segunda-feira, abril 06, 2015

A Coroa
Charles Evaldo Boller
Quando o maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito passa ao grau de mestre, todos os seus irmãos, independente de grau, identificam-no por um sinal visível externo; é um chapéu, que simbolicamente representa uma coroa.
Esta coroa une o que está debaixo dela, o homem, com o que está acima, o divino, servindo de limite entre quem a carrega com sua componente transcendental. É através desta coroa que o mestre maçom alcança decisões racionais que estão muito acima da escravidão sensorial. Esta conexão propicia capacidades que vão além do simples pensar. Se persistir, for dedicado e estudar, este homem será capaz de desenvolver potencialidades elevadas até então desconhecidas para ele.
A coroa do mestre maçom sobre sua cabeça é um chapéu de feltro de abas moles e caídas, sem o qual ele não comparece em câmara do meio. Quando em sessões de outros graus é como se esta coroa ali estivesse, pois dentro do templo, em loja constituída, é o local onde ele desenvolve sua capacidade de discernimento e visão equilibrada, objetivo de todo maçom que escala a escada de Jacó. O chapéu faz de sua aparência uma pessoa eminente, um venerável mestre, à semelhança do monge da Idade Média que dirigia construções feitas em pedra. Por terminar em forma de domo, o chapéu afirma uma soberania absoluta sobre si e confirma que ele continua desenvolvendo em sua caminhada de aprendiz. Ao elevar-se acima da cabeça, o chapéu é insígnia de poder e luz, significando conhecimento. Comparar o chapéu a uma coroa é dar a este o significado de uma capacidade sobre-humana, transcendente. Este paramento simboliza a obliteração do mundo material e concentra simbolicamente capacidades na solução de problemas da humanidade, é o persistir na tarefa de desbastar a pedra bruta.
A coroa é como uma antena que simbolicamente se conecta a outra dimensão, uma potencialidade construída na mente. Em sendo negro, sabe-se pelas leis da física que esta ausência de cor absorve todos os comprimentos de onda do espectro da luz visível e invisível aos olhos materiais. Isto permite especular que até linhas de campos de força e outras manifestações energéticas mais sutis podem ser atraídas por esta coroa. O chapéu do mestre maçom funciona assim qual antena que, simbolicamente, o conecta com aquilo que lhe propicia o sopro de vida e que o faz igual a todos os seres viventes da biosfera. Ciente de sua relação com o resto das formas de vida, em suas mais diversas constituições e aparências, o mestre maçom se integra com a natureza e desenvolve o amor fraterno para com os seus iguais, para com toda a vida espalhada pelo Universo, inclusive com outras possíveis biosferas de galáxias diversas da que abriga o Sol.
É importante estar desperto e consciente que o chapéu do mestre maçom é apenas um paramento, um artefato material, um símbolo; o que faz a diferença está debaixo do chapéu, a cabeça, a capacidade intelectual do portador da coroa e o que este intelecto constrói simbolicamente fora e acima do chapéu. Ela constitui a recompensa justa da prova que o maçom faz ao longo da vida, por edificar templos à virtude e cavar masmorras ao vício. Simboliza dignidade, poder, realeza, acesso a um nível de forças superiores, sobrenaturais.
Exige-se esforço pessoal para superar, conhecer e mandar em si próprio, pois é apenas sobre si mesmo que cada ser tem poder absoluto, incontestável. O iluminado subjuga sua mente e corpo, e, para progredir, bate implacavelmente nas nódoas que levam a vício e degradação. Mesmo que sucumba diante da tentação, o simbolismo do chapéu o fará voltar para a linha reta que conduz ao oriente, em direção à luz, ao conhecimento, à sabedoria.
O chapéu representa o verdadeiro poder que está dentro de si, a inclinação interna positiva, o coração que ama fraternalmente, tudo em resultado da capacidade de pensar, afiada constantemente por leitura, estudo e meditação. O mestre maçom tem o ministério de ensinar aprendizes, companheiros e outros mestres maçons. Aquele mestre maçom que desta obrigação se esquiva não é merecedor da coroa. O irmão que se desenvolveu em sapiência, aprendeu na prática que ao ensinar outros o seu próprio conhecimento fixa-se mais, os conceitos e princípios morais que despertam em sua mente agarram-se mais firmemente ao coração e à memória. Na sua missão de ensinar deve constantemente provocar, instigar, distribuir os seus pensamentos em palavras e participar de forma proativa, conciliadora e entusiasta de todos os debates com temas com os quais a Maçonaria, nos diversos graus, o provoca.
Debaixo do chapéu, o mestre maçom ouve atentamente as peças de arquitetura, oratórias e discussões de temas com os quais os irmãos se presenteiam e provocam. É o chapéu que o freia prudentemente em todas as ocasiões em que fica ordeiramente esperando os outros irmãos falarem. É nestas ocasiões que treina a arte de ouvir do líder. Debaixo do chapéu ele fica concentrado, calado, ouvindo e anotando o que os outros irmãos dizem. Depois ele analisa e absorve o que está ao seu alcance para suprir seu autoconhecimento, monta estratégias e colabora empaticamente no tema com seu parecer, postura e comentário. E ao auxiliar a assembleia de irmãos com a força do seu pensamento, transmitido por sua capacidade de oratória, além de ajudar aos outros, ele ajuda principalmente a si próprio. Servir no ensinar não é apenas mais uma razão para torna-se merecedor do prêmio, a coroa que está sobre sua cabeça, o símbolo do seu poder, é a principal razão dele lecionar na escola de conhecimento da Maçonaria. Não existe magia ou mistério; é o servir e a presença constante no grupo que lhe dá poderes que ele nunca imaginava existirem. E este é um poder natural que ninguém usurpa.
O chapéu representa uma estrutura educacional apoiada em três pontos: racional, emocional e espiritual; um apoia o outro, formando um tripé. É do equilíbrio propiciado pelo que simboliza o chapéu que desabrocha a pessoa completa. Esta educação e condicionamento elevam o portador do chapéu à realeza dos iniciados nos diversos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, onde é livre para pensar e ajudar seus irmãos através de uma razão esclarecida. É pelo estudo diligente, pelo treinamento dos sentidos, pela convivência constante que ele atinge o ideal, e este lhe confere realeza, da qual o chapéu, apesar de sua aparência grosseira, é o símbolo mais expressivo. Debaixo do chapéu é a maneira mais nobre de viver o amor fraterno, a única ação capaz de salvar a humanidade de um existir miserável. Debaixo do chapéu aflora a capacidade de ouvir, ensinar e treinar em loja, o que faz do mestre maçom um líder natural.
Primeiro é importante cuidar de si, porque quem não estiver forte, como ajudará aos outros? Quem não se ama como amará ao próximo? Na relação com outros e consigo mesmo desenvolve a capacidade de tornar-se o amigo sincero e serve ao irmão no que deve ser feito e não no que aquele deseja; o contrário seria escravidão. É servindo que aflora o líder. Amor fraterno é ação, não sentimento. O mestre maçom que desonra o chapéu e trata seus irmãos de forma infame e autoritária, suas ações podem até estar alicerçados na lei escrita em papel, mas ele não é um líder nato, é um tirano. O líder natural é semelhante ao poder que tem uma mãe sobre seus filhos, ela não precisa impor sua vontade e apenas faz o que deve ser feito para seus rebentos; ela é o melhor exemplo do líder natural. A mãe que tem necessidade de usar do chicote para dirigir sua casa já não tem mais capacidade de liderança natural e exerce poder despótico. O mestre maçom que alcança este grau de entendimento e perfeição em sua capacidade de liderança, tem no seu chapéu a representação simbólica do poder que ele exerce sobre a comunidade.
Ele serve ao irmão não porque aquele é maçom e o juramento o exige, mas porque ele próprio é maçom e depende igualmente dos confrades. O chapéu representa a capacidade de liderança, é o símbolo da autoridade que não outorga poder de comando sobre os outros, pois ele próprio fica sujeito a obediências que lhe são impostas. O chapéu traduz a perfeita igualdade que deve pairar entre seus pares.
Mas como falar em igualdade nos diversos graus entre pessoas desiguais? Todos são iguais quanto à essência, por estarem providos do mesmo sopro de vida. Na Maçonaria, quanto mais o maçom cresce, mais ele se conscientiza que deve servir aos que estão degraus mais baixos da simbólica escada de Jacó. É o exercício da humildade que lhe dá o devido valor, e é transmitida pela rota, mole e disforme coroa, confeccionada a partir de um tecido ordinário. Ela poderia muito bem ser produzida em aço e cravejada de joias preciosas, entretanto, de que vale um bem material que pode ser subtraído pelo ladrão ou destruído pela ferrugem? As preciosidades estão debaixo do chapéu, na forma de pensamentos e ações, valores que ladrão algum deseja e apenas a morte destrói.
O chapéu induz seu portador a naturalmente usar do dever de governar de acordo com a necessidade da coletividade. O chapéu representa que seu usuário está fortalecido e não se curva perante desmando, futilidade ou arbitrariedade. É o chapéu que impede àquele que o usa de transformar-se em déspota. Isto é muito bem retratado quando em sua loja o bom mestre maçom ouve e serve aos outros. É o chapéu que inspira o propiciar dos meios de concentrar forças para produzir os nobres e elevados anseios dos irmãos do quadro.
Longe de exercer a autoridade emanada do chapéu de forma cruenta, o humilde e prudente mestre maçom torna-se líder natural. Ao obter poder servindo ao próximo, ele já é parte da realeza que representa o seu chapéu, e isto lhe dá a distinção de participar da natureza celeste de seus dons sobre-humanos, transcendentes. É do símbolo do chapéu, do que está debaixo deste, que provém a ação e a capacidade de influenciar aos outros a fazerem o que precisam fazer para se tornarem felizes. É a ação do amor em benefício da humanidade. É a ação de construir templos à virtude. É a ação da vivência do amor fraterno debaixo da orientação dos eflúvios provenientes da coroa, do poder que emana do chapéu do mestre maçom servidor.
A sapiência é a busca das energias e coisas mais elevadas; algo bem diferente de sabedoria. Enquanto a sabedoria pode ser confundida com prudência, pois diz respeito apenas aos assuntos materiais e de como o homem age, a sapiência é muito mais importante. A Maçonaria trabalha a sabedoria que leva à luz da sapiência. A filosofia maçônica é sapiente. A coluna da sabedoria é a antena simbólica de onde emana uma luz de modo que cada um que porta um reles chapéu mole, cada um a sua maneira, desenvolve sua sapiência para as coisas mais elevadas. O chapéu como paramento, símbolo que o mestre maçom usa qual coroa em câmara do meio, torna-o igual aos demais, nivelando-o a todos os irmãos maçons espalhados pelo Universo, para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo, de onde todos recebem a luz da sapiência.
Bibliografia
1.      BAYARD, Jean-Pierre, A Espiritualidade na Maçonaria, Da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências, tradução: Julia Vidili, ISBN 85-7374-790-0, primeira edição, Madras Editora limitada., 368 páginas, São Paulo, 2004;
2.      BENOÎT, Pierre; VAUX, Roland de, A Bíblia de Jerusalém, título original: La Sainte Bible, tradução: Samuel Martins Barbosa, primeira edição, Edições Paulinas, 1663 páginas, São Paulo, 1973;
3.      BOUCHER, Jules, A Simbólica Maçônica, Segundo as Regras da Simbólica Esotérica e Tradicional, título original: La Symbolique Maçonnique, tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros, ISBN 85-315-0625-5, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 400 páginas, São Paulo, 1979;
4.      FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix limitada., 550 páginas, São Paulo, 1989;
5.      HUNTER, James C., O Monge e o Executivo, Uma História Sobre a Essência da Liderança, título original: The Servant, tradução: Maria da Conceição Fornos de Magalhães, ISBN 85-7542-102-6, primeira edição, Editora Sextante, 140 páginas, Rio de Janeiro, 2004;
6.      Paraná, Grande Loja do, Ritual do Grau de Mestre Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, primeira edição, Grande Loja do Paraná, 66 páginas, Curitiba, 2004.

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