quarta-feira, abril 25, 2012



Litografia colorida de Jean-Baptiste Debret que retrata o mercado de escravos na rua do Valongo. (imagem: reprodução)


O uso de técnicas modernas para analisar ossos e dentes provenientes de um cemitério de escravos descoberto sob a zona portuária do Rio de Janeiro traz informações sobre os africanos trazidos ao Brasil colonial, como mostra artigo na CH de abril. 


O Rio de Janeiro foi palco de capítulos marcantes da história da escravidão no Brasil. Por décadas foram desembarcados, comercializados e enterrados em sua área portuária milhares de escravos vindos da África, na maior das diásporas humanas conhecidas.


No contexto brasileiro, o Rio de Janeiro foi a grande capital da empresa escravagista, já que seus portos – segundo historiadores como o norte-americano Herbert S. Klein e o brasileiro Manolo Florentino – receberam cerca de metade dos africanos trazidos para a América portuguesa. Por isso, a cidade tem grande importância nos estudos sobre o tráfico negreiro.


Em 1996, um achado acidental, durante a reforma de uma casa na Gamboa, confirmou que sob a malha urbana estava situado um dos mais importantes cemitérios de escravos conhecidos no Brasil.


A localização do Cemitério dos Pretos Novos (criado em 1769 e extinto em 1830), um sítio histórico e arqueológico único na América, havia sido perdida devido ao intenso crescimento urbano ocorrido na área do Valongo (que abrange os atuais bairros de Gamboa e Saúde) após seu fechamento oficial em 1830.


Esse cemitério seria utilizado majoritariamente para abrigar os corpos de africanos que morriam antes de serem vendidos (daí a expressão ‘pretos novos’), o que constitui uma memória importantíssima e, ao mesmo tempo, um terrível testemunho desse processo histórico. 


Reconhecido pela memória local como um dos marcos da história da escravidão, o cemitério é hoje objeto de interesse de instituições de patrimônio histórico, de cientistas e sobretudo da comunidade da Gamboa.


O Cemitério dos Pretos Novos foi criado por Luís Melo Silva Mascarenhas (1729-1790), o marquês do Lavradio, então vice-rei do Brasil, por conta da transferência do porto de desembarque dos escravos do cais da praça XV, no centro da cidade, para o Valongo, na época fora dos limites urbanos.


Para o novo cemitério foi demarcada uma quadra com lados de 50 braças (tamanho aproximado de um campo oficial de futebol), terreno apontado em mapas e documentos de época. 


Segundo registros históricos, podia ser avistado dos trapiches e armazéns do mercado, de onde os escravizados teriam continuamente a visão aterradora do ir e vir dos corpos. Os cadáveres por vezes permaneciam dias insepultos, até que alguém os cobrisse precariamente com alguma terra.


Situado em área aberta e arenosa da praia da Gamboa, próximo ao morro da Saúde, esse cemitério passou a receber os enterros feitos anteriormente no largo de Santa Rita, em frente à igreja de mesmo nome, hoje no Centro da cidade do Rio de Janeiro. 


O historiador Júlio César Pereira, que pesquisou os arquivos da igreja, revelou que, nos últimos seis anos de uso do cemitério do Valongo, foi superada a média de mil enterros por ano.


O estudo de ossos e dentes ainda presentes na área desse cemitério, que teria recebido dezenas de milhares de corpos, segundo estimativas de alguns autores, é muito importante para aprofundar o conhecimento sobre os africanos escravizados e trazidos ao Brasil colonial.
 

Arcada dentária com polimento dos dentes, associado ao uso de plantas na higiene dentária. (foto: Sheila M. Souza)


Embora o cemitério nunca tenha sido objeto de escavações sistemáticas, o salvamento de 1996 proporcionou uma pequena coleção de dentes e ossos humanos dispersos, estudados inicialmente pela bioarqueóloga Lilia Cheuiche Machado (1938-2005), do Instituto de Arqueologia Brasileira, onde está hoje o acervo. Foram também recuperadas contas de vidro, louça e outros materiais relacionados ao contexto urbano do Rio de Janeiro e à escravidão.


A pesquisadora confirmou fatos descritos na literatura histórica, como a queima dos corpos e seu enterro em valas comuns, e verificou a predominância de jovens e de indivíduos do sexo masculino, resultado consistente com a população preferencial para o tráfico. Infelizmente, o estudo do material ficou inconcluso, devido ao falecimento de Lilia Machado.


Recentemente, um grupo de pesquisadores que já acumulam estudos sobre populações do passado, inclusive sobre os temas de escravidão e afrodescendência na América, retomou a pesquisa dos remanescentes humanos recuperados no Cemitério dos Pretos Novos. 


Os novos projetos multidisciplinares, apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), visam caracterizar melhor as origens dos indivíduos e descrevê-los em aspectos antes não estudados.





Fonte: Ciência Hoje

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