segunda-feira, agosto 08, 2016

Bela, Recatada e do seio de uma Loja Justa e Perfeita .
A mulher e a Maçonaria: parte 1

Por  Bárbara Rocha
Após uma breve reflexão sobre uma pergunta de reconhecimento entre maçons, que se refere “De onde vindes?”, me vejo novamente buscando nos fatos e atos passados compreensão para questões do presente.
Há algum tempo ouvi, que a Maçonaria é a escola mais perfeita e completa que existe e já existiu. Ela traz em seu âmago a essência de todo o conhecimento divino das grandes escolas de mistérios. Seus ritos trazem o desvendar de mitos sobre a natureza humana e a natureza espiritual, ela nos instiga a acender a centelha divina adormecida dentro de cada um de nós.
Quando falamos em maçonaria tradicional não nos referimos apenas a tradição de preservar determinadas regras e costumes, pois vai mais além, nos remetemos a passar á diante o fogo de Prometeu e não permitir que ele nunca  se apague.
Falar sobre as origens da maçonaria é algo um tanto que complexo, uma vez que este tem sido o tema de muitos estudiosos e pesquisadores. O que não podemos acreditar é na triste ilusão  que ela tenha sido criada em 1717 com a fundação da Grande Loja de Londres, pois sabemos que ela já era praticada há alguns séculos anteriores nos países do Reino Unido ( Escócia, Grã-Bretanha, etc) assim como na Itália e Alemanha.
Mas vamos voltar ao objetivo desse estudo: o nascimento da Maçonaria Feminina!
Alguns escritores fazem alusão ao nascimento das lojas femininas com o surgimento do movimento feminista, o que não é. De alguma forma esse argumento pode ter dado bases mais firmes para o estabelecimento das lojas no século XIX. Porém, ao voltarmos nossa pesquisa para documentos mais antigos da maçonaria operativa, vamos notar que as mulheres já trabalhavam como “obreiras” segundo um dos documentos mais antigos e respeitados intitulado como Poema Régio ou Manuscrito de  Halliwell de 1390[1] que em alguns pontos de seus artigos deixa claro o trabalho entre “irmãos e irmãs”, citando os deveres e a forma de trabalhar entre os maçons.
Os ensinamentos ocultos da maçonaria também se embasam nos ensinamentos  primitivos da “árvore da vida” (judaísmo e cristianismo primitivo). No templo encontramos na sua figuração simbólica duas colunas: J e B, uma referindo-se ao aspecto lunar, coluna negra, e a outra ao aspecto solar, coluna branca, nos mostrando que as forças do universo são compostas pelo movimento feminino e masculino, positivo e negativo, dia e noite.
Segundo os ensinamentos herméticos, as colunas simbólicas estão também relacionadas à lei de Gênero como vemos a seguir
O Gênero está em tudo; tudo tem o seu principio masculino e o seu principio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”.
Este principio encerra a verdade que o gênero é manifestado em tudo; que o princípio masculino e o princípio feminino sempre estão em ação. Isto é certo não só no plano físico, mas também nos Planos Mental e espiritual. (O Caibalion)
Apesar das pesquisas sobre maçonaria feminina ser algo mais recente, ela sempre esteve presente na história de forma oculta ou revelada. A dita “proibição” das mulheres na maçonaria é algo recente. Corroborando as palavras de Mellor (1976, p. 99 e 100) nos diz que
Nenhuma exclusão das mulheres estava escrita nos Old Charges [2]. A regra mencionada, consequentemente, não procedia absolutamente de “tempos imemoriais”, mas sim, do primeiro quarto século XVIII,. Ela aparece nas Constituições de Anderson de 1723, pela primeira vez na história. Longe de ser um Landmark, ela é uma inovação.
          É importante salientar que essas “inovações’” vão contra os próprios princípios da Maçonaria como podemos perceber em um estudo minucioso dos manuscritos que a compõe.
A mesma Landmark que proíbe mulheres, proíbe também escravos e aleijados (Mackey, 1807-1881). A maçonaria é uma Ordem evolutiva e progressista, não existem mais escravos á não ser aqueles que servem apenas a sua própria ignorância e paixões. Segundo o primeiro artigo da Constituição de Anderson (antes das aproximadamente 15 alterações) a exclusão das mulheres não lhes tirava o direito de serem maçons, mas de prevenir outros tipos “paixões” como veremos
Deveres prescritos aos maçons livres
Aqueles que são admitidos como membros de uma loja devem estar imbuídos de uma grande fidelidade, devem ser livres e de idade adulta. Um escravo, ou um homem de costumes escandalosos e reprováveis não podem ser admitidos à Fraternidade: as mulheres também são excluídas, mas apenas por causa dos efeitos que seu mérito produz muito frequentemente sobre os melhores irmãos.
            Poderíamos nos aprofundar em muitas reflexões de moralidade sobre esta questão. Muitos dos homens que estiveram no comando da maçonaria, principalmente entre o século XVIII e XIX, mantinham dentro dela interesses políticos e religiosos, a mulher nesse período encontrava-se de alguma forma a mercê de seus direitos por conta de dogmas puramente religiosos de submissão.
          Voltemos aos tempos remotos das primeiras escolas de mistérios[3] onde homens e mulheres passavam por longos processos de purificação e recebiam ensinamentos sobre vida, morte e o Universo. Segundo a definição da Wikipedia, embasada em textos  de Blavatsky,diz que
Os Mistérios eram, em todos os países nos quais eram praticados, uma série de representações dramáticas, onde a cosmogonia e a natureza oculta eram personificadas por sacerdotes e neófitos, desempenhando o papel de diferentes deuses e deusas, repetindo alegorias (cenas) de passagens de suas vidas. As encenações eram posteriormente explicadas aos candidatos em seu sentido oculto e incorporadas às doutrinas filosóficas e a vida cotidiana.
          A mulher cabia o papel de iniciadora. Era ela que mantinha o fogo sagrado dos mistérios de Eleusis aceso, e por iniciar os homens nos sacerdócio. As antigas religiões também celebravam os ritos da natureza e de fertilidade como forma de representar o processo iniciático da deusa e do deus (que pode variar o nome de acordo com as culturas dos antigos povos).
          As estatuetas de Vênus datada da pré-história eram também uma forma de representar o poder da mulher entre os povos. Ela era representada com seios grandes e abundantes, quadris largos , representando a geração e a fertilidade. A Grande mãe que gera, “pari” e alimenta seus filhos.
          As atribuições do homem e da mulher eram bem definidas nas sociedades primitivas. A mulher como matriarca cuidava dos assuntos referente a agricultura e organização das aldeias. Ao homem eram atribuídas atividades de caça e pesca, levando o sustento para as aldeias, ou tribos.
          Alguns escritos da Antiguidade Grega e Romana, a mulher não podia participar de discussões políticas, salve algumas cortesãs e algumas filósofas notáveis como  Hipácia (Hipátia), [4] e Maria a Judia [5].
          A figura da “mulher submissa” como conhecemos hoje em dia nasceu na Idade Média. Com a propagação de uma nova e única religião criada através de um acordo político com Concilio de Niceia em 325 d.c, tudo o que iria contra a nova doutrina e que abalasse a nova “fé”, passaria por um processo inquisitório criado pela própria Igreja. Dessa forma começam a dissipar a sabedoria das antigas religiões conhecidas como pagãs, derivado do termo “pagus”, referente às aldeias afastadas da cidade. 
          A figura feminina era representada sob três aspectos: Maria, o ideal de pureza , representado pelas mulheres que abandonavam suas vidas para viver em conventos; Maria Madalena, representava o ideal de arrependimento, ou seja, aquelas mulheres que para se redimir dos seus “pecados”, entregavam seus bens a Igreja e começariam a viver uma vida sob a conduta religiosa. E por fim a representação de Eva, que representava o mal personificado, a porta de acesso do pecado, eram normalmente as mulheres julgadas por bruxaria, que não tinham mais salvação. Os julgamentos eram feitos de acordo com o Malleus Malleficarum [6] .
          Compreendendo um pouco mais sobre a questão do papel da mulher ao longo dessa breve passagem histórica, podemos concluir que a mulher não está lutando pelo seu papel dentro das Ordens Iniciáticas, mas sim, reconquistando o seu lugar, reconhecendo novamente seu poder e sua essência que por algum tempo foi suprimida por uma cultura de subterfúgio patriarcal.
          Sabe-se que muitos documentos não apenas da história da maçonaria feminina, como da maçonaria em si se perderam, foram queimados, escondidos e até mesmo alterados. Nem todos os documentos existentes ainda foram traduzidos e divulgados, por isso existem grandes dificuldades em fundamentar trabalhos científicos referente ao assunto.
          Dentro dos registros históricos, podemos citar como primeiras maçons, Margareth Wild (1663) ainda na fase operativa da Maçonaria. Em 1696, encontram-se relatos de duas viúvas iniciadas. Um dos nomes mais notórios é o de Mary Banister (1713-1714), uma filha de um barbeiro que trabalhou como aprendiz por sete anos, recebendo posteriormente seu aumento de salário. Existe um documento intitulado Ms York, de 1693, escrito em inglês arcaico que diz “ Um dos antigos pegara o Livro (da lei) e aquele e aquela que vai ser recebido como maçom pousará suas mãos sobre ele, e o preceito estará dado” São poucos os registros de nomes femininos referentes a este período, mas muitas são as referências sobre as iniciações maçônicas de homens e mulheres, sem distinção de gênero, reconhecendo-os como iguais perante as três grandes Luzes da Maçonaria.
Lembrando que segundo o artigo 1° da Constituição do Grande Oriente da França: (Mellor, p. 145)
Art.1. A Franco Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por objetivo a busca da verdade, o estudo da moral e a prática da solidariedade. Ela trabalha pela melhora material e moral, pelo aperfeiçoamento intelectual e social da humanidade
          Não podendo negar a existência dessa história, surgem em meados de 1725, as chamadas Lojas de Adoção, para a participação de mulheres, sendo os ritos realizados por homens. Uma das primeiras Lojas de adoção, foi a Loja “Nove Musas”. A ideia se espalhou rápido por toda a França, Itália e Alemanha. As lojas de adoção abriram espaço para que as mulheres pudessem iniciar-se também nos altos graus da maçonaria. Uma das primeiras iniciadas neles, foram J.B Wllermoz, de Lyon, Mille Mochete e também a esposa de Cagliostro, que juntos fundaram os ritos da Maçonaria egípcia.
Com o tempo as lojas de adoção foram enfraquecendo com conflitos políticos que surgiram durante a época de trabalho destas Lojas. Em 1865, o venerável mestre da Loja “Marte e as Artes”, Léon Richer começa sua campanha pela iniciação de mulheres e criação de lojas femininas.
Em 1880, iniciou uma nova revolução dentro da maçonaria, a Loja “Os livres Pensadores” decide iniciar a primeira mulher dentro do rito tradicional REAA. Foi Maria Deraimes uma literata e mulher livre e de bons costumes, com laços estreitos de amizade com Léon Richer convidada a iniciar. Sua iniciação aconteceu no dia 14 de janeiro de 1882, na loja Os Livres Pensadores sob o malhete do ir. Houbron. Suas palavras após o rito de iniciação foram “ Meus Irr.´., a porta que me abristes não se fechará após mim, e toda uma legião seguir-me-á.”


Muitos questionamentos surgirão desde sua iniciação, nenhuma mulher foi iniciada após. Maria Dereimes usou os seus livros, formas para propagar e explanar suas ideias e indignações. Após 10 anos, junta-se a Gaston Martin, fundador do Direito Humano “Le Droit Humain” [7] (uma obediência maçônica) criaram a primeira Loja feminina (que se tem registros históricos)
Em 1935 na Assembleia Geral do Grande Oriente da França, foi formalizado a emancipação das lojas femininas, ou seja, no ato foi realizado uma transição de “lojas de adoção” para “lojas excepcionalmente femininas”, dando a plena autonomia do trabalho nas oficinas maçônicas. Podemos acompanhar um trecho da ata de 1935,  transcrito por Mellor. (1976, p.128 e 129)
A Assembleia Geral da Grande Loja da França, ao afirmar, mais uma vez, seu desejo em trabalhar em favor da emancipação da mulher;
Decide conceber ás suas Lojas de Adoção a mais completa autonomia, auxiliando-as na criação de uma maçonaria exclusivamente feminina, que tenha por finalidade a reabilitação moral, intelectual e  social da mulher, por tanto tempo mantida sob tutela de acordo com os costumes e legislações; [...]
A Assembléia Geral será presidida por um Conselheiro federal, o Grão-Mestre da Grande Loja da França, ao término da Assembléia, será portador da adesão da obediência á criação da Franco-Maçonaria feminina independente .[...]
Confia em que as Irmãs pertencentes ás Lojas de adoção, por unanimidade, tenham o nobre orgulho de colocar lado a lado a Maçonaria feminina e a Maçonaria masculina em um plano de igualdade; que elas possam tornar belas e viáveis as Lojas femininas, cientes de que seu zelo e seu entusiasmo aumentam na proporção da grandeza de seu trabalho, e cientes também de que é através desse trabalho que elas são iniciadas, segundo a formula de seu Ritual: “ o adepto é aquele que vence pela vontade e pelas obras.”

E então minhas irmãs, de onde vindes? É necessário conhecer a nossa história, não para lutar por ideais profanos de igualdade, mas para despertar nossa consciência e nossa essência e nosso papel dentro desse universo tão justo e perfeito que é a Maçonaria. Que possamos sempre caminhar em direção a Sabedoria, sustentar nosso Templo com Força e adorna-lo com Beleza.
Lembremo-nos de nossas raízes, para poder espalhar nossas sementes.
Nossa história está apenas começando....


Referência Bibliográfica
MELLOR, Alec. Os grandes problemas da atual Franco-Maçonaria- Os novos rumos da franco-maçonaria. São Paulo. Ed. Pensamento, 1976.  




[1] O texto original foi grafado em inglês arcaico, com letras góticas, sobre pele de carneiro. É composto por 64 páginas, contendo 794 versos. A data de sua produção, segundo especialistas, estima-se como sendo situada na década de 1390, apesar de que, supõem-se que tenha sido copiado de um documento mais antigo. O autor é desconhecido e o local de origem, segundo o historiador maçônico Wilhem Begemann, é a cidade inglesa de Worcester (fundada em 407 DC). (fonte : http://www.ocultura.org.br)
[2] As Old Charges ou Antigos Deveres ou, ainda, Antigas Obrigações são, na verdade pergaminhos ou documentos escritos usados, a título de Constituição, pelos Maçons Operativos das Lojas de Talhadores de Pedra.
Atualmente o número desses manuscritos, conhecidos e reconhecidos como autênticos, já se aproxima dos cento e quarenta, dentre os quais, destacam-se: Carta de Bolonha (1210),O Poema Regius, de 1390, também chamado de "Manuscrito de Halliwell" (pode ter sido uma cópia de meados de 1.150) ; O Manuscrito de Cooke, de 1410; Os Estatutos de Schaw, de 1598; O Manuscrito de Inigo Jones, de 1607; O Manuscrito de Kilwinning, de 1665; O Manuscrito de Aitchison-Haven, de 1666; O Manuscrito de Melrose, de 1674.
As Old Charges, por sua importância histórica, serviram para estabelecer na Inglaterra a existência de uma Maçonaria organizada antes da fundação da Grande Loja de Londres, embora com finalidades diferentes das que são hoje conhecidas, tendo, por isto mesmo, influído de modo marcante para a organização da Maçonaria Especulativa.

[3] As escolas de mistérios  tem sua origem nas antigas culturas da Pérsia, Grécia, Egito, Babilônia, Suméria, ECT.
[4] Cultivou superiormente as matemáticas e a filosofia. Manteve viva a chama do pensamento helênico de raiz ateniense numa Alexandria dilacerada pelas lutas religiosas. Foi brutalmente assassinada por uma multidão de religiosos fanáticos. Deste período podemos citar também, Safo de Lesbos (VII-VI a.c); Theano (546 a.c) Aspásia de Mileto (470-410 a.c)
[5] Viveu em Alexandria, seguidora do culto de Isis é considerada como a fundadora da alquimia. Entre os escritos está o livro de Magia Prática. Atribui-se a ela a descoberta do ácido clorídrico e é em homenagem às suas descobertas com o ponto de ebulição da água o nome de banho-maria.
[6] Livro criado através de uma bula papal, em  aproximadamente 1486, na Alemanha. O livro é dividido em três partes; na primeira, relata as propriedades do demônio e sua ligação com a bruxaria; a segunda trata de como lidar com os malefícios durante o dia-a-dia; finalmente, a terceira parte faz a descrição de como proceder aos julgamentos e como cumprir as sentenças.
[7] O Direito Humano (ou Le Droit Humain) é uma Obediência Maçônica (1) que se constituiu pelo esforço conjunto de Maria Deraismes e Georges Martin (2) bem como outros Homens e Mulheres iniciados, os quais conscientes da necessidade de estabelecer uma Igualdade real entre o Homem e a Mulher, fundaram esta Ordem com o intuito de trabalhar para o desenvolvimento de correctos valores e princípios em Templo Maçônico e que se projetassem na Vida, tal vanguardismo pode ser medido ainda hoje pela postura existente na sociedade mundial, em que o homem e a mulher não têm, de facto, os mesmos direitos e deveres, nem mesmo na maioria dos países em que tal está consignado nas suas Leis. (fonte: http://www.maconaria.net/)

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