sábado, setembro 22, 2012

CRISTIANISMOS: CONFLITOS NA IGREJA PRIMITIVA

O beijo de Judas, de Giotto di
Bondone (1304-06).
Há quem fale em “cristianismo”, mas a religião dos seguidores de Jesus foi, desde os primeiros séculos, marcada pela diferença entre credos, costumes, cânon, disciplina, administração dos sacramentos e forma de liderança. Os primeiros problemas enfrentados pelos discípulos foram superados com certa facilidade. A substituição de Judas por Matias (At 1,26) e a nomeação de pessoas encarregadas de prestar assistência “às viúvas esquecidas na distribuição diária de alimento” (At 6,1) foi feita, pelo que nos conta Lucas, sem maiores problemas. Mas a entrada de uma nova figura, contada como apóstolo, mas que ao contrário de Matias não esteve com os Doze “desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado dentre nós às alturas” (At 1,22), logo suscitou problemas.

Paulo, que no início de Atos aparece ao lado de Barnabé (11,25; 13,12), em segundo plano, vai aos poucos ganhando proeminência. A dupla “Barnabé e Saulo (11,25; 13,12), torna-se, em 13,14, “Paulo e Barnabé”. Em listra, durante sua primeira viagem missionária o “apóstolo dos gentios” é comparado a Hermes, “porque era ele quem trazia a palavra” (14,12). Paulo é eloqüente, culto, dotado de um notável espírito de liderança e ainda possui cidadania romana. A sofisticação teológica de suas cartas não passou despercebida por Pedro, que chegou a confessar que possuem “algumas coisas difíceis de entender” (2Pe 3,16).  

O capítulo 15 de Atos marca a primeira grande controvérsia entre os cistãos. Na cidade de Antioquia, na Síria, alguns judeus convertidos estavam ensinando que os homens não circuncidados não seriam salvos. Uma reunião em Jerusalém (que ficou conhecida como Concílio de Jerusalém) com a participação dos apóstolos e presbíteros foi organizada a fim de eliminar a controvérsia.

O livro de Atos registra que Pedro e Tiago discursaram no concílio. O primeiro disse que o jugo da Lei não de deve ser imposto aos discípulos (At 15,10). Tiago segue na mesma linha, mas faz algumas ressalvas: “abstenham-se de  comidacontaminada pelos ídolos, da porneia (termo de tradução difícil), da carne de animais estrangulados e do sangue” (At 15,20). Ele explica o motivo das proibições: “Pois, desde os tempos antigos Moisés é pregado em todas as cidades, sendo lido nas sinagogas todos os sábados". Ao que parece tais recomendações visam facilitar a convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Mas isso não fica claro. O apego de Tiago aos costumes judaicos deixou sua impressão nos textos no Novo testamento. Note que ele usa o termo “sinagoga” (Tg 2,2) e não “ekklesia” para se referir aos locais de reunião dos destinatários de sua carta. A ênfase que Tiago dá às obras também chama a atenção. Suas doutrinas parecem entrar em confronto direto com o ensinamento paulino (Lutero que o diga!). Mas Lucas não cita nenhum atrito entre Pedro e Tiago com Paulo. Após o concílio de Jerusalém os discípulos se deslocam para Antioquia (cf. At 15,30). Lá algo importante acontece. É preciso ler com atenção o que nos diz Paulo na sua carta aos gálatas.  

Paulo tem uma posição clara: “ninguém é justificado pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo” (Gl 2,16). Ele diz que enfrentou Pedro face a face por sua atitude condenável (Gl 2,11). O motivo: Pedro comia com os gentios, mas se afastava deles após a chegada de “alguns da parte de Tiago” (v. 12). Paulo diz mais: “até Barnabé se deixou levar” (v. 14). De um lado Paulo. Do outro Pedro, Tiago e Barnabé. Anote isso e voltemos a Atos.

Atos também fala de um desentendimento de Paulo com Barnabé em Antioquia (15,36), mas apresenta outro motivo: Barnabé queria levar João Marcos na segunda viagem missionária, mas Paulo se opôs, alegando que ele os havia abandonado na Panfília (15,38). Aqui algo fica evidente. Além de Pedro, Tiago e Barnabé, o “apóstolo nascido fora do tempo” também se desentendera com João Marcos. Paulo, um homem difícil.  O motivo da separação entre Paulo e Barnabé parece ser duplo: divergências (após?) o concílio de Jerusalém (Gálatas) e recusa da companhia de João Marcos (Atos).

Quando confrontamos o livro de Atos com as demais cartas do Novo Testamento notamos que a manutenção da unidade foi algo difícil. As comunidades cristãs primitivas foram ganhando características próprias, moldadas de acordo com o líder que as conduzia. Paulo tinha bons motivos para fazer um apelo à unidade diante dos cristãos que diziam “Eu sou de Paulo"; "eu de Apolo"; "eu de Pedro"; e "eu de Cristo" (1Co 1,12).

Quando os apóstolos morreram a situação ficou ainda mais grave. A falta de unidade doutrinária, da figura de um líder e de uma relação de livros considerados inspirados por todos os cristãos impulsionou a elaboração de um credo apostólico, a eleição de um bispo que pudesse governar a igreja com autoridade e a definição de um cânon (que ocorreu só no final do século IV).

No primeiro século a opinião de Paulo prevaleceu sobre os demais apóstolos. Os judaizantes deixaram de representar uma grande ameaça. Nos segundo século surgiu um novo inimigo: os gnósticos. Mas esse é um assunto para outra ocasião.


Jones F. Mendonça

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