terça-feira, agosto 28, 2012


Dez condutas maçônicas



"Dez condutas maçônicas que, certamente, contribuem positivamente e protegem a nossa ordem das ações e das influências dos infiltrados.

1) Sirva à instituição e não à pessoas;
2) Quando for divergir, seja de idéias, propostas e condutas, mantenha-se imparcial e com honestidade, deixando de lado simpatias ou antipatias pessoais;
3) Chame sempre para você a responsabilidade de proteger e defender a instituição, não esquecendo que os nossos maiores inimigos, infelizmente, vestem avental;
4) Não se venda por medalhas, títulos, cargos, alfaias e elogios;
5) Quando for indicar um candidato, não seja um corretor de avental;
6) Seja parceiro fiel e leal da verdade e da justiça, assumindo a inteira responsabilidade do que falar, escrever ou fazer;
7) Nunca se esqueça que os exemplos falam mais do que palavras e que os Aprendizes, Companheiros e Mestres mais novos precisam de referências;
8) Não seja Maçom oportunista ou inconsequente, pois baixaria, truculência e contestação infundada e mentirosa não são compatíveis com as nossas virtudes e princípios, maculando os Templos Maçônicos;
9) Não olhe para um Irmão como se fosse seu superior hierárquico, porém respeite as autoridades maçônicas legalmente constituídas, bem como, se for necessário, exija delas, usando os caminhos e meios legais maçônicos, que desempenhem os seus cargos com dignidade, probidade, humildade e competência, pois não estarão fazendo mais do que sua obrigação;
10) Seja um obreiro útil, humilde, dedicado, competente, de atitude e instruído nos augustos mistérios da Arte Real, pois, caso contrário, poderá ser manipulado e inconscientemente prestar serviços para aqueles pseudo maçons que representam a anti-maçonaria.
Conclusão
Por entender que a conclusão tem caráter pessoal, convido os Irmãos leitores para que sejam co-autores deste artigo, pois, na Maçonaria, entre outras coisas, vim submeter minha vontade.

segunda-feira, agosto 27, 2012


Obrigações do Iniciado


Ao animal basta-lhe desejar viver e obedecer aos impulsos de sua natureza. Suas determinações são automáticas, sem a necessidade de deliberar sobre seus atos. O mesmo estado de ignorância encontra-se também na criança na qual ainda não despertou a consciência que lhe vai permitir distinguir o bem e o mal. Com o discernimento nasce a responsabilidade, e esta nos impõe certos deveres que, por sua vez, aumentam cada vez mais, à medida que nossa inteligência se desenvolve. Quem compreende mais perfeitamente é obrigado a conduzir-se de maneira diferente do bruto dotado apenas de instinto.

Muito bem: o Iniciado tenciona penetrar certos mistérios que escapam ao vulgo; sua compreensão abarca muito mais, e é-lhe, portanto, necessário submeter-se a certas obrigações menos indispensáveis ao comum dos mortais. Para conseguir a Iniciação devemos conhecer estas obrigações especiais e comprometermo-nos antecipadamente a uma escrupulosa conformidade para com as mesmas. Quais são, pois?

Em primeiro lugar, exige-se de todo candidato à Iniciação a estrita observância da lei moral. Deve-se compreender por isso que o futuro iniciado deve observar uma conduta irreprochável e gozar da estima de seus concidadãos. De outra parte, a moral humana não tem regras absolutas e sofre variações conforme o ambiente, de sorte que o iniciado deve se conformar aos usos correntes na sociedade. Seu dever primordial é viver em harmonia com seus concidadãos e observar escrupulosamente as leis que regulam a vida em comum.

O iniciado não se comportará como um super-homem desdenhoso da moral ordinária nem se considerará isento de qualquer uma das obrigações que pesam sobre o homem simplesmente honrado. Longe de querer alijar-se da carga normalmente imposta a todos, conformar-se-á, ao contrário, com aumentá-la na proporção de suas forças, tanto morais quanto intelectuais.

A Iniciação não nos instrui debalde nem sequer pelo gosto de instruir-nos. Ilumina a quem quer trabalhar, a fim de que o trabalho possa ser levado a cabo. Comecemos por aceitar um trabalho, depois demos prova de zelo e de constância em seu cumprimento, e teremos então direito à instrução necessária; mas nada receberá quem não tenha direito a essa instrução.

De nada servem as fraudes nessa matéria, e quem não merece a instrução não a recebe. Poderá, sem dúvida alguma, imaginar haver aprendido, mas, neste caso, não será mais que miserável joguete do falso saber dos charlatões do mistério. A verdadeira Iniciação não quer deslumbrar as pessoas com um brilho fictício. É austera, e ninguém pode obtê-la sem antes havê-la buscado na pureza de seu coração. Ao candidato é perguntado: Onde fostes preparado para ser recebido Franco-Maçom? Deve responder: Em meu coração. Com efeito, ele deve estar bastante resolvido ao sacrifício anônimo e não desejar outra recompensa que a satisfação de colaborar com a Magna Obra.

Na verdade, o homem não pode aspirar maior satisfação, já que, por sua participação na Magna Obra, tem consciência de divinizar-se para fazê-la divina; eis aí o resultado a que tende a Iniciação e, portanto, o mínimo que se pode exigir do postulante é que observe, na vida, irreprochável conduta e saiba permanecer honrado no lugar, — por modesto que seja, — que ocupa entre seus concidadãos. Deverá justificar seus meios de existência, a lealdade de suas relações e não se admitirá que engane ao próximo nem que trate com leviandade as promessas feitas sob o império da paixão. Sofrer honradamente as conseqüências de seus atos sem se esquivar covardemente aos seus resultados é conquistar a simpatia dos Iniciados e merecer sua ajuda para evitar as dificuldades.

Uma vez satisfeitas as condições prévias de moralidade, garantidas pelo bom renome do candidato, sua primeira obrigação formal concerne à discrição. Deve comprometer-se a guardar silêncio em presença de profanos, posto que a Iniciação confia segredos que não devem ser divulgados.

Trata-se, em primeiro lugar, de um conjunto de tradições que não devem cair em domínio público. São, em sua maior parte, sinais convencionais através dos quais os Iniciados se reconhecem entre si. Seria desonroso divulgá-los, e todo homem digno deve guardar os segredos que lhe foram confiados. Além disso, o indiscreto resultaria culpado de impiedade, a ponto de os verdadeiros mistérios não lhe poderem ser confiados de maneira alguma.

Com efeito, os pequenos mistérios convencionais são simplesmente símbolos de segredos muito mais profundos, e o Iniciado deve descobri-los conforme o programa da Iniciação. Estamos agora muito distantes das palavras, atitudes, gestos ou ritos mais ou menos complicados. Tudo o quanto afeta nossos sentidos não pode, de maneira alguma, traduzir o verdadeiro segredo, e ninguém jamais o divulgou, por ser de ordem puramente espiritual. A força de aprofundar, o pensador concebe aquilo que ninguém conseguirá penetrar sem observar certa disciplina mental. Esta disciplina é a dos Iniciados. Através das alusões simbólicas podem comunicar entre si seus segredos, mas nada, absolutamente, poderá entender quem não esteja preparado para compreendê-los. De outra parte, nada é mais perigoso que a verdade mal compreendida, daí a obrigação de calar imposta aos que sabem.

Ensinai progressivamente, de acordo com as regras da Iniciação ou, do contrário, calai. Sobretudo, cuidai de não fazer alarde de vosso saber. O Iniciado é sempre discreto: não pontifica, foge ao dogmatismo e esforça-se em todas as circunstâncias e em todo lugar para encontrar uma verdade que têm consciência de não possuir.

Bem ao contrário das comunidades de crentes, a Iniciação não impõe nenhum artigo de fé e limita-se a colocar o homem frente ao que pode ser comprovado, incitando-o a adivinhar o enigma das coisas. Seu método reduz-se a ajudar o espírito humano em seus esforços naturais e espontâneos de adivinhação racional. Opina, além disso, que o indivíduo isolado expõe-se a um fracasso ao aventurar-se com temeridade no domínio do mistério. Esta exploração é perigosa, o caminho está cheio de obstáculos e, de ambos os lados, sobejam os abismos. Quem sozinho empreende a viagem corre o risco de deter-se logo, mas deve-se levar em conta que ninguém ficará abandonado às suas próprias forças se merecer assistência, porque a mútua ajuda é o primeiro dever dos Iniciados.

Tende as crenças que melhor vos pareceis, mas senti-vos solidários com vossos semelhantes. Tende a firme vontade de ser útil, de desenvolver vossa própria energia para revertê-la em benefício de todos; sede completamente sinceros para com vós mesmos em vosso desejo de sacrifício e, então, tereis direito a que os guias que aguardam no umbral sagrado venham a conduzir os legítimos solicitantes.

Todavia é preciso deixar-se guiar com confiança e docilidade, fortalecido por esta sinceridade que impõe o respeito e também traz consigo responsabilidades de muita gravidade. Estabelece-se um verdadeiro pacto entre o candidato e seus iniciadores: se aquele preencher os requisitos, devem estes lhe dispensar sua proteção e preservá-lo dos tropeços que podem afastá-lo do caminho da luz.

Tende muito em conta que os guias permanecem invisíveis e evitam impor-se. Nossa atitude interna pode atraí-los, e acodem à chamada inconsciente do postulante, desejosos de suportar as cargas que a Iniciação impõe. Tudo depende de nossa coragem, não em sofrer algumas provas meramente simbólicas, senão que para sacrificarmo-nos sem reservas.

Ninguém pode se iniciar lendo ou assimilando doutrinas por sublimes que sejam. A Iniciação é essencialmente operante; requer pessoas de ação e rechaça os curiosos. É preciso consagrar-se à Magna Obra e querer trabalhar para ser aceito como aprendiz, em virtude de um contrato formal em realidade, como se levasse estampada vossa assinatura.

As obrigações contraídas são o ponto de partida de toda verdadeira iniciação. Guardai-vos, portando, de bater à porta do Templo, se não houverdes tomado a decisão de ser, daqui para diante, um homem diferente, disposto a aceitar deveres maiores e mais imperativos que os que se impõem à maioria dos mortais. Tudo fora ilusão e engano ao querer ser iniciado gratuitamente, sem pagar de nossa alma o privilégio de ser admitido a entrar em união fraternal com os construtores do grande edifício humanitário, cujo plano traçou o Grande Arquiteto do Universo.


Oswald Wirth

sexta-feira, agosto 24, 2012

 
Divertimento e Silêncio

Osho
   
 
     Querido Osho,
     No Ocidente, a celebração está associada à idéia americana de divertimento que é sinônima de barulho, música alta, ir ao cinema, fumar, fazer sexo e liberação de energia, enquanto que silêncio e serenidade estão automaticamente associados a tédio e excessiva acumulação de energia, o que resulta em tensão e ansiedade. Você poderia dizer algo a respeito de silêncio, celebração e vida?
      Chidananda, a questão que você levantou tem muitas implicações. Não é uma simples questão; ela compreende muitas questões importantes. Eu gostaria de entrar em cada dimensão da questão e somente então você será capaz de encontrar a resposta. 
     A primeira coisa para se lembrar é que o homem compreende dois mundos, um que o leva para fora e o outro que o leva para dentro. O homem é uma dualidade: ele é um corpo e é uma alma. E por causa desta tremenda dualidade, surgem todos os problemas do mundo. A dualidade não é apenas uma. Ela é aquilo que chamamos de “dualidade gestalt”. Numa dualidade gestalt você nunca vê ambos os mundos juntos. Se você escolhe ver um, o outro fica esquecido. Como exemplo, eu tenho falado a respeito de um pequeno livro de crianças onde existe um desenho feito com linhas simples, mas nessas linhas existem duas possibilidades: se você fixar seus olhos no desenho, você pode ver ou uma velha mulher ou uma bela garota. Você consegue ver cada uma separadamente. Se você olhar fixamente para a velha mulher, de repente você perceberá uma estranha mudança: a velha mulher desaparecerá e uma bela garota estará diante de você. 
      Se você persistisse em olhar fixamente... mas em geral os olhos não olham fixamente, eles se movem continuamente. O movimento é intrínseco aos seus olhos. Eles ficam cansados de olhar fixamente para uma coisa. Eles estão sempre em busca de algo novo. Por causa disso, você logo percebe a bela garota desaparecendo e a velha mulher voltando novamente ao seu lugar. Ambas são feitas com as mesmas linhas, apenas as combinações são diferentes, mas você não consegue ver ambas ao mesmo tempo. Isto é impossível. Porque se você ver a garota, onde estarão as linhas que fazem a velha mulher? E se você ver a velha mulher, você não terá linhas extras para criar a garota. Você consegue ver cada uma separadamente, mas não consegue vê-las juntas. Isto é dualidade gestalt, e esta é a realidade do homem.
      O Oriente tem visto o homem somente como uma alma, como uma consciência, como um ser introvertido. Mas porque foi escolhida uma gestalt, a outra foi negada. É por isto que no Oriente, por séculos, os místicos têm negado consistentemente a realidade do mundo. Eles dizem que ela é apenas um sonho, que é maya, uma ilusão. Que esta realidade do mundo é feita da mesma matéria que os sonhos são feitos. Aquilo não está verdadeiramente ali, é apenas uma miragem, uma aparência. O Oriente tem negado o lado externo – e tem que negar devido à necessidade interna da dualidade gestalt.
      O Ocidente escolheu o mundo externo e tem que negar o mundo interno. O homem é visto apenas como um corpo. Psicologia, biologia e quimica, mas não uma consciência, não uma alma. A alma é apenas um epifenômeno. E porque somente o lado externo é considerado como sendo verdadeiro, foi possível desenvolver a ciência no Ocidente. Tecnologia, milhares de aparelhos, possibilidades de pousar na lua e no vasto universo que circunda você. Mas mesmo conhecendo tudo isto, tem havido um profundo vazio na mente ocidental: algo está faltando.
      É difícil para a lógica ocidental localizar com precisão o que está faltando, mas é absolutamente certo que algo está faltando. A casa está cheia de convidados, mas está faltando o anfitrião. Você tem todas as coisas do mundo, mas você não está ali. O resultado é uma tremenda miséria. Você tem todos os prazeres, todo o dinheiro, tudo o que o homem jamais sonhou, e ao final de séculos de esforços, de repente descobre que você não existe. O seu interior está oco, não há ninguém.
      O Oriente também tem enfrentado sua própria miséria. Ao pensar que o mundo externo não é verdadeiro, não há qualquer possibilidade de progresso científico. A ciência tem que ser objetiva, mas se os objetos são apenas aparências, ilusões, qual o sentido em dissecar ilusões para tentar descobrir os segredos da natureza? Conseqüentemente o Oriente permaneceu pobre, faminto e submetido a todo tipo de escravidão por séculos.
      Estes dois mil anos de escravidão não foram por acaso. O Oriente estava preparado para isto. Ele aceitou isto. O que interessa num sonho, se você é o senhor ou o escravo? O que interessa, se no sonho você está sendo servido com um alimento delicioso ou se você está com fome? No momento em que você acorda, ambos os sonhos se revelarão inválidos. O Oriente consentiu em permanecer morrendo de fome, em ser escravizado, e a razão é que ele escolheu uma gestalt diferente: o verdadeiro é o interior.
      O Oriente aprendeu como estar silencioso e em paz, para curtir a felicidade que surge quando você mergulha fundo em sua interioridade. Mas você não consegue compartilhar isto com outra pessoa; isto é absolutamente individual. No máximo, você consegue falar a respeito. Assim, por milhares de anos, o Oriente tem falado a respeito de espiritualidade, consciência, iluminação, meditação e externamente tem permanecido um mendigo, doente, faminto e escravizado. Quem vai querer ouvir esses escravos e suas grandes filosofias? O Ocidente simplesmente tem rido disso. Mas o riso não tem sido só de um lado. O Oriente também tem rido ao ver que as pessoas estão acumulando coisas e perdendo a si mesmas.
      Por milhares de anos nós temos vivido num estado de mente muito estranho e esquizofrênico. 
      Chidananda, você disse, ‘No Ocidente, celebração está associada com a idéia americana de divertimento.’ Isto traz uma outra implicação. Somente um homem miserável necessita de divertimento. Assim como um homem doente precisa de medicamento, um miserável necessita de divertimento. Isto é apenas uma estratégia muito engenhosa para evitar a sua miséria.
      A miséria não é evitada; você somente se esquece por um tempo que é miserável. Sob a influência de drogas, do sexo ou sob a influência do que você chama de divertimento, o que na verdade você está fazendo? Você está escapando de seu vazio interior. Você está se envolvendo em todo tipo de coisas. Uma coisa da qual você sente medo é do seu próprio ser.
      Isto tem criado uma certa loucura, mas porque no Ocidente todo mundo está no mesmo barco, isto se torna muito difícil de ser reconhecido. Milhões de pessoas estão assistindo futebol americano, e você chama essas pessoas de inteligentes? Então, quem você vai chamar de retardado? E não é que essas pessoas estejam apenas envolvidas em jogos como o futebol americano, elas estão pulando, estão gritando, estão brigando. E porque não existem estádios suficientemente grandes para acomodar todo o país, todo mundo está sentado grudado em sua cadeira diante da televisão. E elas estão fazendo as mesmas coisas estúpidas: sentadas em suas cadeiras, gritando... 
      Eu conheço um homem que, porque seu time estava perdendo, ficou tão enlouquecido que quebrou sua televisão. Eu estava com este homem e lhe disse, ‘Você está preparado para ser internado num asilo de loucos? Em primeiro lugar, futebol americano deveria ser para crianças. Você já passou dessa idade, mas mentalmente você não tem mais que doze ou treze anos. E o que você fez com sua televisão me leva a suspeitar que você não é apenas retardado, mas louco também.’ (...)
      As pessoas têm se tornado tão voltadas para fora que não conseguem, nem mesmo por um simples momento, sentar em silêncio. Esta é a coisa mais difícil no mundo. As pessoas não param quietas. Qual é o medo? O medo é que você pode encontrar o seu vazio e uma vez que ele seja encontrado, a sua vida perde todo o interesse, todo o sabor, todo o sentido e significado.
      Todo mundo está fugindo de si mesmo. E chamam de divertimento a essa fuga de si mesmo.
      A vida do homem ocidental pode ser dividida em duas partes: a primeira é se divertindo e a segunda é tendo ressaca. Com o tempo, a ressaca se torna mais prolongada que o divertimento. E ele segue, num círculo vicioso, entre essas duas partes, desperdiçando sua vida e não chegando a lugar algum.
      Não se pode dizer que chegar ao cemitério significa chegar a algum lugar. Isto simplesmente significa que agora a roda está tão cansada e tão entediada com os divertimentos e com as ressacas sofridas que ela quer descansar dentro de uma sepultura.
      As pessoas descansam apenas em suas sepulturas.
      Fora da sepultura, não há tempo para descansar.
      No Oriente, nós escolhemos a gestalt oposta. Nós descobrimos tesouros, mistérios e segredos, mas a dificuldade com o interior é que você não consegue materializá-lo. Você não consegue prova-lo no tribunal, você não consegue nem mesmo ter uma testemunha. A não ser você, ninguém, mais é permitido entrar em seu mundo interior. Naturalmente, o Oriente pouco a pouco criou indivíduos isolados. Esses indivíduos isolados foram constantemente molestados pela multidão, pelo mundo dos negócios. Eles queriam o silêncio interior, sua calma, sua serenidade sem perturbação. A conclusão foi: renuncie ao mundo, mude para o Himalaia ou para o meio da floresta onde você pode ser totalmente você mesmo.
      Mas ambas as alternativas estão escolhendo metade do homem. E no momento em que escolhe metade do homem, você cai na mesma miséria. As misérias podem ser diferentes, mas é absolutamente garantido que se trata de miséria. O Oriente é miserável, devido aos seus Goutamas Budas, seus Mahaviras, Bodhidharmas, Kabirs. Ele está na miséria devido aos seus grandes exploradores do mundo interior. E o Ocidente está miserável devido a Galileu, Copérnico, Colombo, Albert Einstein, Bertrand Russell. Estas são as grandes pessoas do Oriente e do Ocidente e todas estas grandes pessoas escolheram o homem em sua metade. E esta tem sido a miséria do homem até agora. 
      Eu lhes ensino o homem total. A dimensão interna é tão verdadeira quanto a dimensão externa. E a externa é tão significante quanto a espiritual. Você tem que alcançar um certo equilíbrio, no qual nem o interior nem o exterior predominem, mas ambos sejam igualmente complementares, um ao outro. Isto não aconteceu até agora. Mas, a não ser que isto aconteça, não há possibilidade alguma para qualquer humanidade existir no mundo. 
      O Ocidente está morrendo devido ao seu próprio sucesso. O Oriente já morreu devido ao seu sucesso. É uma história muito estranha, essa que as pessoas morrem devido às suas vitórias. Escolher a metade é perigoso. Mas escolher o todo necessita coragem, insight e uma imensa compreensão. E uma mobilidade... Ir para fora e para dentro de seu ser deve ser tão simples como entrar e sair de sua casa.
      Sempre que for preciso você estar no mercado, você deve estar lá com sua totalidade. O mercado não pode destruir a sua alma. Todo aquele que prega a renúncia ao mundo, está contra a humanidade. O fato de ir para dentro de si e estar num silêncio meditativo não tira coisa alguma do mundo externo. Você não tem que condenar o mundo externo, nem tem que declará-lo ilusório. Isso deveria ter sido tão simples de se ver que eu fico admirado porque milhares de anos se passaram e isto ainda não é um fato reconhecido em todo o mundo. (...)
      Estas duas ideologias idiotas têm destruído toda a humanidade, a sua paz, o seu amor, a sua grandeza e a sua dignidade. Isto tem que ser restaurado. Eu nego Adi Shankara e também nego Karl Marx, ao mesmo tempo. Eu sou contra o ateísta e contra o teista, porque ambos estão tentando dividir a realidade, a qual é indivisível. O exterior não consegue existir sem o interior. Nem o interior existe sem o exterior. Eles são os dois lados de uma mesma moeda. 
      Mas, acredite ou não, não existe uma simples declaração em toda a história do homem afirmando que ele é um, que o seu exterior e interior não são contraditórios, mas complementares, que cada um deles não pode existir em separado e que eles devem ser usados juntos. Somente então o homem consegue crescer à sua verdadeira altura e desabrochar em seu florescimento máximo.
      Chidananda, você está perguntando, ‘...associada com a idéia americana de divertimento, que é sinônima de barulho, música alta, ir ao cinema, fumar, fazer sexo e liberação de energia.’ Isto é apenas o lado de uma metade, o das pessoas que escolheram ser extrovertidas e se esqueceram de seu próprio centro interior. Mas elas estão ficando cheias disto. Agora os maiores filósofos do Ocidente, como Sorem Kierkegaard, Martin Heidegger, Karls Jasper, Marcel, Jean Paul Sartre, todos estão em absoluto acordo de que a vida é sem sentido, que ela nada mais é que tédio. E a única conclusão de todas essas filosofias é simples: a não ser o suicídio, não há outro caminho. Mas existem surpresas e surpresas: de todos esses grandes filósofos que eu citei, nenhum cometeu suicídio.
      Todos estes cinco grandes filósofos do Ocidente – e eles são os mais destacados – não estão interessados em cometer suicídio, eles estão apenas interessados em escrever a respeito de náusea, falta de sentido e angústia. Todos eles chegaram à conclusão que o suicídio parece ser a única saída, mas nenhum abandonou o seu caminho. (...)
      Devido ao seu sucesso, o Ocidente alcançou seu maior fracasso. E este fracasso é muito perigoso porque eles têm sob seu controle enorme poder destrutivo, bombas nucleares. (...) Os políticos estão preparados para destruir este planeta setenta vezes. Este é o sucesso da abordagem ocidental de tomar a dimensão externa do homem como sendo toda a realidade. E nada melhor aconteceu com o Oriente. Quase cinqüenta por cento da população do Oriente está faminta, morrendo, subnutrida. E ao final do século XX a previsão é de que pelo menos quinhentos milhões de pessoas morram, somente na Índia, sem contar as que morrerão na China, em Taiwan, na Coréia, no Japão. Este planeta terra não consegue suportar essa imensa humanidade que continua crescendo, a não ser que nós comecemos também a ser científicos e tecnológicos.
      A ciência é capaz, mesmo agora, de dar suporte a uma humanidade sete vezes maior que a atual. Hoje existem cinco bilhões de pessoas no mundo. A ciência tem a capacidade de propiciar agora que sete vezes mais pessoas vivam confortavelmente. Mas a ciência não consegue fazer isto por conta própria. Ela precisa de mentes científicas, de pessoas que sejam tecnologicamente especialistas. 
      O meu entendimento a respeito do Oriente é que mesmo aquelas pessoas que foram para o Ocidente serem bem educadas em ciência e tecnologia, continuam internamente com suas velhas estupidezes. Eu tenho visto Doutores adorando um deus macaco. Eu não posso acreditar no que vejo. Às vezes eu penso que teria sido melhor ser cego. Essas pessoas que estão adorando deuses macacos, deuses elefantes – elas não têm mentes científicas. Elas podem ter tido uma educação científica, mas isto é uma coisa totalmente diferente.
      Ter conhecimento a respeito de ciência é uma coisa e ser criativo a respeito de ciência é outra coisa. Ter conhecimento a respeito de meditação é uma coisa e meditar é algo totalmente diferente. O Ocidente precisa de uma mente mais meditativa e o Oriente precisa de uma mente mais científica. Então nós seremos capazes de criar uma humanidade que possa viver, sem pobreza e sem fome, uma vida mais saudável e mais prolongada, da qual não temos nem idéia.
      Há cálculos científicos de que este corpo que temos é capaz de viver pelo menos trezentos anos – com alimentação correta, cuidados médicos corretos, ambiente ecológico correto, as pessoas podem viver trezentos anos. Eu nem consigo conceber que tesouros seriam revelados se um Goutama Buda conseguisse viver trezentos anos, se Albert Einstein pudesse ter vivido trezentos anos, ou Bertrand Russell.
      Até agora, a maneira como temos vivido é um puro desperdício. Pessoas que são treinadas, educadas, cultas, tornam-se velhas e morrem com a idade de setenta anos. E novos visitantes, absolutamente bárbaros, sem educação continuam saindo dos úteros. Temos que forçar as pessoas a se aposentarem, e estas são as pessoas que sabem as coisas. E temos que empregar pessoas que nada sabem. 
      A vida das pessoas poderia se tornar mais prolongada e o controle da natalidade ser mais estrito. Uma criança deveria nascer somente quando nós estivéssemos prontos para permitir que um Bertrand Russell deixasse o mundo – apenas uma substituição, e a não ser que possamos encontrar uma substituição melhor, nós não iríamos deixar que o Bertrand Russel deixasse o mundo. E existe toda possibilidade de encontrarmos uma substituição, porque nós podemos ler todo o programa genético, todas as possibilidades pelas quais a pessoa irá passar – se ela será um pintor da qualidade de um Picasso ou se será um poeta genial como Rabindranath Tagore; quanto tempo ela irá viver, se será saudável ou doente. E não apenas podemos ler o programa futuro dos genes, mas podemos mudar esse programa também. Podemos fazer com que uma pessoa doente, desde o início seja mais saudável, e que os idiotas possam ser evitados, assim como os retardados. 
      A existência dá tudo com tanta abundância que se você não escolher, as coisas vão se tornar um caos. Um simples ser humano, um macho, se não for corrompido pelas religiões, terá pelo menos quatro mil vezes a oportunidade de gerar uma criança. E a cada vez ele libera um milhão de espermas. Isso quer dizer que cada macho humano pode criar toda uma Índia. Tal abundância simplesmente quer dizer que você tem que ser muito criterioso na escolha. Naturalmente nesta multidão você não pode encontrar muitos Rabindranath. O próprio Rabindranath foi o décimo terceiro filho de seus pais. Antes dele, seus pais geraram doze crianças sem qualquer genialidade. Elas poderiam ter sido evitadas. Rabindranath poderia ter sido o primeiro filho. E quem sabe quantos outros Rabindranath não estão preparando seus caminhos para entrar no mundo? Nós precisamos de uma abordagem muito científica a respeito do lado exterior e uma abordagem muito meditativa para o lado interior. 
      Chidananda, você está dizendo, ‘...enquanto que silêncio e serenidade estão automaticamente associados a tédio e excessiva acumulação de energia, a qual resulta em tensão e ansiedade.’ Se as coisas permanecerem do jeito que estão, isto é verdade. Se você não usar a sua energia... Com sua alimentação, com sua respiração constante, bebendo água, você está gerando energia. Ela tem que ser usada, senão ela se transforma em tensão, e por fim acabará se tornando ansiedade. Mas se a minha idéia for entendida... Eu estou dizendo que você é metade o lado externo e metade o lado interno. 
      Use a sua energia no mundo externo em atividades criativas, não em futebol americano. Existe tanto para ser criado, tanto para ser descoberto, um vasto universo está aí na sua frente como um desafio para ser explorado. Use a sua energia para tornar o mundo mais belo, mais poético, mais saudável. 
      E quando você sentir que está cansado, exaurido, vá para o lado interior. Descanse. E o seu descanso se tornará a sua meditação, porque meditação não precisa de nenhum gasto de energia. Ao contrário, ela conserva, ela preserva, ela faz de você uma concentração de grande energia. Quando você sente que a sua serenidade, seu silêncio e sua alegria interior quer dançar externamente, então dance, então cante, então crie. E se a sua criatividade vier do silêncio de seu coração, ela terá uma qualidade e um sabor diferente.
      É apenas uma questão de um pouco de inteligência e equilíbrio. Dentro está a fonte de suas energias e fora está o mundo para permitir que a energia crie – seja um criador.
      Mas você não consegue ser um criador a não ser que seja um meditador.
      O meu sannyas tem uma nova definição; não é a definição do velho. Na velha definição, o sannyas significa renunciar ao mundo. O meu sannyas significa alegrar-se no mundo. Mas antes que possa se alegrar, você deve acumular energia de tal modo que comece a transbordar amor, sentividade, criatividade, poesia, canção, dança...
      E certamente essas coisas terão a qualidade da compaixão. Elas não poderão ser violentas. Eu não consigo conceber um meditador jogando futebol americano. Eu não consigo conceber um Goutama Buda numa luta de Box. Mas um Goutama Buda pode criar um lindo jardim de rosas. Um Goutama Buda pode pintar. E as suas pinturas serão muito superiores às de Picasso, porque ele era quase louco. Se você olhar para as pinturas de Picasso irá perceber um tipo de doença atirada para fora. Mantenha um Picasso pintando em seu quarto de dormir e você terá pesadelos, porque aquelas pinturas vieram dos pesadelos de Picasso, pesadelos com ar condicionado.
      Existiram meditadores que criaram. Você pode ver o Taj Mahal que foi criado por místicos Sufis. Observe-o numa noite de lua cheia, de repente você entrará num profundo silêncio que nunca conheceu dentro de si mesmo. Se você puder sentar silenciosamente ao lado, a beleza do Taj Mahal começará a mudar alguma coisa dentro de você. O Taj Mahal não estará mais apenas ali, do lado de fora; ele começará a se tornar parte de seu próprio ser. (...)
      Existem templos na China, no Japão, na Índia criados por meditadores. Apenas por estar sentado ali você perceberá que o que era tão difícil para você, parar o seu pensamento, acontecerá por si mesmo. Toda a atmosfera do templo, a fragrância, o incenso, as estátuas...
      Tudo está criando um certo espaço dentro de você.
      Uma vez que a humanidade aprenda ambas as coisas juntas – o estado meditativo e a abordagem científica do mundo – nós teremos entrado numa nova fase, totalmente descontínua do passado feio, doente e louco.
 
 
 

Autor: 
OSHO
Fonte: 
Om Mani Padme Hum – Capítulo 13
Conscientizar-se da própria sombra

Otávio Leal
   
 
"Prefiro ser íntegro a ser bom."
C. G. Jung
“Sombra: chama-me de irmão,
para que eu não tema aquilo que busco.”
Anônimo
“Vergonha, culpa, orgulho, medo, ódio, inveja, carência e avidez são subprodutos inevitáveis da construção do ego. Eles estimulam a polaridade entre o sentimento de inferioridade e a vontade de poder. Eles são os aspectos da sombra da primeira eman­cipação do ego.”
Edward C. Whitmont
“Passamos nossa vida, até os 20 anos, decidindo quais as partes de nós mesmos  que poremos na "sacola", e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá.”
Robert Bly
     Medite sobre o que mais o incomoda em relação às pessoas. Não aspectos superficiais, mas algo que realmente você abomine, odeie. Talvez seja ingratidão, traição, injustiça, ciúme, medo ou impaciência. Reflita. Você já pensou por que odeia isso?
      Agora espero de você muita coragem.
      Será que aquilo que o incomoda em relação aos outros não é algo que está aí, escondido dentro da sua mente? Talvez tão escondido que agora esteja inconsciente?
      Jung dizia: "Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um conhecimento de nós mesmos". Vamos mais fundo nessa questão.
      Toda criança é total ao nascer. É inteira, mas no decorrer da vida começa a se dividir. Ela é influenciada pela sociedade, pela religião e pela família, começando a negar algumas características consideradas más. É a qualidade, o jogo do que é bom ou mau. Com a chegada da maturidade, ela já negou muito de sua personalidade real. Esconde uma parte de si, acha pecado, errado e sujo algo que é dela, e tudo o que é rejeitado fica escondido ou guardado no inconsciente.
      Isso se chama sombra, é tudo o que negamos na busca absurda de sermos perfeitos para os outros, com um eu ideal. Um exemplo é a história O médico e o monstro, do Dr. Jekill e Mr. Hyde. Dentro do bondoso médico ficava escondida a sua sombra, como o monstro, Mr. Hyde. Também encontramos exemplo da sombra no livro O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. O jovem Dorian faz um pacto com o diabo para sempre ter uma beleza impecável e assim todos seus traços de envelhecimento físico além de egoísmo, obsessões, crueldade, cinismo seriam transferidos para um retrato de sua imagem jovem e perfeita.
      Esse retrato é guardado e ninguém o vê, a não ser Dorian, quando curioso, e ele vê o retrato cada vez mais feio, repugnante e cada dia mais velho.
      Assim é a nossa sombra. Como Dorian, desejamos mostrar uma face harmoniosa, amável, inteligente, e escondemos os nossos verdadeiros sentimentos, aqueles dos quais você se envergonha.
      É claro que devemos procurar preservar de nossa sombra as pessoas com quem nos relacionamos, senão criaremos confusões todo o tempo. O que não podemos é negá-la para nós mesmos, até porque ela possui aspectos muito positivos.
      Todos temos uma máscara, que é a imagem que passamos para o mundo. Na astrologia nós a chamamos de ascendente, que é como as pessoas nos vêem, é nosso impulso, a personalidade adquirida com a vida e por meio da qual transmitimos aquilo que temos de melhor. Chama-se persona na psicologia e é como gostaríamos que todos nos reconhecessem. Por exemplo: no namoro superficial colocamos nossa persona, enquanto num relacionamento mais profundo acabamos por mostrar nossa sombra.
      Fazemos com que nosso eu se divida em três partes:
  • o "eu perdido" - tudo o que reprimimos para agradar "aos outros";
  • o "falso eu" - a imagem que criamos para agradar "aos outros";
  • o "eu negado" - a parte que "os outros" nos ensinaram ser negativa e por isso é negada. São exemplos: egoísmo, raiva, desejos sexuais (reprimidos), vingança, "erros do passado", culpa (que não cria nada), traição, falsidade, desejo de poder, mentiras, nossas brigas com Deus / Deusa, "pecados", vergonha, etc.
     É provável que você tenha a maioria dessas características e outras mais. E não é só você. Todos são assim. Reconheça isso.
      Jung sabia que a sombra é perigosa quando não reconhecida, pois projetamos nossos aspectos destrutivos no mundo e nos outros e somos inteiramente escravos dela até que domine nossa mente e passemos a pulsar somente ódio, tristeza, julgamentos, dor, reclamações, etc.
      Começamos a ver defeitos em todas as pessoas, julgamos e enxergamos a sombra de nosso vizinho, da religião que não seja a nossa, de outra cultura, mas não vemos nossa sombra.
      Muitas das "guerras espirituais" ou "religiosas" acontecem exatamente por isso. Vemos trevas em tudo e essas trevas são projeções do que temos em nosso interior. Atos impulsivos que depois geram arrependimento. Situações em que se humilham os outros. Raiva exagerada em relação aos erros alheios. Depressão quando se olha para dentro.
      Francisco de Assis era sombra e luz, mas escolheu o caminho de luz; Hitler era sombra e luz, mas escolheu o caminho da sombra. Hitler tinha a semente de Francisco, mas Hitler se tornou Hitler. Francisco tinha a semente de Hitler, mas se tornou Francisco. Francisco trabalhou sua sombra e tornou-se um mestre, que é ícone de compaixão, tolerância e amor à vida.
      Esse é um trabalho para toda a vida e, como recompensa, nos permite perdoar aos outros e a nós mesmos pelo que achamos mau, pois a compaixão e a tolerância iniciam-se conosco e expandem-se para o próximo.
      A sombra é muito primitiva. Vem de um passado remoto, desde, talvez, o surgimento dos hominídeos. Está em nossa mente e corpo e é chamada também de memes. No livro O gene egoísta, Richard Dawkins diz que os memes são "núcleos de informação ou energia que têm vida própria, irradiam comandos, instruções, programas culturais e normas sociais para as pessoas" e se transmitem por meio de cultura, fofoca, religião, livros, filmes e tudo o que contribui para aumentar nossa sombra individual e cultural. A fofoca talvez seja um dos piores memes - a fofoca de dentro, a fofoca de fora.
      O meme é algo tão poderoso que irradia sua influência de uma mente para outra de forma quase instantânea. É assim que as idéias se propagam. Da mesma forma como os genes estão para a genética, os memes estão para a memética. E assim como o DNA é o replicados biológico, o meme é o replicados cultural. Ideias sombrias e limitadas podem ser ensinadas pela escola (que também tem um lado sombrio):
     O jornal Philadelphia Inquirer de 11 de junho de 1988 informava:
     A União Soviética, declarando que os manuais de História ensinaram a gerações de crianças soviéticas mentiras que envenenaram suas "mentes e almas", anunciou ontem o cancelamento dos exames finais de História para mais de 53 milhões de estudantes.
     Ao anunciar o cancelamento, o jornal oficial Isvestia informou que a extraordinária decisão visava pôr um término à transmissão de mentiras de uma geração para outra, processo esse que consolidou o sistema político e econômico stalinista que a atual liderança pretende encerrar.
     "A culpa daqueles que iludiram uma geração após outra... é imensurável", declara o jornal num comentário de primeira página. "Hoje estamos colhendo os frutos amargos da nossa própria lassidão moral. Estamos pagando por termos sucumbido ao conformismo e, assim, dado nossa aprovação silenciosa a tudo aquilo que hoje nos enche de vergonha e que não sabemos explicar honestamente aos nossos filhos."
     Portanto, quando pensamos que temos uma idéia, na verdade são as idéias que nos têm. Faço essa colocação para que você entenda que muitas vezes somos hospedeiros de idéias, opiniões ou crenças nem sempre benéficas a nós, mas vantajosas a elas mesmas. E assim elas passam a formar nossa sombra.
      Quanto mais felicidade e criatividade adquirimos na vida, mais a sombra aumenta. Quanto mais luz, mais sombra e escuridão. Todos os gênios da humanidade tiveram sombras muito fortes. Quanto mais luminosa a personalidade consciente, maior a sombra. Portanto, não projete sua sombra em outro. Perceba essas projeções, uma limitação sua.
      Muitos pais se projetam nos filhos, exigindo aspectos de perfeição que eles mesmos não tiveram na vida.
      Há pessoas que trabalham com o chamado pensamento positivo. Mentalizam: "isso é positivo, isso é positivo, isso é positivo" ou "eu sou luz, eu sou luz, eu sou luz" ou "sucesso, sucesso, eu tenho sucesso". Trabalhar assim com a mente pode ser benéfico, mas por um período pequeno de tempo. Achar que tudo é positivo pode fazer com que neguemos nossa própria sombra e os aspectos egoístas e perversos.
      Os que não têm essa válvula de escape para colocar para fora tudo o que é negatividade, fazendo uso de atitudes bem-humoradas, das brincadeiras, do lúdico, do prazer e principalmente da forma de interpretar situações difíceis com bom humor, possuem a sombra reprimida, o que gera sentimentos exagerados de posse em relação aos outros.
      Alguns espiritualistas teóricos e religiosos intolerantes têm um discurso cheio de palavras lindas como amor incondicional e fraternidade, mas só na teoria. Não amam nem uma pessoa, quanto mais todos, incondicionalmente. Escondem a pior de todas as sombras - o fanatismo religioso, a intolerância com os companheiros de crenças diferentes.
      O filme francês “O oitavo dia”, é sobre um motivador de comportamentos positivos. Conheço motivadores e religiosos que não se auto-investigam e, inconscientemente, tentam passar aspectos positivos para a vida de seus seguidores. Contudo, suas palavras são agressivas, duras e inflexíveis, notam-se neles atitudes e gestos treinados, decorados, nada espontâneos ou que venham do coração. O suposto sucesso que atingem ocorre porque seu público é formado de pessoas iludidas que gostam de dor e humilhação. Além, claro, das promessas de soluções rápidas e fáceis.
      Nossa luz e nossa sombra criam contradições em nossa alma. Qual caminho seguir? O que eu quero ou o que os outros querem de mim?
      Todas essas dúvidas nos remetem ao nosso lado sombra, já que é ele que detém todas as chaves de nosso auto­conhecimento, todos os nossos segredos.
      Mas é bom não confundir a sombra com o ego negativo. Enquanto a sombra faz parte do ser real, pois nos faz olhar para nosso íntimo e nos descobrir na totalidade, o ego negativo é o ser idealizado e aquele que diz: "Não seja autêntico, seja aceitável". "Não se exceda, seja medíocre, seja normal."
      O ego muitas vezes nos ilude, mente, enquanto a sombra nos coloca diante da própria verdade porque ela sempre esteve conosco, desde o nascimento. E como sempre esteve conosco, ela se constitui de tudo aquilo que insistimos em negar e desconsiderar ou daquilo que nos recusamos a aceitar em nós mesmos.
      Não agimos assim porque queremos, mas porque desde criança tivemos que nos adaptar para sobreviver. E fomos ensinados a esconder não somente coisas escuras, feias, que a sociedade diz que são pecaminosas, terríveis, imorais, mas também as coisas boas, por causa das mensagens que recebemos: "Não seja curioso"; "não seja tão honesto"; "não viva tão em contato com seus sentimentos"; "não seja tão criativo"; "não seja tão sonhador"... E assim fomos ensinados a construir nossa "auto-estima".
      Por isso o lado sombra é tão rico. E é, somente penetrando na própria escuridão, que você poderá transformar-se, poderá transitar da antiga para a nova forma, livrando-se de seus temores e vergonhas, fracassos e dores. E, somente assim, poderá descobrir sua verdadeira força, seu poder, seus talentos e... sua alma.
      Para sua reflexão, observe esta lista de valores paradoxais:
Valores que provavelmente você deseja de coraçãoValores que a família, a religião e a sociedade exigem de você.
SucessoHumildade
GulaJejum / Moderação
AlegriaDor (crescemos num momento de dor)
FacilidadeSacrifício e Dificuldades
SexoCelibato / Monogamia
DinheiroPobreza (nos leva para o céu)
Felicidade na terraFelicidade nos céus
Trabalhar é prazerTrabalhar é obrigação
Não fazer nadaSempre fazer algo
Dizer nãoDizer sim
Ter privacidadeDeixar-se invadir
Eu sou o mais importanteO outro é o mais importante
Eu me amoAmo o próximo
Ter liberdadeObedecer às autoridades e aos mais velhos. mais velhos
O último pedaço de pizza é meuO último pedaço de pizza é seu
Falo o que queroSou bonzinho para agradar
Tenho os meus desejosCriança não tem querer
Gasto muito agoraEconomizo para o futuro
AventuraSegurança
Eu me trato da melhor maneiraTrato as visitas melhor que a
mim
Faço o que queroObedeço
Dormir até tardeAcordar cedo (Deus ajuda quem cedo madruga )
Ir ao parque de diversõesIr ao culto
Reter matériaDar ( vender tudo para doar aos
pobres )
Possuir para gastarDar tudo aos necessitados
E agora? Qual é o seu caminho?
Tudo tão contraditório, não é?
O que é o bem o que é o mal?
Luz? Sombra? Certo? Errado?
     Não existem respostas para essas questões, tudo é relativo, graças a Deus! Senão, qual o sentido de viver?
      O que é bom para você pode não ser para os outros e vice-versa.
      Jung escreveu:
      "A triste verdade é que a vida humana consiste num complexo de opostos inseparáveis. Dia e noite, nascimento e morte, felicidade e miséria, bem e mal. Nem sequer estamos certos de que o bem superará o mal ou a alegria derrotará a dor."
Reflexão
     Que tal encontrar um equilíbrio relativo entre aquilo que seu coração anseia e o que os outros desejam?
      Faça uma lista de manifestações de sua sombra. Isso tudo que nega em si mesmo o inspirará a conhecer-se melhor - você é assim.
      Enumere três atitudes que odeia que tomem com você.
      Será que você também não se trata assim?
      Um exercício muito interessante para trabalhar com a sombra é socar um travesseiro enquanto gritamos com ele.
      Existem rituais de transformação nos quais, por exemplo, escrevemos em pequenos pedaços de papel algumas palavras e pensamentos perversos que estão pulsando na sombra e depois os queimamos. Seria algo como o sacrifício da própria sombra.
      Outra maneira de também lidar com essa sombra é dançar, expressando na dança movimentos de empurrão ou socos, como se estivesse soltando alguma coisa dentro de si. Criatividade em todas as suas manifestações também "desreprimem" a sombra. O importante é não se reprimir. Mas também não tenha a intenção de cortar o mal pela raiz. É impossível cortar o mal, pois ele é uma parte de nós mesmos. Lembre-se de que é preciso olhar para "nosso mal", para nossa sombra e reconhecê-la.
      Crianças que presenciam brigas entre os familiares ou situações limitadíssimas na vida, como fome, pobreza, analfabetismo, e a falta dos pais, expressam essas contrariedades em desenhos, o que é extremamente importante.
      A sombra reprimida demasiadamente pode voltar-se contra nós, gerando vícios, autoflagelação, nervos à flor da pele, etc. Tenha coragem de se olhar para curar a própria sombra e não se sentir tão marcado pela vida, a ponto de não mais querer a felicidade. Sempre medite nisso, na coragem para olhar sua sombra, olhar seus conteúdos, nem sempre nobres.
"Quando as pessoas chamam uma coisa de bela,
Vêem outra coisa como feia.
Chamando outra coisa de boa,
Seu contrário se torna mau.
Porém, ter e não ter produzem um do outro.
Difícil e fácil se equilibram,
Longo e curto se completam,
Alto e baixo dependem um do outro,
Altura e tom formam juntos a harmonia,
Começo e fim se sucedem."
Tão Te King
No livro “ao encontro com a sombra” Ed. Cultrix
De Connie zweig e J. Abrams.
Temos uma reflexão profunda sobre os benefícios de aceitarmos ou reconhecermos (consciência) nossas sombras.
A aceitação da sombra
O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das nossas atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes.
O romancista Tom Robbins diz: "O propósito de encontrar a sombra é estar no lugar certo da maneira certa." Quando mantemos um relacionamento adequado com ele, o inconsciente não é um monstro demoníaco; diz-nos Jung: "Ele só se torna perigoso quando a atenção consciente que lhe dedicamos é desesperadoramente errada."
Um relacionamento correto com a sombra nos oferece um presente valioso: leva-nos ao reencontro de nossas potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra (expressão que cunhamos para nos referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), podemos:
  • chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;
  • desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;
  • nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos senti­mentos e atos negativos;
  • reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;
  • curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;
  • e usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido.

     Talvez... talvez também possamos, desse modo, evitar acrescentar nossa sombra pessoal à densidade da sombra coletiva.
     A analista junguiana e astróloga britânica Liz Greene mostra a natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz. "O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto, conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum modo, marcado - ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la."

quinta-feira, agosto 23, 2012


Nenhum Grão-Mestre, Vice-Grão-Mestre, Grandes Vigilantes. Tesoureiro, Secretário, ou quem os represente, ou em seu lugar estiverem pro tempore, pode ser ao mesmo tempo Mestre ou Vigilante de uma Loja; mas tão logo seja honradamente dispensado de seu cargo, retorna ao seu posto ou posição na sua Loja, da qual foi chamado para a função referida.


Esta regra postula a incompatibilidade entre o exercício dos principais ofícios em Grande Loja e os principais ofícios em Loja. Recorde-se que, em 1723, Mestre era a designação para o ofício que hoje é designado de Venerável Mestre; na ocasião, as Lojas maçónicas ainda tinham apenas dois graus, Companheiros (os correspondentes aos atuais Mestres) e Aprendizes.

Não deixa de ser curioso que uma preocupação que é hoje comum na coisa pública dos países democráticos, a determinação de incompatibilidades entre funções, já tivesse sido prevista e regulada, no início do século XVIII, pelos maçons.

Afigura-se evidente que o propósito da fixação desta incompatibilidade era assegurar a mútua independência das Lojas e da Grande Loja, não permitindo confusão de interesses, por duplicação de funções, legitimidades e representações: o Venerável Mestre e os Vigilantes das Lojas respondem perante elas; os Grandes Oficiais respondem perante o Grão-Mestre e, quando reunida, a Assembleia de Grande Loja.

Não obstante, e sem pretender conhecer a orgânica de todas as Obediências maçónicas ao redor do globo, intuo que, presentemente, esta regra não é seguida, já não é aplicada, não consta, senão de todos, da grande maioria dos regulamentos das Obediências. O crescimento das Obediências, algumas hoje com centenas ou milhares de Lojas, diluiu a necessidade de preservar conflitos por incompatibilidade. Também a curta duração dos mandatos, particularmente nas Lojas (em regra, um ano) impede que haja problemas, ao menos duradouros, com a eventual acumulação de ofícios.

Porém, em minha pessoal opinião, mesmo sem regras formais instituídas, o princípio da não acumulação de ofícios nas Lojas e na Grande Loja (ao menos os ofícios principais) é um princípio saudável, não tento pela necessidade de prevenir favorecimentos, mas por uma questão de evolução do maçom em si. 

Um maçom efetua um percurso, no qual é suposto procurar obter o seu aperfeiçoamento. Também na sua evolução maçónica isso se deve refletir.

O Aprendiz aprende. O Companheiro aprende e prepara-se. O Mestre começa por executar ocasionalmente ofícios em Loja, dpois é designado formalmente para um ofício, depois outro e seguidamente outro, de crescente complexidade e responsabilidade, até exercer o ofício de Vigilante e, depois, de Venerável Mestre. Depois, deve cumprir o seu dever de auxiliar o seu sucessor, no importante ofício de Ex-Venerável Mestre, primeiro conselheiro do líder em exercício. Depois, deve simbolicamente trilhar o seu caminho de regresso à base, à normalidade, ao grupo, à indiferenciação, exercendo o ofício tido como menos exigente, o de Guarda Interno. Finalmente, deve ter presente que o exercício de ofícios, de funções, de "poderes" é sempre transitório e remeter-se discretamente para o seu lugar nas Colunas da Loja, deixando a administração desta para aqueles cujo tempo de a administrar veio depois do seu, mantendo-se à disposição do Venerável Mestre e da Loja para o que preciso for, porventura ocasionalmente exercendo em substituição algum ofício ou auxiliando um Oficial em exercício..

Só depois de efetuado este percurso, de preparação, de exercício de funções, desde a mais humilde à mais importante, depois de "descer de novo a colina" e de resistir à tentação de continuar a decidir, a pôr e dispor, aprendendo que os tempos se sucedem e há tempo para aprender, tempo para mandar, tempo para aconselhar e tempo para se fundir de novo no grupo e estar disponível, sem se intrometer no trabalho dos que ficaram posteriormente com a tarefa de administrar a Loja, o maçom está então - na minha opinião - preparado paraassumir responsabilidades ao nível da Grande Loja.

Assim fiz eu - ficam assim a saber os meus Irmãos mais próximos porque resisti dezoito anos até finalmente me considerar apto a aceitar ter a responsabilidade de um Ofício na Grande Loja... - e não me dei mal com o sistema...

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 140.


Rui Bandeira

quinta-feira, agosto 16, 2012


Os professores, por José Luís Peixoto

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança.
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios - José Luís Peixoto
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios - José Luís Peixoto
O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.
Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.
Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.
Artigo de José Luís Peixoto, publicado na revista Visão de 13 de Outubro de 2011

quarta-feira, agosto 15, 2012


Posted: 15 Aug 2012 04:00 AM PDT
Os Grandes Vigilantes, ou quaisquer outros, devem primeiro aconselhar-se com o Vice-Grão-Mestre a respeito dos assuntos da Loja ou dos Irmãos, e não devem dirigir-se ao Grão-Mestre sem o conhecimento do Vice-Grão-Mestre, a menos que este recuse pronunciar-se sobre qualquer questão; neste caso, ou em caso de litígio com o Vice-Grão-Mestre, os Grandes Vigilantes, ou outros Irmãos, ambas as partes deverão dirigir-se ao Grão-Mestre para conciliação, o qual poderá decidir sobre a questão harmonizando as diferenças, dada a sua autoridade. 
O Grão-Mestre não receberá qualquer comunicação sobre assuntos relativos à Maçonaria, a não ser através de seu Vice-Grão-Mestre, exceto nos casos que julgue convenientes; se isso acontecer, pode mandar que os Grandes Vigilantes, ou qualquer outro Irmão, se dirijam ao Vice-Grão-Mestre, o qual deverá preparar o assunto devidamente e levá-lo, devidamente organizado, para sua apreciação.

Esta regra estipula um grau de intermediação entre o Grão-Mestre e a restante fraternidade, através do Vice-Grão-Mestre, que é de todo inexistente na Maçonaria atual, à exceção, porventura, da UGLE, e que julgo mesmo nunca ter existido na Maçonaria continental europeia, nem na americana.

A meu ver, resultou da aplicação de uma opção que Anderson e os restantes fundadores da Maçonaria Especulativa tomaram: reservar o Grão_mestre para as funções de alta direção da Fraternidade, definição de programas e estratégia e representação, deixando a administração ordinária da Fraternidade ao Vice-Grão-Mestre. Se bem ajuízo, seria a replicação na Maçonaria da estrutura do poder monárquico inglês: ao rei ficam reservadas as funções de representação, interna e externa, do país e a intervenção em momentos de crise; a administração do país competia ao primeiro-ministro.

Esta estrutura dual do poder de administração parece ser uma fórmula arreigada na tradição do pensamento anglo-saxónico: lembremo-nos que as multinacionais anglo-saxónicas, por regra, efetuam uma semelhante divisão de tarefas, dotando-se de um COB (Chief of the Board, Presidente do Conselho de Administração), com funções de planeamento estratégico e representação, e de um CEO (Chief Executive Officer, Administrador Executivo, que assegura a direção da gestão diária da empresa).

Esta estrutura dual permanece viva na United Grand Lodge of England (Grande Loja Unida de Inglaterra) até aos dias de hoje, favorecendo algo que é muito próprio desta Obediência: a assunção do ofício máximo, o de Grão-Mestre, por um membro da família real ou da alta nobreza britânica. E favoreceu ainda outra caraterística, única no mundo maçónico: a frequente manutenção do mesmo Grão-Mestre por longos períodos de tempo, em contraste com os mandatos de curta duração que se praticam correntemente nas restantes Obediências maçónicas.

Atente-se na lista de Grão-Mestres desde a criação da UGLE, em 1813, em resultado da fusão entre as Grandes Lojas dos Antigos e dos Modernos:  

1813 a 1843 - Príncipe Augusto Frederico, Duque de Sussex, sexto filho do rei George III;
1844 a 1870 - Thomas Dundas, 2.º Conde de Zetland;
1870 a 1874 - George Robinson, 3.º Conde de Grey e 2.º Conde, depois 1.º Marquês, de Ripon;
1874 a 1901 - Alberto Eduardo, Príncipe de Gales, depois Rei Eduardo VII;
1901 a 1939 - Príncipe Artur, Duque de Connaught e Strathearn, sétimo filho (3.º varão) da Rainha Vitória;
1939 a 1942 - Príncipe George, Duque de Kent, quinto filho (4.º varão) de George V, irmão mais novo de Eduardo VII e Jorge VI;
1942 a 1947 - Henry Lascelles, 6.º Conde de Harewood;
1947 a 1950 - Edward Cavendish, 10.º Duque de Devonshire;
1951 a 1967- Laurence Lumley, 11.º Conde de Scarbrough;
Desde 1968 - Príncipe Edward, Duque de Kent, neto de Jorge V, primo direito de Isabel II.

Na Maçonaria continental europeia e americana, a tendência é para a fixação de mandatos relativamente curtos dos Grão-Mestres, com assunção da totalidade dos poderes executivos da Obediência e assessoria de um ou mais Vice-Grão-Mestres, exercendo poderes delegados pelo Grão-Mestre e de substituição deste nas suas ausências ou impedimentos. 

Em todas as Obediências, quer no mundo anglo-saxónico, quer no latino e latino-americano, tem-se notado a crescente importância do Grande Secretário, oficial que assegura a tramitação administrativa e burocrática e coordena os colaboradores profissionais contratados pela Obediência.

 Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 140. 

La Heresia dos Cataros  por Wayne Purdin 15 Febrero 2014 Este artículo apareció en, New Dawn Nº 113 (marzo-abril 2009) d el Sitio Web NewDaw...