quinta-feira, dezembro 13, 2012

Se o Grão-Mestre em exercício, após conferenciar com os Mestres e Vigilantes em particular, antes do jantar, concordar em continuar como tal no ano seguinte, alguém da Grande Loja, nomeado para esse efeito, fará o elogio, perante todos os Irmãos, da sua gestão, etc, pedindo-lhe  humildemente, para dar a Grande Honra à Fraternidade (no caso de ser um Nobre; e se não o for, dirá a "grande gentileza"), de continuar a ser o seu Grão-Mestre no ano seguinte. Então o Honorável declarará o seu consentimento, através de uma vénia ou um discurso, como desejar. Após o que, o dito delegado membro da Grande Loja, proclamá-lo-á Grão-Mestre, e todos os membros das Lojas devem saudá-lo como tal. E todos terão, então, alguns minutos para que manifestem a sua satisfação. prazer e congratulações. 

Esta Regra retoma o que já constava da Regra XXIX: previamente ao jantar, em privado, os Veneráveis Mestres e os Vigilantes de todas as lojas, isto é, os representantes de todas as Lojas decidiam sobre a continuidade ou não do Grão-Mestre em exercício; optando pela afirmativa, chamavam o Grão-Mestre em exercício e solicitavam-lhe a continuidade. Tal como no final da Regra XXIX se postulava, só após o jantar, na formal Assembleia a decisão tomada era divulgada.

É tipicamente britânico o cuidado posto na prévia definição do cerimonial: um porta-voz dos representantes das Lojas efetua análise, necessariamente elogiosa (pois se a análise do mandato do Grão-Mestre tivesse sido negativa, este não teria sido convidado a continuar), da gestão do Grão-Mestre que termina o mandato e  pede-lhe que dê à Fraternidade a Grande Honra (se se tratar de um nobre) ou a "grande gentileza" (se se tratar de um plebeu) de continuar a exercer o ofício de Grão-Mestre por mais um ano. 

Esta Regra ilustra bem uma prática que acompanha a Maçonaria ao longo de toda a sua evolução: a prática da cortesia!

A cortesia nunca passa de moda. Não é algo que já não se usa. Pelo contrário, é intemporal e sempre atual. Distingue aqueles que prezam e respeitam os seus semelhantes dos que apreciam prioritariamente a sua própria imagem e cuidam exclusivamente dos seus interesses. O maçom deve ser sempre cortês. Porque praticar a tolerância, isto é,  respeitar os outros e as suas opiniões e as suas escolhas, independentemente de concordar ou não com elas (sobretudo quando com elas não concorda) também é dedicar-lhes um tratamento correto, digno, em suma, cortês.

A Maçonaria ensina aos seus obreiros que não basta a Sabedoria e não é suficiente que àquela se junte a Força. A obra, a conduta, que aspira a aproximar-se da Perfeição tem de ser simultaneamente Sábia, Forte e Bela.  Entre algo que é sábio e forte, mas não é belo e o que, sendo sábio e forte também é belo, qualquer um escolhe a segunda opção. Ao incluir a Beleza na trindade de caraterísticas dos atos, palavras e obras merecedores do nosso esforço, a Maçonaria chama a nossa atenção para o relevo que a Estética tem em tudo o que é humano e civilizado.

Não basta estar certo, tomar a decisão acertada, seguir o caminho correto. Isso é, obviamente essencial, pois é a substância do comportamento e das escolhas desejáveis. Mas, tal como o conteúdo só o é porque está dentro de um continente, a Substância, tendo inestimável valor intrínseco, necessita de Forma. Tanto melhor se aproveita a substância quanto esta se apresentar na Forma adequada. E mais fácil, mais agradável, mais suscetível de obter a nossa preferência, é a utilização de substância que esteja dotada de uma Forma que consideramos bela, agradável.

Os maçons aprendem assim que não basta ter Razão, há que saber expô-la de forma compreensível e tão agradável, bela, quanto possível. Um Sábio que seja um Bruto não deixa de ser Sábio - mas continua a ser um Bruto! Entre o Sábio Bruto e aquele que, talvez até porventura um pouco menos sábio, menos experiente, ainda precisando de fazer um pouco de caminho para chegar onde o Bruto já está, mas que, ao contrário dele, sabe expor o seu pensamento, apresenta a sua um pouco menor sabedoria com o atavio da Beleza, é este último que será seguido, que singrará, que fará valer as suas ideias. E, no entanto, o Bruto sabe um pouco mais...

Os maçons procuram que o Sábio Bruto remova as suas asperezas e aprenda a expor a sua Sabedoria com a Força da sua inteligibilidade e a Beleza que a torna apetecível - e simultaneamente que o menos Sábio mas loquaz e elegante aprenda o que lhe falta para vir a saber o que o outro já sabe. Não lhe interessa decidir se é melhor a Sabedoria ou se o são a Força e a Beleza. Pretende juntar todas e assim obter o melhor resultado possível. Entre o Sábio Bruto e o menos sábio Convincente e Elegante, prefere deles fazer dois Sábios Convincentes e Elegantes, pois é isso que é o melhor para eles e para todos os que com eles privam...

A prática do cerimonial, o treino contínuo da cortesia, que os maçons praticam contribui para a sua melhoria no seu comportamento social. Aquele que se habitua, se treina, que dá atenção,  a comportar-se com cortesia adquire a naturalidade nesse comportamento. Consequentemente, virá a distinguir-se por esse traço, a ser reconhecido por ele, a ser mais bem considerado devido a essa sua capacidade.

Também  o hábito de ser cortês nos evita alguns erros de reação dominada pela impulsividade. Aquele que se habitua a agir com cortesia aprende a não responder desbragadamente, a moderar os seus impulsos, a agir, não sob o efeito da ira, mas racionalmente. Assim se evitam erros que se poderiam pagar caro.

Muito se enganam, pois, todos aqueles que consideram obsoletos o cerimonial e a cortesia que os maçons continuam a observar!

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, páginas 143-144. 

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