segunda-feira, março 17, 2014


Em terra de cego, quem tem olho é bruxa.


Sisifo, de Tiziano (1549). Sísifo foi um mortal que, tomado
frequentemente pela hýbris, foi punido pela eternidade de modo
que tivesse de, todos os dias, carregar uma pedra até o topo de
uma montanha. No final do percurso, em função do seu cansaço,
deixaria cair a pedra voltando ao ponto de partida, tendo de
começar tudo de novo. Seu mito é uma metáfora para o trabalho
pesado e difícil, mas inútil. Sísifo é a bruxa não aceita o mundo
tal como ele é. 
“O tolo não vê a mesma árvore que o sábio” já dizia William Blake. Relendo algumas páginas desse Sábio inglês, ao me deparar com essas palavras, lembrei-me do que eu entendo por um dos mais interessantes Mistérios da bruxaria: a natureza sábia (e marginal) da bruxa em uma sociedade de tolos. Há quem diga que quem tem olho em terra de cego é rei. Eu tenho cá minhas dúvidas.

Jesus foi supostamente crucificado. Giordano Bruno pra fogueira. Galileu, passou os últimos anos da sua vida preso em casa. Emily Dickison, Kafka,  Thoreau, só ganharam fama pelos seus escritos depois que morreram. Oscar Wilde, anos na prisão e morreu na miséria. Ora, e tantos outros, esquecidos e marginais, que caminharam por essa Terra e que se souberam olharem-na tão bem, as vezes justamente por isso, morreram esquecidos e condenados por quem não tinha olhos. Ou por aqueles que “não conseguiam ouvir a música”, como diria Nietzsche.

O que eu quero dizer é que a bruxa sempre enxergará em uma terra em que as pessoas somente olham. O bruxo sempre caminhará, peregrino, sob o sol ardente, em uma estrada onde as pessoas preferem se recolher na sombra. A bruxaria pode temperar-nos com as especiarias secretas da vida enquanto que os “profanos” só sentem o salgado e o azedo e nunca conhecerão algo diferente. A bruxa faz, e o mortal espera. Ela dança em uma realidade em que poucos conhecem a música. E por que a bruxa sempre foi um ser marginal? Justamente por ser diferente. Os ignorantes temem o desconhecido.

A Força no tarot de
Marselha representa o
esforço que o bruxo tem de
fazer para controlar seus
impulsos de "salvar o
mundo" ao seu redor. 
Toda bruxa é um pouco Cassandra – a troiana que foi abençoada por Apolo com o dom da profecia, mas amaldiçoada para que nunca ninguém acreditasse nas suas previsões. E se essa bruxa não se cuidar, não aceitar a sua natureza marginal, oculta, “louca”, “insana”, pode chegar o dia em que ela acreditará que nas palavras dos ignorantes. E quando ela fizer isso, quando ela acreditar que é uma louca, e sujeitar-se a normalidade, ela arrancará os olhos que os deuses lhe deram, ficando cega como o resto do mundo.

Um grande passo para uma das mais importantes Iniciações que podemos ter: a compreensão de que não mudaremos as pessoas que nos cercam, e logo, não mudaremos o mundo delas. De que as pessoas muitas vezes são ignorantes e, surdas, não saberão diferenciar o sagrado do profano (elas geralmente invertem esses papéis). Um bruxo não pode se frustrar pela cegueira alheia, mas diferente disso, agradecer pela Visão.

O Iniciado é um iluminado em um mundo de trevas. E geralmente sua luz chama a atenção. Então que possamos transformar apenas o que está ao nosso alcance. Que falemos apenas aos que sabem ouvir. Que ajudemos apenas os que pedem ajuda e que possamos fazer até onde a ponta do nosso Athame toca, e não mais do que isso. Não aceitar isso é ser como Sísifo.

E como Blake nunca é demais: “Escuta a crítica dos imbecis. É um nobre elogio”. 

 

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