terça-feira, maio 01, 2012




QUEM É OGUM???
QUEM É SÃO JORGE???
 
LENDA AFRICANA SOBRE OGUM1. OGUM – ORIXÁ DO FERRO E POR EXTENSÃO, ORIXÁ DA GUERRA.
OGUM era, a princípio, apenas o Orixá do ferro.
 
O ferro com que se faz a ferramenta, a enxada e, também as armas com que os guerreiros se defendiam dos predadores (África = Pátria dos grandes felinos). Naturalmente, a eficiência destas armas fatalmente seria utilizada na guerra.

De todas as lendas africanas sobre os Orixás, a que nos merece maior crédito, pela sua profundidade, é a descrita por Pierre Verger na sua obra ORIXÁS:

“OGUM, como personagem histórico, teria tido o filho mais velho de Odùduà , o fundador de Ifé. Era um temível guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos. Dessas expedições, ele trazia sempre um rico espólio e numerosos escravos. Guerreou contra a cidade de Ará e a destruiu. Saqueou e devastou muitos outros estados e apossou-se da cidade de Irê, matou o rei, aí instalou seu próprio filho no trono e regressou vitorioso, usando ele mesmo o título de Oníìré , “Rei de Iré”.
 
Por razões que ignoramos, OGUM nunca teve direito a usar uma coroa ( adé ), feita com pequenas contas de vidro e ornada por franjas de miçangas, dissimulando o rosto, emblema de realeza para os iorubás.
 
Foi autorizado a usar apenas um simples diadema, chamado àkòró , e isso lhe valeu ser saudado, até hoje, sob os nomes de Ògún Oníìré e Ògún Aláàkòró inclusive no novo mundo, tanto no Brasil como em Cuba, pelos descendentes dos iorubás trazidos para esses lugares.

OGUM teria sido o mais enérgico dos filhos de Odùduà e foi ele que se tornou o regente do reino de Ifé quando Odùduà ficou temporariamente cego.

OGUM decidiu, depois de numerosos anos ausente de Irê, voltar para visitar seu filho.
 
Infelizmente, as pessoas da cidade celebravam no dia da sua chegada, uma cerimônia em que os participantes não podiam falar sob nenhum pretexto.
 
OGUM tinha fome e sede; viu vários potes de vinho de palma, mas ignorava que estivessem vazios. Ninguém o havia saudado ou respondido às suas perguntas. Ele não era reconhecido no local por ter ficado ausente durante muito tempo.
 
OGUM, cuja paciência é pequena, enfureceu-se com o silêncio geral, por ele considerado ofensivo. Começou a quebrar com golpes de sabre os potes e, logo depois, sem poder se conter, passou a cortar as cabeças das pessoas mais próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe suas comidas prediletas, como cães e caramujos, feijão regado com azeite de dendê e potes de vinho de palma.
 
Enquanto saciava sua fome e sua sede, os habitantes de Irê cantavam louvores onde não faltava a menção a Ògúnjajá , que vem da frase Ògún je ajá (“Ogum come cachorro”), o que lhe valeu o nome de Ògúnjá .
 
Satisfeito e acalmado, OGUM lamentou seus atos de violência e declarou que já vivera bastante. Baixou a ponta de seu sabre em direção ao chão e desapareceu pela terra adentro com uma barulheira assustadora.
OGUM é único, mas, em Irê, diz-se que ele é composto de sete partes. Ògún méjeje lóòde Iré , frase com que faz alusão às sete aldeias hoje desaparecidas, que existiriam em volta de Irê. O número sete é, pois, associado a OGUM e ele é representado, nos lugares que lhe são consagrados, por instrumentos de ferro, em número de sete, catorze ou vinte e um, pendurados numa haste horizontal, também de ferro: lança, espada, enxada, torques, facão, ponta de flecha e enxó, símbolos de suas atividades.“
Mais adiante, Verger fala de sua vida amorosa:
“A vida amorosa de OGUM foi muito agitada. Ele foi o primeiro marido de Oiá, aquela que se tornaria mais tarde mulher de Xangô. Teve, também, relações com Oxum antes que ela fosse viver com Oxossi e com Xangô. E, também, com Obá, a terceira mulher de Xangô, e Eléfunlósunlóri ,
 
“Aquela-que-pinta-sua-cabeça-com-pós-branco-e-vermelho”, a mulher de Òrisà Oko . Teve numerosas aventuras galantes durante suas guerras, tornando-se, assim, pai de diversos Orixás, como Oxossi Oranian.”

A importância de OGUM vem do fato de ser ele um dos mais antigos dos deuses iorubás e, também, em virtude da sua ligação com os metais e aqueles que os utilizam. Sem sua permissão e sua proteção, nenhum dos trabalhos e das atividades úteis e proveitosas seriam possíveis. Ele é, então e sempre, o primeiro e abre o caminho para os outros Orixás.

Entretanto, certos deuses mais antigos que OGUM, ou originários de países vizinhos aos iorubás, não aceitaram de bom grado essa primazia assumida por OGUM, o que deu origem a conflitos entre ele e Obaluaiê e Nanã Buruku.

2. SINCRETISMO RELIGIOSO
O ideal de liberdade é inerente à própria condição do ser humano. Mesmo o mais vil dos assassinos sonha com a liberdade.
 
O que se dizer então do homem que nascendo livre nas savanas africanas e reduzido à humilíssima condição de escravo, sem nada ter feito para merecer esse castigo.
 
Assim, em seus sonhos de liberdade, o negro africano via em OGUM, o Orixá da guerra, a força que necessitava para conseguir sua liberdade.

Um dia o negro empunharia a lança e a espada de OGUM, mataria os brancos, vingando amigos e parentes mortos por estes e tomaria de uma de suas grandes canoas (caravelas) e voltaria à sua terra natal.
Diante do exposto, cultuar OGUM era, para o negro africano, vital.
 
Era ele quem os ajudaria na batalha, lhe daria forças e quem sabe lhe emprestasse a coragem de que tanto necessitava.

A figura de SÃO JORGE nos mostra um homem todo coberto com uma armadura de aço, ferindo com uma lança, o dragão, símbolo do mal. O OGUM que o negro conhecia e que era o Orixá do ferro era um Orixá guerreiro.
 
O branco lhe impunha a imagem de SÃO JORGE dizendo-lhe que esquecesse o Orixá guerreiro o continuasse humildemente cultuando OGUM “disfarçado” na imagem do Santo Católico.

As imagens tão populares, no período colonial, eram na sua grande maioria, esculpidas em madeira. O negro africano quando cumpre uma obrigação, retira do lugar sagrado onde ele deu a obrigação, um pedaço de solo, geralmente uma pedra e a qual dá-se o nome de OTÁ e que ele cultua como objeto sagrado pelo resto de seus dias.
 
Para não trair seus deuses de origem, o negro habilmente, escavava a imagem do Santo Católico e introduzia nessa escavação o OTÁ correspondente ao Orixá. Desta forma ele poderia voltar-se para uma imagem do Santo Católico e reverenciar o Orixá Africano.

O branco acabou por descobrir que os negros escavavam as imagens. Quando este fato ocorreu, o negro justificou que a imagem oca não trincava e que a pedra na base servia para dar maior estabilidade à imagem.
 
O branco ladino passou a utilizar-se destas imagens que eram encomendadas aos negros para ocultar no seu interior, fumo, ouro e pedras preciosas. Essa imagem era vedada com uma massa preparada com cera de abelhas e serragem e enviada à Europa sem pagar os direitos do rei, surgindo desta forma de contrabando a expressão “SANTINHO DO PAU OCO” como sinônimo de coisa marota.

Às vezes, o dono do engenho, o senhor das terras tinham um santo de devoção pessoal e obrigava o negro a cultuar esse santo. Isto justifica o fato de em Salvador, OGUM ser sincretizado com SANTO ANTONIO e não com SÃO JORGE.

Para que se entenda melhor, SANTO ANTONIO foi considerado como Capitão do Exército Nacional e pároco da igreja a ele dedicada, recebia o seu soldo do quartel.

3. RESUMO HISTÓRICO DA VIDA DE SÃO JORGE

São muito contraditórias as histórias sobre a vida de SÃO JORGE. Vejamos o que diz a Enciclopédia Barsa a respeito do assunto:
“Santo de grande devoção popular, padroeiro da Inglaterra, de Aragão e Portugal”.
Crê-se que foi martirizado em Lydda, na Palestina. Não há razão de se supor que ele se tenha referido a história eclesiástica de Eusébio, tanto que tem sido desacreditada a assertiva de Gibbom de que se tratava de Jorge da Capadócia, oponente de Atanásio.
 
Do século XI em diante, tornaram-se muito populares várias lendas sobre a vida de SÃO JORGE, que foram se tornando cada vez mais extravagantes.

A história do salvamento da virgem do dragão, aparecida no fim do século XII, e popularizada no ano seguinte, deve-se talvez ao fato de que a lenda clássica de Perseu e Andrômeda se refere a Jaffa ou Arsuf, não longe de Lydda.
SÃO JORGE ficou conhecido na Inglaterra, pelo menos a partir do século VIII. Não está claro, porém, porque se tornou patrono. Sem dúvida, os cruzados que voltavam de suas campanhas popularizavam o culto (diz-se que foi visto ajudando soldados no cerco de Antióquia), em 1.098, mas é provável que não tenha sido reconhecido como tal até o Rei Eduardo III havê-lo feito patrono da então recém-fundada Ordem da Jarreteira.

Em Portugal, sua devoção parece ter sido introduzida pelos cruzados ingleses que auxiliaram Dom Afonso Henriques na conquista de Lisboa, em 1.147.

Dom João I, o fundador da dinastia de Aviz, foi grande devoto de SÃO JORGE e o fez patrono nacional, em substituição a Santiago, que já era dos castelhanos.

Ordenou que sua imagem eqüestre figurasse nessa célebre procissão e era de praxe a presença do santo.
Em São Paulo, esse costume perdurou até 1.872, quando a imagem desequilibrou-se do andor e caiu sobre um soldado, matando-o.

No Rio de Janeiro, a Irmandade de SÃO JORGE mantém sua igreja, de afluência popular, na Praça da República.

SÃO JORGE é um dos catorze santos auxiliares, e a sua festa tanto nas igrejas ocidentais, como nas orientais, é comemorada no dia 23 de abril.“

Vejamos agora uma opinião de Mario Sgarbosa e Luigi Giovanini no livro “Um Santo Para Cada Dia”, das Edições Paulinas.

“Se de SÃO JORGE possuímos só os Atos do martírio e mais precisamente sua Paixão (considerada apócrifa já pelo Decreto Gelasiano do século VI), poderíamos até duvidar de sua existência histórica Todavia, não se pode apagar com um simples golpe de caneta, uma tradição tão universal: a Igreja do Oriente o chama de grande mártir e todos os calendários cristãos incluíram-no no elenco de seus santos.
 
SÃO JORGE, além de haver dado nome a cidades e povoados, foi proclamado padroeiro de cidades como Gênova, de regiões inteiras espanholas, de Portugal, da Lituânia e da Inglaterra, com a solene confirmação, para esta última, do papa Bento XIV”.

Este culto extraordinário tem origens muito remotas, uma vez que seu sepulcro em Lydda, na Palestina, onde o mártir foi decapitado no início do século IV, era alvo de peregrinações já na época das cruzadas, quando o sultão Saladino destruiu a igreja construída em sua honra.
 
A imagem de todos conhecida, do cavaleiro que luta contra o dragão, difundida na Idade Média, faz ver a origem da lenda criada sobre este mártir e contada de várias maneiras em suas muitas paixões.
Diz a lenda que um horrível dragão saía de vez em quando das profundezas de um lago e se atirava contra os muros da cidade trazendo-lhe a morte com seu mortífero hálito. Para ter afastado tamanho flagelo, as populações do lugar lhe ofereciam jovens vítimas, pegas por sorteio.
 
Um dia coube à filha do rei ser oferecida em comida ao monstro. O monarca, que nada pôde fazer para evitar esse horrível destino da tenra filhinha, acompanhou-a com lágrimas até as margens do lago.
 
A princesa parecia irremediavelmente destinada a um fim atroz quando, de repente, apareceu um corajoso cavaleiro vindo da Capadócia. Era SÃO JORGE.
 
O valente guerreiro desembainhou a espada e, em pouco tempo reduziu o terrível dragão num manso cordeirinho, que a jovem o levou preso numa corrente, até dentro dos muros da cidade, entre a admiração de todos os habitantes que se fechavam em casa, cheios de pavor.
 
O misterioso cavaleiro lhes assegurou, gritando-lhes que tinha vindo em nome de Cristo para vencer o dragão. Eles deviam converter-se e ser batizados.

Também o fim deste glorioso mártir tem o sabor de lenda: Foi condenado à morte por ter renegado aos deuses do império. Os algozes infringiram-lhe no corpo os mais atrozes tormentos. Ele parecia de ferro.
 
Diante de sua invicta coragem e de sua fé, a própria mulher do imperador se converteu. Muitos cristãos, amedrontados diante dos carrascos, encontraram a força de dar o testemunho a Cristo com o extremo holocausto de suas vidas. Por fim, também SÃO JORGE inclinou a cabeça sobre uma coluna e uma espada super-afiada pôs fim a sua jovem vida.”

Na verdade, a região do Oriente onde os mercadores europeus cruzavam em busca das especiarias da Índia, havia a crença popular de um herói local cuja representação era a de um guerreiro árabe montado num garanhão branco que, juntamente com o cavaleiro, atacavam o dragão que simboliza as forças do mal.

A representação artística deste fato impressionou os cruzados (guerreiros de diferentes nacionalidades, mercenários ou não, que a mando do Papa tentavam tomar o poder na região para que a Igreja Católica pudesse se beneficiar, não só ficando dispensada do “pedágio” até então pago aos árabes, como cobrando esse mesmo pedágio das caravanas e mercadores estrangeiros) que levaram essa imagem posteriormente santificada pela Igreja numa tentativa de evitar que os cristãos cultuassem um mito não-católico.
 
Tanto isso é fato, que a despeito de SÃO JORGE ter sido cassado pela Papa Paulo VI, não temos conhecimento de nenhuma igreja dedicada a este santo, ter fechado suas portas.
No dia 23 de abril as igrejas de SÃO JORGE, no Rio de Janeiro e Salvador, são muito concorridas e sua freqüência é principalmente devido àqueles que aos domingos vão a Igreja e as segundas, quartas e sextas, vão ao Terreiro.}

Este texto foi extraído do Livro: IEMANJÁ / OGUM , da Coleção Orixás, de Pai Ronaldo Antonio Linares e Pai Diamantino Fernandes Trindade, que brevemente estará sendo reeditado pela Editora Madras 

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