
Na realidade, o que é regular e quem é regular?
Jean Baylot, em “Dossier Français de la Franc-Maçonnerie Régulière”, Editions Vitiano, Paris – 1965, como membro da Grande Loja Nacional Francesa, aborda a regularidade apenas do ponto de vista metafísico, ou melhor, da obrigatoriedade da crença em Deus, tendo em vista a maçonaria “irregular” francesa, representada pelo Grande Oriente da França, que, em 1877, através de uma grande reforma dogmática , suprimiu a obrigatoriedade da crença em Deus --- mas não a crença --- julgando que os padrões religiosos do ser humano são de foro íntimo e não podem ser impostos, em respeito à mais absoluta liberdade de consciência. Por essa atitude, o Grande Oriente foi anatematizado pela Grande Loja Unida da Inglaterra --- a “Mater” maçônica --- que, depois, criaria a Grande Loja Nacional Francesa, dando, a esta, o seu reconhecimento de regularidade e “condenando” o Grande Oriente da França à irregularidade, embora ele seja a maior Obediência maçônica francesa.
Ora, mas se o conceito de regularidade é a obrigatoriedade da crença em Deus --- de acordo com o deturpação feita, em 1815, no texto original das Constituições de Anderson, de 1723 --- por que a Grande Loja Unida da Inglaterra não reconhece e não dá o cunho de regularidade a dezenas de Obediências que adotam a regra e rezam pelo catecismo inglês? No caso específico do Brasil, por que a “mater” inglesa não dá o cunho de regularidade aos Grandes Orientes Independentes e por que não o deu, até há muito pouco tempo, a todas as Grandes Lojas Estaduais? Por que, se estas Obediências cumprem os demais requisitos expostos nos “Oito Princípios de Regularidade”, emanados da Grande Loja inglesa, embora alguns deles sejam rançosos e caducos?
Mas, em questão de regularidade, a maçonaria inglesa tem uma rival de peso, que também impõe a sua vontade : a maçonaria norte-americana. Assim, existem Obediências e Lojas que são consideradas regulares por uma, mas não pela outra, e vice-versa. E qual é o motivo? Não se sabe, já que o dogmático, comprovadamente, é furado. Nos Estados Unidos é editada, a cada ano, a “List of Lodges”, contendo todas as Lojas regulares --- na visão norte-americana --- do mundo. E, quando algum obreiro, de qualquer parte do mundo, chega, representando uma Loja, se ela não estiver na “List of Lodges”, ele poderá ir passear, porque não entrará em Loja nenhuma do local. Quem deu tal poder à maçonaria norte-americana, de julgar quem é “regular”, ou não? E quem o deu à Inglaterra, a não ser o fato dela ter criado a moderna maçonaria e ter aberto “franchising”, exigindo, dos franquiados, absoluta vassalagem ?
Por aí se pode ver como são estranhos os conceitos de regularidade e de irregularidade, que só servem para dividir, ainda mais, uma maçonaria, que, por definição, deveria ser unida.

RECONHECIMENTO E REGULARIDADE MAÇÔNICA

RECONHECIMENTO E REGULARIDADE MAÇÔNICA
INTRODUÇÃO
A Loja Maçônica Cel. José Persilva, por ser uma Loja de Pesquisa, dedica-se à  produção de artigos que visam contribuir para o esclarecimento de temas importantes, os quais vêm preocupando a comunidade maçônica em geral.
Devido à grande quantidade de lojas e potências maçônicas espalhadas pelo planeta, estabeleceu-se uma discussão sobre quem dispunha de autoridade para  reconhecer uma loja ou potência maçônica como regular.
Este é um tema realmente  importante, que deve ser esclarecido, face as sucessivas divergências que costumam  ocorrer entre as diversas Lojas e potências: Quem é regular e quem pode ser  considerado maçom?
Estudos neste sentido vêm sendo realizados, e contam com a valorosa contribuição dos irmãos: José Vicente Menezes, Hiroito Torres Lage, Alceny José  Mendes, José Wyllen Fontes e Elias Mansur Neto, que elaboraram trabalhos sobre o  tema, com palestras apresentadas em reuniões da Loja Maçônica José Persilva. 
Com o propósito de apresentar uma contribuição ainda mais efetiva, recorremos  a outras fontes, que se encontram listadas na relação de autores consultados, ao final  deste artigo.
OBJETIVO
 Fornecer informações sobre Reconhecimento e Regularidade maçônica, de modo  a permitir que cada membro possa avaliar sua a real importância.
DESENVOLVIMENTO
O mundo maçônico está dividido em dois blocos. De um lado, estão as  potências Regulares, ou seja, aquelas que possuem a chancela da Grande Loja Unida da  Inglaterra (GLUI) e, do outro, as Irregulares, potências que não reconhecem a GLUI  como instituição reguladora da Maçonaria Universal. 
Dentre as regras de regularidade e reconhecimento que a GLUI tenta impor,  algumas têm origem na maçonaria operativa, mas outras  foram criadas após 1717, e  tinham por objetivo submeter as potências da maçonaria mundial  sob a tutela daquela  instituição. O critério que a GLUI utiliza para reconhecer uma potência maçônica é  complexo e, por vezes, até incoerente. As contradições são muitas. Segundo as palavras  do ir:. Bartlomeu M. dos Santos, MI, da ARLS Cavaleiros e Antares: 
A Grande Loja Unida da Inglaterra vê-se hoje obrigada a aceitar que a poderosa Maçonaria  Norte Americana emita Warrants (certificados) de “regularidade”, por tabela. E tem mais: em  situação recente, a Inglaterra retirou o reconhecimento do Grande Oriente da Itália (dirigido por  Virgilio Gaito), e os EUA ( 1994 ) o manteve. Situação semelhante ocorreu na Grécia.
Tal balbúrdia nos obriga a buscar respostas para as seguintes perguntas: a) o que  é Reconhecimento e Regularidade? b) Quais documentos maçônicos abordam este tema, 2  e quais autorizam uma instituição maçônica a reconhecer outras? c) Será que os critérios  de reconhecimento e  regularidade estão baseados nos Landmarks ? 
Ao explorarmos este tão polêmico tema, tentaremos responder a estas e a outras  questões, analisando com profundidade o porquê desta divisão imposta pela GLUI, de  modo a nos certificarmos de sua validade.  
Definição de  regularidade e  reconhecimento –  1) Regularidade: os
dicionários fornecem as seguintes designações para  este verbete: “que e ou que age  conforme as regras, normas, as leis, as praxes; relativo a regra”. 2) Reconhecimento:  também segundo o vernáculo: “declarar (um governo)  reconhecido legitimamente;  admitir como bom, verdadeiro ou legitimo; admitir como certo; admitir como legal.” 
Para a GLUI,  Regularidade  e  Reconhecimento são condições distintas: uma  potência pode ser regular e não ser reconhecida. Em contrapartida, se uma potência não for regular, ela não poderá ser reconhecida. Desta forma, segundo aquela instituição, a  primeira providência para o reconhecimento de uma potência é certificar-se de sua  regularidade.
Documentos históricos – Os documentos datados de 1248 a 1782 (Estatuto  de Bolonha, Manuscrito Regius, Manuscritos de Cook, etc.) tratam de assuntos  importantes, tais como comportamento dos maçons no  trabalho e no convívio social,  processos e prazos de admissão e permanência como aprendiz, tratamento das viúvas,  eleições, assembléias, etc. No entanto, nenhum deles nomeia qualquer loja ou instituição que tenha a incumbência de reconhecer uma potência como Regular. É  importante ressaltar que “somente após 1782 é que existem atas e documentos dos quais  se tem conhecimento e certeza de data ou ocasião, autor, objetivo e público alvo”, e que  em nenhum desses documentos há registros sobre qualquer acordo entre lojas ou  potências, informando que uma determinada potência  possa ter autoridade para reconhecer outra.
Reconhecimento e regularidade nos dias de hoje - Para um melhor entendimento desta questão, tomaremos como referência a Grande Loja Unida da  Inglaterra (GLUI). Estabelecida em 1717, e considerada como a responsável pelo  aparecimento da Maçonaria Especulativa, a GLUI se julga no direito de controlar a  maçonaria em todo o mundo. Aquela instituição inglesa determinou que o primeiro  requisito para o Reconhecimento de uma potência maçônica é que esta seja  Regular.
Desta forma, em  4 de setembro de 1929, a GLUI declarou os seguintes Princípios de Regularidade:
1- A crença num DEUS revelado; o Grande Arquiteto do Universo. 
2- Fazer juramentos sobre o Livro da Lei.
3- Trabalhar somente na presença das três grandes luzes: o Livro Sagrado, o Esquadro  e o Compasso.
4- Abster-se de discussões políticas e religiosas em Loja.
5- Somente admitir membros do sexo masculino.
6- Ser soberana no exercício de sua autoridade sobre as Lojas Azuis e seus graus  (aprendiz, companheiro e mestre). 3
7- Respeitar as tradições. Ou seja, fazer com que em sua obediência sejam respeitados  os  Landmarks, os antigos regulamentos e os usos e costumes praticados pela  Franco-maçonaria.
8- Ser regular em sua origem, o que pressupõe ter sido obrigatoriamente fundada por  uma potência já constituída, que possua pelo menos  três lojas regularmente  consagradas por uma Potência Regular.
E quanto ao reconhecimento? Quais são os critérios? Parece que não existem  critérios estabelecidos para se reconhecer uma loja ou potência. Se existem, não foram divulgados; e se não foram divulgados, não devem ser  transparentes.
Potências maçônicas não reconhecidas pela GLUI – A maioria das potências regulares do mundo não é reconhecida pela GLUI. Por exemplo, no Brasil  somente são reconhecidas o Grande Oriente do Brasil e a Grande Loja dos estados de  São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. As demais Grandes Lojas do Brasil  não são reconhecidas pela GLUI. Também não o são todos os  Grandes Orientes estaduais da COMAB no Brasil. A França possui atualmente treze potências maçônicas,  das quais somente uma é reconhecida pelo GLUI.  Detemo-nos por aqui, pois a lista é  interminável.
Cabe ainda salientar que os critérios estabelecidos pela GLUI são também muito  complexos, o que torna quase impossível a sua aplicação. Como exemplo desta  complexidade, tomemos o princípio da territorialidade, o qual determina que somente  uma potência por país pode ser reconhecida. Sua aplicação, na prática é tão controversa  que, no território francês, somente a Grande Loja Nacional da França (GLNF) foi  reconhecida, ao passo que nos EUA são reconhecidas  mais de cinqüenta potências  estaduais. Diante de tal fato, é inevitável questionar: por que somente a GLNF foi  reconhecida na França? Existiria alguma regra especial para os americanos, velhos  aliados da Inglaterra? 
Os Landmarks – O Ir. Michael A. Botelho, grau 33, presidente do Conselho de  Kadosh de Arkansas, EUA, afirmou em artigo recente que “saber o que é e o que não é  importante nos  Landmarks é uma das questões mais debatidas atualmente.” Segundo  ele, o termo “Landmarks” foi criado por Albert Mackey, em 1865, quando o eminente  escritor declarou: “os antigos e universais costumes da Ordem, aprovados e implantados  pela autoridade competente, vêm de uma época tão distante que não foi possível  localizar registros escritos a seu respeito ao longo da história”. 
Assim, Mackey definiu três requisitos básicos dos Landmarks, os quais continuam a  ser adotados até hoje: 1) universalidade; 2) irrevogabilidade; 3) existência desde tempos  imemoriais.  
Ainda, segundo o ir: Michael Botelho, em 1856, o Dr. Albert Gallatin Mackey, grau  33, tentou implantar os atuais Landmarks conforme a ótica de sua época, definindo um  total de vinte e cinco  Landmarks. Sete anos mais tarde, em 1863, George Oliver  publicou o livro Freemason’s Treasury, no qual listou quarenta Landmarks. No século  passado, algumas Grandes Lojas americanas se lançaram na difícil tarefa de quantificá-los, o que gerou o seguinte resultado: As Lojas do  Estado da Virgínia Ocidental definiram sete; as Lojas de Nova Jersey a Nevada, dez;  e as do Kentuck encontraram  cinqüenta e quatro.
 4 O ir: Joseph Fort Newton, em seu livro The Builders, tentou definir os  landmarks    
com uma simples declaração: “ A certeza de que Deus é pai, a irmandade dos homens, a  lei moral, a regra de ouro, e a esperança da vida eterna”. Dentro de uma linha de  raciocínio semelhante, encontramos os seis Landmarks listados por Roscoe Pound:
1- A crença num ente supremo.
2- A crença na imortalidade da alma.
3- A obrigatoriedade de se manter o Livro da Lei no altar da Loja.
4- A manutenção da Lenda de Iran no terceiro grau.
5- A manutenção do simbolismo herdado da maçonaria operativa.
6- O maçom tem de ser livre e de bons costumes.
Como é possível observar pelo acima exposto, não se sabe com certeza quantos e  quais são os verdadeiros Landmarks, ficando, por conseguinte, muito difícil adotá-los  como referência para se estabelecer critérios de Reconhecimento e Regularidade    O componente político do problema - Algum tempo depois do  nascimento da maçonaria especulativa, a antiga e bem conhecida rivalidade política  entre a França e a Inglaterra veio à tona. O Grande Oriente da França (GOF), seguindo  as tradições progressistas de seu país, e sob a alegação de que não queria discriminar os  homens livres e de bons costumes, retirou de sua Constituição a obrigatoriedade de se  crer em Deus para que um candidato pudesse ser feito maçom. Como conseqüência, o  GOF foi  excomungado pela GLUI.
Segundo as palavras do ir:. Bartlomeu M. dos Santos, da ARLS Cavaleiros e
Antares, “a citação da Bíblia como  Livro Sagrado foi um dos obstáculos históricos que  provocaram o cisma entre a Maçonaria Francesa e  a Maçonaria Inglesa”. Oswald Wirth  complementa-o dizendo que “  os anglo-saxões, ao exigirem a Bíblia, e somente a  Bíblia, negam a universalidade da Maçonaria e, se encararmos o problema desse ponto de vista, a ‘irregularidade’ está do lado deles, e não do nosso”. Wirth afirmava ainda:  “Somos obrigados a nos inclinar diante dos fatos. Os anglo-saxões querem ter sua  Maçonaria particular e renunciam ao universalismo proclamado em 1723”.  
A maçonaria, não sendo propriedade de ninguém, não pode ser controlada por  um poder central mundial. A esse respeito, Morivaldo C. Fagundes ressalta: 
Embora a maçonaria seja universal no sentido filosófico e doutrinário, não o é  administrativamente, pois não possui uma organização mundial única. Nessas  condições, em cada país e muitas vezes, em cada estado membro ela se organizou  soberanamente, com ampla e total autonomia administrativa. O fato ensejou, como não  poderia deixar de acontecer, o aparecimento do fenômeno político dos  reconhecimentos ou tratados de amizade interpotências, em conseqüência do qual  surgiu o discutido e discutível conceito de regularidade maçônica.
Voltando à questão do Princípio da Regularidade, analisemos então a sua legitimidade, segundo o estabelecido pela GLUI:
Os Princípios 1, 2, 3, 4 e 5, anteriormente mencionados, parecem ser oriundos da  Maçonaria operativa; são universais e compatíveis com o que se entende por  Maçonaria  Universal. O Princípio 7, que exige respeito às tradições, parece ter sido baseado nos  chamados Old Charges, e o Princípio 6 trata de uma questão administrativa. 5 Conforme os critérios unilateralmente estabelecidos pela GLUI, todas as lojas e potências do Brasil, que não aceitam mulheres e atuam em conformidade com os oito princípios estabelecidos por aquela instituição,  são regulares. Logo, a pergunta que  precisa ser respondida é: Porque a COMAB (GOMG e demais orientes estaduais), a  GLMMG e tantas outras entidades não são reconhecidas?. 
Nos documentos da maçonaria operativa não se encontra nenhum registro onde  qualquer loja ou instituição tenha autoridade para  reconhecer outras como regulares.
Esta conclusão também é válida para os documentos produzidos pela maçonaria especulativa.
Finalmente, vale ressaltar que a GLUI, ao exigir a  adoção da Bíblia como condição  indispensável para que uma Loja ou potência possa ser reconhecida, nega a  universalidade da Maçonaria. De acordo com a tradição maçônica, é a presença, não  somente da Bíblia mas também do Alcorão, ou de qualquer outro Livro Sagrado, que  garante a universalidade da maçonaria. Se consideramos a questão por este lado, chegaremos à conclusão de que quem é irregular é a GLUI.
CONCLUSÕES
Em nenhum dos documentos históricos da maçonaria há registros sobre qualquer  acordo entre lojas ou potências, informando que uma determinada potência possa ter  autoridade para reconhecer outra.
Não sabe com certeza quantos e quais são os verdadeiros Landmarks, ficando, por  conseguinte, muito difícil adotá-los como referência para se estabelecer critérios de  Reconhecimento e Regularidade.  
A maçonaria não é propriedade de ninguém, não pode, portanto, ser controlada por  um poder central mundial.
Uma vez que nem a GLUI e nem qualquer outra potência tem autoridade para  exercer o Reconhecimento, o fato de ser ou não ser reconhecido por ela ou por qualquer  outra potência do planeta não é significante. O que importa é que cada loja ou potência  esteja ciente de sua idoneidade e espírito maçônico, de forma a poder reconhecer a si  mesma como membro da Maçonaria Universal. O restante vem por acréscimo.
Elias Mansur Neto
Past Master Imediato da Loja Maçônica Cavaleiros Templários e membro efetivo da Loja Maçônica  Cel José Persilva. 
LITERATURA CONSULTADA 6
1. DA SILVA, José Vicente Menezes.  Regularidade e Reconhecimento
Maçônico - Trabalho apresentado em Loja  
2. LAGE, Hiroito Torres.  A Regularidade e o Reconhecimento
Maçônicos - Trabalho apresentado em Loja. 
3. MENDES, Alceny José.  Reconhecimento e Regularidade:
reconhecendo a certeza da dúvida - Trabalho apresentado em Loja
em 17/10/06.
4. FONTES, Wyllen José –  Da Regularização e do Reconhecimento
Maçônico, de acordo com as Normas da Maçonaria Universal  -
Trabalho apresentado em Loja. 
5. BOTELHO, Michael A., gr 32, K.C.C.H., Os Landmarks DOS SANTOS,
Bartlomeu Martins. Irregularidade, um aspecto meramente político. (

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Iniciação e Ritual - HT

À GLÓRIA DO G.’.A.’.D.’.U.’.
V.’.M.’. e vós todos, meus Irmãos e Irmãs, em vossos graus e qualidades,
Iniciação e Ritual
Leitura do Livro I ― Poimandres ― Hermes Trimegisto
Uma consciência que nos liga operativamente ao divino
Iniciar: começar.
Iniciar-se é começar, empreender, ser no presente. Uma presença, uma consciência que nos liga operativamente ao divino.
No centro onde os caminhos se cruzam, onde tudo é UM, lá onde se efetiva na consciência o reencontro com o eixo vertical no plano horizontal.
Iniciar-se é sempre começar e não continuar
... como antes
... para depois
Iniciar-se
... um eterno presente!
Um processo alquímico e íntimo.
Trata-se de um processo alquímico: um processo íntimo e sutil. Para que haja passagem a estados sucessivos, é preciso que efetivamente exista mudança, Iniciação, presença, consciência. É preciso que o processo seja empreendido, que comece verdadeiramente.
E por isso, o papel do processo iniciático faz com que os fenômenos aparentes e figurados pelo Ritual se desdobrem em planos mais sutis.
“Senhor, ainda outra vez eu vos digo, toda cerimônia maçônica se desdobra em planos sutis de realização oculta.”

Nostalgia e Sono
A nostalgia aplica-se ao passado como ao futuro: um passado que não será mais.
Um passado que não foi aquilo que teria podido ser.
Um futuro que já
De modo previsível
Não será tal ou qual
... que será, pois, reunido ao passado
...àquele que teria podido ser.
Tantos estados e processos mentais que manifestam a condição humana em seu estado de declínio e encerramento no passado matéria, dual: pode-se dizer em estado de adormecimento!
Mas Deus, que nós amemos este estado!
... “a natureza sorriu de amor, porque ela viu a beleza do homem na água e sua sombra na terra. E ele, percebendo na água o reflexo de sua própria forma, toma-se de amor por esta e deseja possuí-la. A energia acompanha o desejo, e a forma privada de razão foi concebida. A natureza apodera-se de seu amante, envolve-o inteiramente e eles se unem em amor recíproco. Eis por que, de todos os seres que vivem sobre a terra, o homem é duplo, mortal pelo corpo, imortal por sua própria essência. Imortal e soberano de todas as coisas, ele é submisso ao destino que rege aquilo que é mortal; superior à harmonia do mundo, ele é cativo de seus laços; macho e fêmea como seu pai e superior ao sono, ele é dominado pelo sono” (H, 3R)
Sabedoria, Força e Beleza
É pela consciência que somos ligados ao divino.
Consciência e Inconsciência só têm sentido no plano operativo.
Não têm sentido no presente.
A presença
O espontâneo
O jorrar
Não têm sentido porque sinalam a participação ou o adormecimento do ser em relação à sua reintegração... Em relação ao seu regresso... Sua ascensão em direção ao divino.
A consciência não tem sentido senão quando ela ultrapassa em Sabedoria, Força e Beleza o encanto da experiência que conduzimos sobre a terra,
Movimento iniciático, estado vibratório.

Não se trata de uma consciência do tipo inteiramente mental, eventual ou puramente especulativa.
A manifestação da tomada de consciência sobre os planos da personalidade desdobra-se em planos mais sutis e opera, então, transformações propriamente iniciáticas.
Para manter ou provocar esse movimento iniciático, importa manter um estado vibratório, uma oscilação propícia
... o símbolo, a alegoria permitem provocar a solicitação de diferentes planos do ser; de seus aspectos matéria e daqueles do espírito: inteligência, razão, crença, imaginação.
O símbolo não é nada se não vibra, se não se inicia por um movimento interior que vai manter o movimento iniciático da consciência, no seio da qual vai se suceder indefinidamente a alternância do fixo tornado volátil... tornado fixo por sua vez.
E durante nosso sono
A criação se deslinda muito bem sem nossa consciência e parece nos inscrever de todas as maneiras, de fato, em todas as suas manifestações.
A natureza funciona muito bem, segundo as leis da harmonia que lhe são próprias, a despeito de nossas considerações ou de nossos debates sobre o consciente, o inconsciente... o supra consciente...
Sobre o plano da manifestação “Nada se perde, nada de cria, tudo se transforma”.
As leis da harmonia regem o mundo.
Nosso consumo, nossas produções e nossas poluções se integram, se desintegram, tomam de empréstimo e restituem...
A polução retarda nossa consciência, aniquila-a; é nosso livre arbítrio que ela capitaliza, nossa Iniciação que ela freia, pois que ela nos fixa na negação, cegamente.
“Eis aqui os arcanos da Gnose
...que aqueles que têm olhos
E ouvidos”
Da Manifestação à Essência
O Ritual, se ele for mais ou menos inspirado, é de qualquer sorte transcrito pelo homem em sua condição terrestre, e em muito tomado de empréstimo ao mental, que dispõe principalmente de uma aproximação dual da criação e de um ambiente que ele “personaliza”.
Não se deve, todavia, negar ao ser humano, mesmo o dito “profano”, a memória esporádica de um conhecimento das coisas que ressurgem do divino.
O Ritual esforça-se para nos levar da manifestação à essência, entrar novamente em intimidade com aquele do qual é dito
“Tu que a natureza não criou”
Bom! Compreendeste bem que minha concepção de Iniciação, que transcorre velozmente com a primeira revelação de Hermes Trimegisto, nutria-se de um Ritual deísta!
Importância do Ritual
Que Ritual para qual Iniciação?
A maçonaria deve, sem dúvida, sua parte “universal” ao fato de que ela oferece uma profusão de Ritos que se unem, com algumas poucas exceções, sob a bandeira comum do G.’.A.’.D.’.U.’..
Não vou me deter sobre os fundamentos dos diversos Ritos que serão objeto, neste ano, de uma peça de arquitetura bem detalhada por um de nossos irmãos. Simplesmente parece claro que um Rito induz a um Ritual que suportará uma procura iniciática específica.
E é segundo cada um: escolhe-se o próprio Ritual ou se o descobre uma vez que se o pratica, segundo o grau de consciência na escolha e sua adequação à busca iniciática, sua eficácia mostrando-se então maior ou menor.

O Rito de Misraim
O Rito de Misraim funciona sobre a concepção do criador universal do qual emanam todos os poderes e todas as manifestações. Ele procede igualmente, em sua essência, suas aplicações e suas modalidades, da unidade trina. Ele se relaciona a concepções dos monoteísmos e liga-se diretamente ao hermetismo tal e qual sua expressão “as três revelações de Hermes” e pode prefigurar o Cristianismo.
... Quando o incenso se espalha
... Arquiteto de todos os Mundos, tu que disseste: “Eu criei todas as Formas com minha Palavra, quando ainda não havia nem céu nem terra”
… Antes da cadeia de união
Potência eterna e soberana que se invoca sob cem nomes diferentes, Arquiteto Supremo, Ordenador de todos os Mundos, neste Templo e em direção a Ti voltam-se nossos corações em sua fidelidade.
… No testamento filosófico
… Considerando que a Filosofia ensina a conceber, e a observação ensina a admitir a existência provável de uma Inteligência ativa em todo Universo, Inteligência cuja Luz elementar é provavelmente a primeira manifestação tangível, e um agente criador e organizador da Matéria Universal,
O princípio evocado é aquele da eternidade.
Ele não é fixado, porque é ele que fixa e que anima pelo presente, lugar da consciência, perfume de eternidade... Espírito dos seres e das coisas animando a matéria mergulhada no passado e futuro, noções fugidias, incompreensíveis.
O eixo Zênite Nadir é o eterno presente
Ele tenciona passado e futuro ― plano horizontal da manifestação ― e lhes permite então existir em consciência no círculo do Ouroborus, no exato local onde este morde a própria cauda: existir pelo despertar, a memória dolorosa que ressurge.
Iniciar-se é aprender a morrer.
Aprender a morrer
Remontar à origem
Aprender a viver em consciência, lembrando-se de que a vida engloba a passagem terrestre, de que o corpo é um empréstimo tomado à Dama natureza (a natura naturanda) que lhe será restituído
O intelecto divino entra no espírito
O espírito entra na alma
A alma entra no corpo
O fogo toma um invólucro de ar que se insufla na água que penetra a terra
... assim o fogo penetra a terra sem queimá-la
... Morrer
Após havê-la integrado, será preciso desintegrar o corpo que não é mais então animado, entregando seus constituintes à natureza.
A Ascensão em Direção ao Divino
Em tudo se desdobrando em planos mais sutis, as diversas viagens do candidato figuram e dão o ensinamento da morte do corpo e das paixões que se ligam à alma.
... Após o sopro do M.’. de Cer.’. nas faces do candidato
Senhor, esta viagem dá continuidade à série de purificações naturais que sofre a Alma humana em sua ascensão ao divino. Despojando sucessivamente os envoltórios sutis que recobrem esta faísca divina que denominamos alma...
… Poimandres à Inteligência
Tu me instruíste de tudo, como eu desejava, ó Inteligência; mas esclarece-me sobre a maneira como se faz a ascensão.
Primeiro, diz Poimandres, a dissolução do corpo material, entregando seus elementos a metamorfoses; a forma visível desaparece; o caráter, perdendo sua força, é entregue ao demônio; os sentidos retornam às suas fontes respectivas e confundem-se às energias (do mundo). As paixões e os desejos entram na natureza irracional; aquilo que permanece eleva-se assim através da harmonia (...)
Assim se justificarão então, talvez, para alguns, todas essas bizarrias, essas alegorias e este simbolismo que, quando não são bem aproximados, conjecturados, sub-ordenados e sinceramente explorados, tornam-se objeto da negligencia e da derrisão... E o Ritual, falto de sentido, podado, despojado, corre então todos os riscos de não mais preencher sua função iniciática.
Iniciar-se é empenhar-se. É escolher.
A pergunta formulada em diversas ocasiões
“Senhor, consentis em morrer para vossa vida passada?”
“Senhor, antes de dar prosseguimento a esta cerimônia, eu vos convido a refletir. Quereis?”
“... não vos arrependereis de nada daquilo que vos será imposto?”
“Aceitais fazer a terceira viagem? Senhor, aceitai?”
Iniciar-se é dissolver-se e ainda renunciar

Bebida do Esquecimento
Lenta, mas seguramente, a egrégora que anima e conduz nossa antiga Sociedade vos penetrará, sua vontade substituirá a vossa e, no próximo aniversário de vossa recepção, nada mais restará do homem que atualmente sois.
Purificação pela Água
Vós não sereis mais (...) que “semelhante ao cadáver que a mão do lavador de defuntos remexe como quer”
Enquanto sobre o adro
A Iniciação prossegue sobre o adro, no entrechoque entre as ferramentas e o ego!
Martela-se a pedra, o ego, para retirar-lhe as asperezas, suas fraquezas, para torná-lo forte uma vez dominado para que a pedra talhada participe do edifício.
Sobre o adro não se destrói, forma-se e forja-se (com o fogo exterior que não é o fogo alegórico do templo)
Enfim, meus irmãos (e minha irmãs), sobre o domínio da Iniciação que nos prende, e o espírito, o coração, os sentimentos, as emoções, e ainda nos provoca vertigens, mas às vezes nos retira da raiva e do escárnio
... Um pouco de beleza, de força e de sabedoria. O convite à viagem: ....
O 1º Reino é a existência antes da existência
O 2º Reino, reino deste mundo
O 3º Reino é o intervalo que atravessamos após a pequena e a grande morte.
O 4º Reino é a ressurreição sobre a terra que se desperta e o retorno à condição original.
O 5º Reino é o jardim e o fogo.
Saiba que desde que Deus criou os seres humanos e os fez surgir do Nada, eles não cessaram de ser viajantes. Eles não têm nenhum lugar onde repousar de sua viagem, a não ser no jardim e no fogo, e cada jardim e cada fogo é a medida de sua pessoa.
E tenho dito, VM.

La Heresia dos Cataros  por Wayne Purdin 15 Febrero 2014 Este artículo apareció en, New Dawn Nº 113 (marzo-abril 2009) d el Sitio Web NewDaw...