terça-feira, agosto 26, 2014

Por que a relação contemporânea com a morte passa pelo espetáculo

Selfies em velórios e xingamentos a ídolo futebolístico morto abrem discussão sobre a visão do fim da vida vigente em nossa época

23/08/2014 | 16h01
Por que a relação contemporânea com a morte passa pelo espetáculo Chico Peixoto/Fotos Públicas
Populares tiram fotos do cortejo do ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência, Eduardo Campos, no cemitério de Santo Amaro, no Recife,Foto: Chico Peixoto / Fotos Públicas
É, a morte não é mais aquela – ao menos no olhar dos que ficam para contemplá-la.
Sua nova representação é visível em pelo menos dois episódios que causaram polêmica neste mês:
Em Recife, as selfies invadiram o velório do ex-governador Eduardo Campos – com poses até ao lado da viúva, no domingo passado.
Em Porto Alegre, o coro “Fernandão morreu, Fernandão morreu”, entoado por torcedores gremistas no Beira-Rio como provocação aos colorados, no Gre-Nal do Dia dos Pais, cruzou a última fronteira das rixas futebolísticas.
Mas quando foi mesmo que o bom senso morreu? Em que momento a finitude da existência perdeu sua aura sacra para virar cenário para vaidades e agressões?
Autora da tese de doutorado Aqui se Jaz, Aqui se Paga – O Mercado da Morte e do Morrer em Tempos de Imortalidade, que foi defendida pela UERJ e será lançada em livro em dezembro pela editora Appris, a psicóloga Lana Veras tem uma convicção: as novas formas de lidar com a morte não diferem tanto da maneira como lidamos com a vida. Em tempos de sociedade do espetáculo – onde tudo vira produto a ser exibido, compartilhado e vendido, numa competição acelerada para se sobressair a qualquer preço (seja no número de likes no Facebook ou em degraus na carreira ) –, nem a morte escapa às regras do mercado.
– Quando se faz uma selfie em um velório, a pessoa está mostrando que está antenada, atualizada, que está ali na despedida de uma pessoa famosa. Então ela faz 10 fotos para escolher a que ficou melhor. Em primeiro plano está a pessoa, não o morto. Isso expressa uma enorme carga de narcisismo, porque o morto não interessa – analisa Lana, que também é professora do curso de medicina da Universidade Federal do Piauí.
Diante dessa espetacularização do cotidiano, ser feliz (e, principalmente, mostrar que está feliz) virou uma obrigação. Como consequência, pesquisadores observam uma dificuldade social crescente em lidar com a tristeza e com o luto. Sucesso é ostentar alegria permanente nas redes sociais – mesmo que o sorriso só dure o tempo do clique. Confrontados com o imperativo da felicidade, tendemos a fugir da dor e do silêncio que permitiria reflexões mais profundas.
– Isto abre as portas para a “negação da morte”, o que leva muitas destas  pessoas a se comportarem como se o fato não tivesse realmente acontecido e mergulharem numa lógica delirante,  legitimada quase sempre por rígidos preceitos religiosos, para não ter que se defrontar com o que se poderia chamar de horror da perda – avalia o professor Jorge Coelho Soares, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Assim, mesmo a dor pela perda de alguém querido passa a ser menos tolerada socialmente. A mudança é visível até nas condolências, como observa a psicóloga Lana Veras: décadas atrás, quando alguém morria, as palavras mais comuns ditas aos familiares eram: “meus pêsames”, “meus sentimentos” – que expressavam a ideia de uma solidariedade com a dor. Hoje essas expressões soam antiquadas. E foram substituídas por quais? “Força!”, “Cabeça para cima!”, “Não fique triste, porque ele não queria ver você triste assim!”.
– As palavras de antes eram uma forma de dizer que as pessoas estariam juntas no sofrimento. Agora parece um recado dizendo: eu não tolero seu sofrimento por muito tempo, porque ver os outros nos faz sofrer também. Então, quanto mais rápido passar esse sofrimento, melhor – constata Lana.
Essa mudança na representação social da morte é influenciada por fatores históricos, culturais e religiosos, destaca Maria Julia Kovács, professora do instituto de psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte. Cada vez mais, em vez de sentirmos o cheiro da morte em nossas casas, como no passado, transferimos nossa agonia para os corredores assépticos dos hospitais – passando a delegar à ciência a responsabilidade de contorná-la.
– (Antes a morte) ocorria em casa e os rituais aconteciam com participação da família, amigos e comunidade. Com o avanço da tecnologia médica e os hospitais, vemos na atualidade mortes solitárias e prolongadas. Tanto que hoje se teme mais o processo de morrer do que a morte – reflete.
Sem encarar a morte de perto, afastamos a carga dramática que lhe é inerente do nosso cotidiano.  Mesmo assistindo pela televisão a uma profusão de tragédias todos os dias, tendemos a banalizá-las. A morte vira estatística. Algo distante, ausente, em que o sofrimento é negado. Nesse ambiente, os gritos no estádio de “Fernandão morreu” encontram espaço para virar bordão. E um caixão ilustre passa a ser visto como um cenário interessante para se exibir nas redes sociais.
Não que o uso da imagem dos mortos seja algo recente. Pelo contrário. De acordo com o historiador Miguel Soares, professor de história da arte da Ulbra, desde o Paleolítico os homens se dedicam à representação dos mortos –  naquela época, arrancando o crânio e esculpindo os traços da vítima em barro. Com o surgimento da fotografia, em 1839, os defuntos estiveram entre os  primeiros fotografados, já que a imobilidade facilitava o clique. Raros, os retratos passavam a ser a única lembrança de quem se foi – e, especialmente até os anos 1960, era comum famílias pendurarem a lembrança nas paredes.
– A imagem é filha da morte. Se fôssemos eternos, não precisaríamos registrar e preservar a memória – define o historiador.
A diferença é que, antes, as fotografias eram uma homenagem aos mortos. Hoje também viraram cenário para o exibicionismo dos vivos.

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