quarta-feira, abril 03, 2013



Meia-noite é a hora em que os maçons pousam as suas ferramentas e terminam os seus trabalhos - ou seja, o momento da morte física do maçom, a ocasião em que ocorre a sua Passagem para o Oriente Eterno, como é comum os maçons referirem. 

Ao referirem que os maçons iniciam os seus trabalhos ao meio-dia e pousam as suas ferramentas à meia-noite, querem estes significar que o trabalho do maçom sobre si próprio, o seu esforço de aperfeiçoamento da sua Pedra Bruta inicial, de alisamento das suas imperfeições até a transformar numa Pedra Aparelhada, que esteja já devidamente dimensionada para poder ocupar um lugar útil no Grande Templo da Humanidade, e de cultivo e polimento das suas virtudes, para dela fazer uma Pedra Polida que, além de útil, seja bela e agradável, uma vez começado, no momento em que atingiu a maturidade necessária para reconhecer dever iniciar esse trabalho, persiste incessantemente até ao seu último suspiro, até ao derradeiro alento da sua permanência neste plano de existência.

Com uma singela frase, transmitem os mais experientes aos mais novos a noção de que o trabalho que a sua Iniciação assinalou é uma tarefa de vida para ser prosseguida durante o resto dela - ou será apenas perda de tempo e de energias.

De nada vale procurar melhorar-se, aprimorar-se, durante um certo lapso de tempo - um mês, um ano ou uma década. No momento em que essa preocupação, esse esforço, que é simultaneamente um meio e um objetivo, cesse, nesse preciso momento começa a inevitável degradação do que se tenha logrado atingir. O polimento que tenha dado brilho à sua interação com os demais, se não for continuamente persistido com o incessante lustre das suas virtudes, inevitavelmente que esmaece, se apaga. O aparelhamento da sua utilidade na vida e na sociedade inevitavelmente se degrada, abre fissuras e falhas. O resultado do esforço - quantas vezes de anos - esvai-se com mesma rapidez que a areia se desvanece por entre os dedos, apesar do esforço, tempo e trabalho tido na sua acumulação na mão.

De pouco vale ter sido uma boa pessoa. O que importa é que se seja, se continue a sê-lo. Um cozinheiro, ainda que tenha obtido três estrelas Michelin no seu restaurante, se deixar de confecionar comida agradável de comer, se a salgar, se passar a utilizar produtos pouco frescos e ingredientes sem qualidade, verá a sua clientela desertar e o seu negócio ruir em menos de um fósforo. O significado de uma vida honrada fica indelevelmente manchado por uma única nódoa, um solitário deslize, afinal uma avultada traição a tudo o que se construiu antes. Assim sendo, o maçom, uma vez iniciado o seu trabalho, deve, tem que, não pode deixar de, prossegui-lo até ao derradeiro momento da sua vida, se não quiser deitar a perder, ou pelo menos a deixar desvalorizar, todo o esforço que tenha tido.

O trabalho do maçom sobre si próprio tem de ser prosseguido, com qualidade, cuidado e persistência até ao momento em que se esgota o seu tempo de permanência neste mundo. Só assim e então poderá, de consciência tranquila e com a noção do seu dever bem cumprido, finalmente pousar suas ferramentas. É no momento da sua morte que o maçom finalmente atinge aquilo por que busca durante toda a sua vida enquanto tal: a perfeição - a sua perfeição, o melhor que pôde e conseguiu ser. 

E é assim na sua meia-noite, no exato momento em que atingiu a sua perfeição, que pousa as suas ferramentas, vê brilhar a Luz e passa ao Oriente Eterno! 

Rui Bandeira

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