terça-feira, março 06, 2012

 

YÃMÎY – O CANTO SAGRADO MAXAKALI


Os MAXAKALI vivem no nordeste de Minas Gerais, precisamente no Vale do Mucuri. Segundo os lingüistas, sua língua pertence à homônima família maxakali, que, por sua vez, pertence ao tronco macro-jê. Macro-jê e tupi são os dois principais troncos lingüísticos indígenas do Brasil. Os Maxakali surpreendem por ainda manterem não só sua língua, mas quase toda sua cultura, incluindo a religião, a organização social, os costumes, etc.

Mîmtat é o nome em língua maxakali para a Crotalaria incana, também conhecida como xique-xique. A plantinha produz uma pequena vagem cheia de sementinhas. Os Maxakali a apanham no mato e, depois de pedir que o filho ainda pequeno abra bem a boca, eles a apertam lá dentro de um jeito que faz com que a pequena vagem da mîmtat dê um estalo, uma diminuta explosão, na cavidade oral da criança, e pronto. “É para chamar a fala. Para a criança não ficar muda. As sementes são as palavras da língua”.

Uma dessas sementinhas da vagem da mîmtat é a palavra YÃMÎY. Quer dizer “canto”, mas também “espírito”. Yãmîy é a concepção central para se entender a cultura maxakali. Mais especificamente, são cantos sagrados; verdadeiras composições poético-musicais cantadas nos rituais. Os yãmîys-cantos referem-se aos yãmîys-espíritos. Ou seja, para cada divindade maxakali há pelo menos um canto correspondente. Tais divindades incluem animais terrestres, pássaros, insetos, e figuras míticas da tradição indígena.

A palavra yãmîy em maxacali incorpora a raiz do verbo mîy, “fazer”. Não poderia ser de outro modo, uma vez que, para o Maxakali, tudo provém dos espíritos (yâmîys), que trazem todo o conhecimento sobre o mundo e o sobrenatural quando interagem com os humanos nos rituais. Yãmîy é poesia no estilo das melhores performances.

A palavra maxakali que designa os rituais é YÃMÎYXOP. Xop é partícula que indica plural. Os yãmîyxops são cerimônias religiosas, verdadeiras festas, que envolvem toda a comunidade de uma aldeia. São realizadas para agradecerem aos deuses por uma boa colheita, ou para pedirem uma. São realizadas também para pedir a cura de um doente. Nelas se canta uma variedade de yãmîys incessantemente. Durante todo o dia que precede a noite do ritual, todos os membros da comunidade de uma aldeia ficam envolvidos com os preparativos do yãmîyxop.

Um yãmîyxop é um espetáculo que apela aos cinco sentidos. Nos rituais, canto, dança, poesia e teatro são indissociáveis. No aspecto visual, o figurino também não é menos importante. Cada yãmîy tem sua indumentária, suas cores e formas de pintura, que enfeitam o corpo daqueles que encenam. Ouve-se, canta-se, vê-se, respira-se, tateia-se e degusta-se com intensidade num yãmîyxop.

O tato acontece no contato físico entre os participantes. Há momentos na dança em que se formam grandes círculos em que todos giram abraçados. O paladar também é aguçado, pois faz parte dos rituais a ingestão de bebida (principalmente café e cachaça – sabe-se que tradicionalmente os Maxakali ingeriam certo chá que caiu em desuso ao longo do tempo e foi substituído pelas bebidas mencionadas) e comida. O alimento costuma ser servido em caprichados pratos comxuinãg (arroz), às vezes pêyôg (feijão), xokkakak (frango) ou carne dexapup (porco) ou mûnûy (boi) e mãkãhãm (macarrão). Se houver, também kômîy (batata), kohot (mandioca) e paxok (milho). A comida é uma oferenda aos yãmiys, que se satisfazem comendo vorazmente dentro da kuxex, a “casa de religião”.

O olfato, nas aldeias, é estimulado pelo cheiro do mato, da terra, do corpo e da fumaça, principalmente. Há muita fumaça (koho) impregnando os objetos e as pessoas, uma vez que, recolhidos ao lar, os Maxakali acendem fogueiras praticamente dentro de casa, o que acaba por defumar a tudo e a todos (é característico o cheirinho de fumaça dos objetos maxakalis, seu artesanato principalmente). Também se fuma muito cigarro durante os yãmiyxops. A fumaça é sagrada para os Maxakali. É considerada alimento dos espíritos. Por isso se fuma bastante, tanto nos rituais, quanto no dia-a-dia. Fuma-se tanto o kohomanîy (“cigarro preto”, que é o cigarro não industrializado, de palha ou enrolado em papel) quanto o kohopodo (“cigarro branco”, o cigarro industrializado). Koho é fumaça, e metonimicamente, cigarro;manîy , como se pode perceber, é preto, e podo, branco.

A poesia yãmîy, com todo seu aparato performático, apelando aos cinco sentidos do corpo, propicia um verdadeiro e visceral desregramento de todos os sentidos.

Para entender os yãmîys, é essencial captar o “espírito”, o ‘clima’ particular de cada yãmîy: Não se entende apenas traduzindo o significado; é preciso captar o próprio signo, ou seja, sua materialidade (propriedades sonoras, visuais, enfim tudo aquilo que forma a iconicidade do signo). Assim, o que precisamos no caso de yãmîys é nos deixar cair na tentação de captar ou capturar o “espírito da coisa”. Aqui não é o símbolo que determina, mas o ícone que indetermina. Vamos a um exemplo:

‘ÕNYÃM
‘õnyãm tuthi xux mãhã
‘õnyãm kutet xux mãhã
‘õnyãm ah hãm tu yãyhi ah
‘õnyãm mîm mõg yîmu yãy hih
‘õnyãm toktet xux mãhã
‘õnyãm ‘ãto kopa mõyõn
‘õnyãm mîm kox kopa mãm hu mõyõn
‘õnyãm a hãm tu mõ ka’ok
‘õnyãm ‘upip ‘uxãm xi pip ‘uxãm ‘oknãg
‘õnyãm nãg upnok xi xepnak um

Numa tradução prosaica temos:

O OURIÇO
o ouriço come folhas de embaúba
o ouriço come folhas de bambu
o ouriço não anda de dia
o ouriço anda em cima do galho da árvore
o ouriço come folhas de mamona
o ouriço dorme dentro do feixe de cipós
o ouriço fica dentro do oco do pau e dorme
o ouriço não anda rápido no chão
tem ouriço que tem espinho e outros que não têm espinho
o ouriço tem rabo e pêlos brancos

Antônio Risério, estudioso de oriki, gênero de poesia oral africana, explica que ele não é oração, é sim uma “figuração paratática do orixá”. Entende-se a parataxe como a organização por coordenação, e o seu pivô é o conjunto das chamadas conjunções coordenativas; a hipotaxe é a organização por subordinação, que se articula graças às conjunções subordinativas. No Ocidente, domina amplamente a hipotaxe, desde quando os árias, saindo do norte da Índia, falando sânscrito, e caminhando para o ocidente, se transformaram nos gregos, que produziram a fissão nuclear da linguagem e das cabeças, ao criar e desenvolver o sistema predicativo da língua (sujeito/predicado/objeto ou complemento), especialmente quando o verbo ser é aplicado: tal coisa é tal coisa. Daí nasceu a lógica ocidental.

O yãmîy, assim como o oriki, é o canto de um espírito; cântico de louvor que conta os atributos e feitos de um espírito. Paratático, portanto, no sentido de que o discurso que o estrutura prescinde de conectores lógicos, como as conjunções, e não se organiza em períodos compostos por subordinação, o que dá à fala ou à escrita seu caráter hierarquizante, como normalmente acontece no discurso ocidental. Vemos que o poema maxakali aqui transcriado não apresenta frases que se montam por subordinação hierárquica numa seqüência de causas e efeitos. Ele se mostra muito mais como um texto em que as frases estão em pé de igualdade, sem orações subordinadas, numa estrutura em que as frases podem ser justapostas e encaixadas ad infinitum. Cada verso se coloca como uma idéia ou imagem completa, sem conectores que os concatenem. Cada verso é uma frase completa. O paralelismo que há no poema, principalmente pela repetição do sintagma “o ouriço” a iniciar cada um dos versos, reforça tal concepção. É sobretudo uma espécie de montagem de atributos do espírito; uma construção epitético-ideogramática. O que importa é isso: montagem de atributos, colagem de predicados, justaposição de particularidades e emblemas. Montagem, ideograma, eis o princípio que rege o yãmîy maxakali.

Cada yãmîy é ideogrâmico: o tratamento do tema é direto, sem rodeio; economia de palavras; frase musical. O foco do poema é claro e todas as enunciações giram em torno dele. Num yãmîy se tem também a quantidade de palavras na medida certa. Não há excesso, não há verborragia ou palavrório vazio. Usa-se os termos necessários para se dizer o que se pretende. Obviamente, num yãmîy, a frase é musical, naturalmente. Até por se tratar de canto. Sendo assim, musicalidade e palavras (melopéia e logopéia respectivamente) estão interligadas visceralmente. Todos esses recursos são usados no yâmîy objetivando a construção de uma imagem. No caso, a imagem de um espírito, um yãmîy.

Na poesia maxakali a linguagem é usada pura e simplesmente como representação do real, representação livre de arrogância e ideologia. O yãmîy é um momento intensamente vivido por “alguém”, mas fixado em linguagem sem o peso do sujeito psico-lógico do Ocidente. Nenhuma moral da história. É um lugar feliz em que a linguagem descansa do sentido. Tal concepção é muito próxima do que se pode inferir do método ideogrâmico de Pound, definido como um processo em que o artista, através de aguda percepção, tem a visão da relação entre as partes daquilo que é observado na natureza. E da exatidão dessa percepção o artista recria tal visão na obra literária. O artista buscaria o “detalhe luminoso” e simplesmente o apresentaria, sem fazer comentários. Ele apenas apresenta, mantendo desta forma uma atitude de despojamento. Neste caso, cabe ao espectador fazer inferências. É como se cada verso fosse a tomada de uma cena num filme. Entre um e outro há um corte. Como se cada verso fosse um fotograma, como se o poema fosse um roteiro sintético. Vejamos o exemplo:

“Canção do martin-pescador pequeno”:
O martin-pescador pequeno está na árvore seca
Ele desce no rio
Ele entra na água
Ele sai com um peixe
Ele está parado comendo o peixe
Ele corta caminho entre dois morros
Ele vai rio abaixo
Ele vai rio acima
Ele voa entre o céu e a terra
Ele desce no rio grande.

Tem-se, através dos versos, praticamente um storyboard – uma série de imagens arranjadas em sequência com o propósito de pré-visualizar um filme. Lévi-Strauss em “A eficácia simbólica”, ao analisar a estilística de um canto xamanístico dos índios cuna do Panamá, chama a atenção para algo parecido usado como recurso de memorização. Ele reconhece, intuitivamente, a técnica ideogrâmica empregada no poema indígena: ao tratar das descrições minuciosas de determinadas situações que se repetem no poema, ele escreve: “é como se fossem, dir-se-ia, filmados ‘em câmara lenta’”. Transcrevemos aqui a passagem para que se possa comparar com o poema maxakali:

A parteira dá uma volta dentro da cabana;
A parteira procura pérolas;
A parteira dá uma volta;
A parteira põe um pé diante do outro;
A parteira toca o solo com seu pé;
A parteira coloca o outro pé para a frente;
A parteira abre a porta de sua cabana; a porta de sua cabana estala;
A parteira sai…

Trata-se do mesmo paralelismo, da mesma concisão, e da mesma parataxe encontradas no yãmîy. O que temos no yãmîy é o que é chamado de “montagem de atributos”. Os yãmîys maxakalis apresentam os atributos dos seres cantados. É um ideograma que presentifica um espírito ou totem. Sua estruturação se dá basicamente por montagem. A montagem é uma “atividade de fusão ou síntese mental, em que pormenores isolados (fragmentos) se unem, num nível mais elevado do pensamento, através de uma maneira desusada, emocional, de raciocinar – diferente da lógica comum”.

O yãmîy uma espécie de avatar que expressa a concretização de um espírito na terra através do método da montagem ou ideograma. Segundo depoimento dos próprios índios, o yãmîy/canto não representa ou homenageia o yãmîy/espírito, mas É O PRÓPRIO ESPÍRITO; o que nos remete a algo que está na origem da relação signo (para ser mais específico, neste caso devemos mencionar “símbolo”) e referencial, que é a antiga concepção de “palavra mágica”, como formulada por Ernst Cassirer: aquela que está na origem da criação e que tem o poder de, ao ser mencionada, fazer surgir a coisa. Em certa medida equivale à “palavra-força” de Zumthor, que, em contraposição à palavra ordinária, banal, superficial, “tem seus portadores privilegiados: velhos, predicadores, chefes, santos e, de maneira diferente, os poetas”.

Quando, em ritual, os Maxakali recitam ou cantam seus yãmîys estão presentificando seus deuses, e com eles se relacionando, conversando, recebendo ensinamentos, aprendendo a tradição e também, por que não, a lidar com o novo.

Baseado em texto de Charles Bicalho - UFMG

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