quarta-feira, setembro 30, 2009

Sois Maçom?

Sois Maçom?

Só me lembrava daquela forte dor no peito. Como viera eu parar aqui? O ambiente me era familiar. Já estivera aqui, mas quando? Caminhava sem rumo. Pessoas desconhecidas passavam por mim, contudo, não dfghxfgjtinha coragem de abordá-las. Mas espere, que grupo seria aquele reunido e de terno preto? Lógico! Não estariam indo e vindo de um enterro; hoje em dia é tão comum pessoas irem ao velório de roupa preta. É claro! São irmãos! Aproximei-me do grupo. Ao me verem chegar interromperam a conversa. Discretamente executei os sinais, obtendo resposta. A alegria tomou conta de mim. Estava entre amigos. Identifiquei-me, perguntei ansioso o que estava acontecendo comigo. Responderam-me com muito cuidado e fraternalmente. Havia desencarnado. Fiquei assustado; e a minha família, os meus amigos, como estavam? - Estão bem, não se preocupe; no devido tempo você os verá, responderam. Ainda assustado, indaguei do motivo de suas vestes. Estamos nos encaminhando ao nosso Templo Maçônico - foi a resposta. - Templo Maçônico? Vocês têm um? - Sim, claro. Por que não? Senti-me mais à vontade, afinal sou um 33 e com certeza receberei as honras devidas. Pedi para acompanhá-los, no que fui atendido. Ao fim da pequena caminhada divisei o Templo. Confesso que fiquei abismado. Sua imponência era enorme. As colunas do pórtico, majestosas. Nunca vira nada igual. Imaginei grupos de Irmãos conversando animadamente, porem em tom respeitoso. O que parecia o líder do grupo, que me acompanhava, chamou um irmão que estava adiante: - Irmão ! Acompanhai o Irmão recém chegado e com ele aguarde. Não entendi bem, afinal, tendo mostrado meus documentos, esperava, no mínimo, uma recepção calorosa. Talvez estejam preparando uma surpresa à minha entrada; para um 33 não poderia se esperar nada diferente. Verifiquei que os Irmãos formavam o cortejo para entrada no Templo. À distância não pude ouvir o que diziam, contudo, uma luminosidade esplendorosa cercou a todos. De tanta emoção não conseguia dizer nada. O tempo passou... Não pude medir quanto. A porta do Templo se entreabriu e o Irmão responsáve pelo cerimonial encaminhando-se a mim, comunicou que seria recebido. Ajeitei o paletó, estufei o peito, verifiquei se minhas comendas não estavam desleixadas e caminhei com ele. Tremia um pouco, mas quem não o faria em tal circunstância? Respirei fundo e adentrei ritualisticamente ao Templo. Estranho... Esperava encontrar luxuosidade esplendorosa, muito ouro e riqueza. Verifiquei, rapidamente, no entanto, uma simplicidade muito grande. Uma luz brilhante, vindo não sei de onde, iluminava o ambiente. Cumprimentei os Irmãos na forma usual. Ninguém se levantou à minha entrada. Mantinham-se calados, respeitosos. Não sabia o que fazer. Aguardava ordens ... e elas vieram em voz firme ? Reconhecendo a necessidade do telhamento em tais circunstâncias, aceitei respondê-lo. Aguardei, seguro, a pergunta seguinte. Em seu lugar o Irmão Chefe dirigindo-se aos presentes, perguntou: - Os Irmãos aqui presentes, o reconhecem como Maçom? Assustei-me. O que era isso? Por que tal pergunta? O silêncio foi total. Dirigindo-se a mim, o Irmã Chefe emendou: - Meu caro Irmão. visitante, os Irmãos aqui presentes não o reconhecem como Maçom. - Como não?! Disse eu. Não vêm as minhas insígnias? Não verificaram os meus documentos? Sim, caro Irmão, retrucou solenemente o Irmão Chefe. Contudo, não basta ter ingressado na Ordem, ter diplomas ou insígnias para ser um Maçom. É preciso, antes de tudo, ter construído o "seu Templo" e verificamos que tal não ocorreu com o Irmão. Observamos, ainda, que apesar de ter tido todas as oportunidades de estudo e de ter galgado ao mais alto possível, não absorveu seus ensinamentos. Sua passagem pela Arte Real foi efêmera. Não pude agüentar. Retruquei: - Como efêmera? Vocês que tudo sabem não observaram minhas atitudes fraternas? Fui interrompido. - Irmão, vejamos então sua defesa... Automaticamente desenhou-se na parede algo parecido com uma tela imensa de televisão e, na imagem, reconheci-me junto a um grupo de Irmãos, tecendo comentários desairosos contra a administração de minha Loja. Era verdade. Envergonhei-me. Tentei justificar, mas não encontrava argumentos. Lembrei-me, então, de minhas ações beneficentes. Indaguei-os sobre tal. E mudando a imagem como se trocassem de canal, vi-me colocando a mão vazia no Óbolo. Era fato e, costumeiramente, o fazia, por achar que o óbolo não seria bem usado... Por não ter o que argumentar; calei-me e lágrimas de remorso brotaram-me nos olhos. Iniciei a retirar-me, cabisbaixo e estanquei ao ouvir a voz autoritária e, ao mesmo tempo, fraterna do Irmão Chefe. - Meu Irmão, reconhecemos suas falhas quando no orbe terrestre e na Maçonaria. Contudo, reconhecemos, também, que o Irmão foi iniciado em nossos Augustos Mistérios. Prometemos, em suas iniciações, protegê-lo, e o faremos. O Irmão terá a oportunidade de consertar seus erros. Afinal, todos nós aqui presentes já os cometemos um dia. Descanse neste plano o tempo necessário e, ao voltar à matéria, para novas experiências, nós o encaminharemos para a Ordem Maçônica. Sua nova caminhada, com certeza, será mais promissora e útil. Saí decepcionado, mas estranhamente aliviado. Aquelas palavras parecem ter me tirado um grande peso. Com certeza, ali eu desbastara um pedaço de minha Pedra. Acordei, sobressaltado e suando. Meu coração, disparado. Levantei-me assustado, mas com certa alegria no peito. Havia sonhado!! Dirigi-me ao guarda-roupas. Meu terno ali estava. Instintivamente retirei do paletó as medalhas e insígnias e as guardei em uma caixa. Ainda emocionado, e com os olhos molhados de lágrimas, dirigi-me à minha mesa e com as mãos trêmulas e cheio de uma alegria enleante, retirei o Ritual de Aprendiz e comecei a folheá-lo.

Esculpido pelo Ir.’. Rodrigo Otávio de Mattos, Delegado do GOERJ na 14ª e publicado, a primeira vez, no Jornal Maçônico "O SEMEADOR" a quase 10 anos atrás.

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