segunda-feira, junho 04, 2012



Sobre o "bode expiatório".

Detalhe de Bode Expiatório, de
William Holman Hunt. Detalhe no
isolamento e na terra árida do deserto
em que o bode se encontra. É assim
que o culpado por atos que não
cometera frequentemente se sente.
"E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode, e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso.

Assim aquele bode levará sobre si todas as iniqüidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto."
Levítico 16:21-22

A noção de "bode expiatório" vem do Antigo Testamento, onde dois bodes eram separados do rebanho e usados para a expiação dos pecados do povo de Israel. Um deles era sacrificado à Javé e o outro, depois de ser abençoado pelo sacerdote, que confessava todos os pecados do povo sobre o animal, era deixado ao deserto, sozinho, para ser arrebatado e então, expiar os pecados do povo. E esse conceito é de fundamental compreensão para nós, peregrinos muitas vezes tidos como bodes expiatórios. 

Acredito que o "bode expiatório" é reflexo de uma inclinação natural do ser humano de direcionar sua culpa e o que entende por "pecado" a outro objeto, ou indivíduo, a fim de purificar-se. Podemos citar vários desses ao longo da história. 

O Martírio de Salém, de Thomas
Slatterwhite Noble, de 1869. A maneira
na qual todos olham para a bruxa, de
forma em que ela própria tem o olhar
disperso, isso reproduz perfeitamente
seu papel de bode expiatório.
Poderíamos citar as feiticeiras, e mais tarde as bruxas. No mundo clássico, a prática da feitiçaria era severamente punida, principalmente se sobre o praticante recaíssem dúvidas sobre sua infidelidade com o poder imperial. A profª Maria Regina Cândido estuda os katádesmoi do séc. V A.E.C. e VI A.E.C. e argumenta que a feitiçaria na Grécia Antiga era uma ferramenta do cidadão, particular, influir nos assuntos públicos favorecendo seus interesses pessoais - e isso ia contra o ideal grego de sophrosyne, algo como "comedimento", "controle" ou "justa beleza". 

No Egito, como verificamos pelo Código de Hamurabi, datando de cerca de 1700 A.E.C., os governantes também tinham medo que seu poder pudesse ser afetado com feitiços e práticas ocultas de magia por parte da população, ou até dos aliados do governo regente. A pena aplicada à estes casos era a morte. 

Já na Idade Média e na Idade Moderna, pouco preciso comentar. O caso mais conhecido de todos é o caso das bruxas de Salém, em Massachusetts, no final do séc. XVIII na Nova Inglaterra (hoje Estados Unidos). Uma onda de histeria que varria a Europa, também conseguiu deixar sua poeira de extremismo nas Américas. Em síntese: foram as bruxas acusadas, como "bode expiatório" dos medos, da insegurança e dos pecados individuais de uma sociedade que nunca soube lidar com seus aspectos de sombras. 

Além disso, sem muita dificuldade, também foram acusadas pela Peste Negra, pelas doenças de uma aldeia ou pelas chuvas que destruíam as plantações de uma estação. Mais tarde, os judeus acusados pelo colapso econômico na Alemanha. As benzedeiras ou parteiras do Brasil colonial também poderiam ser acusadas pelo crime de bruxaria caso uma criança nascesse morta em um parto infeliz. 

São Miguel Vencendo do Diabo, de
Bonifacio Veronese. Satã é
frequentemente retratado como
derrotado, como perdedor, como se
sua derrota simbolizasse a perfeição
do gênero humano. 

Mas, sem sombra de dúvida, o maior injustiçado de todos os tempos, é o Diabo. Até as bruxas medievais eram frequentemente desculpadas por estarem, iludidas - coitadas elas! - pelas ações maléficas do Diabo. que queria destruir o rebanho de Deus. E até hoje ainda vemos assassinos, que no auge da hipocrisia humana, em seus julgamentos, confessam suas "missas negras" e seus pactos diabólicos, argumentando que na hora dos seus crimes, agiam sob o comando de Satã. 

Também pouco preciso falar da figura de Pã, que sem dificuldades é atribuída ao Diabo da mitologia cristã (onde o correto deveria ser o contrário) ligando os pagãos, ou neopagãos, a um possível satanismo ou anti-cristianismo. 

Bom, muitas vezes nós fomos tidos como "bodes expiatórios" ao longo da história, e exatamente por isso, temos de aprender a ser os primeiros a não cair nessa ilusão humana. Não são os demônios, o karma, os deuses, os Ancestrais, ou o Destino os culpados por nossas derrotas e nossos fracassos. Somos nós mesmos, com nossos medos, nossas frustrações e inseguranças que em algum momento desviamos, em alguma curva desnecessária, a nossa jornada. A vantagem é que, como não acreditamos em um Inferno eterno, temos a capacidade de voltar atrás e recomeçar de novo. E por vermos a Vida, não como uma linha reta e sim como um círculo ou uma espiral, voltamos e caminhamos ao futuro várias e várias vezes. E sem medo de errar. 

Eu arriscaria dizer que essa é uma liberdade na qual poucos estão dispostos a pagar. 

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